Spleen e charutos

Julho 10, 2009

Derrubaram uma casa na minha rua

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 12:45 pm

O problema é que as roupas daquele tempo não nos cabem mais. Nós crescemos, e as imundícies filtrados por nossos corações ganharam nomes feios

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A semana passada, derrubaram uma casa na minha rua. O trator trabalhou dias inteiros, determinado como animal no cio. Havia algo de familiar naquela construção decadente, algo que despertava uma simpatia misteriosa, semelhante ao sentimento que nos obriga a cansar as pernas e ceder nosso lugar no ônibus a um idoso, algo que foi arruinado pra sempre.

Os velhos carregam mais do que as marcas abertas pelas picaretas do tempo. A cada golpe, uma ferida em nossa própria memória, retratos da infância extraviados num caminhão de mudanças que nunca mais iremos encontrar.

Quando minha avó chegava lá em casa, reunia os netos e contava histórias do tempo em que todos usavam fraldas. “Eu criei esses quatro meninos”, dizia cheia de um orgulho sem propósito. A julgar pela careta de minha mãe, haviam controvérsias, mas o fato é que Dona Marina se esticava pra nos alcançar como se olhasse pra baixo e nos tomava nos braços com tanto carinho que não deixava dúvidas. Contrariando qualquer evidência, nós já havíamos sido bonitos e inocentes como os recém nascidos de olhos esbugalhados, ainda assustados com o barulho do mundo aqui fora.

É curioso imaginar que antes de tanta fome, de tanta vontade, antes de conspirarmos pela coroa, antes de cobiçarmos a mulher do vizinho, ficávamos satisfeitos com as tetas cheias de leite de nossas mães. O problema é que as roupas daquele tempo não nos cabem mais. Nós crescemos, e as imundícies filtrados por nossos corações ganharam nomes feios. Entupimos nossas veias com desejos, colesterol e dinheiro.

Vestígio cansado de tanta inquietação, tecido desbotado, maltratado pelo uso, imagino a velhice como um calçado confortável, leito do tumulto que açoita o homem desde que ele aprende a se equilibrar sozinho sobre as próprias pernas. Mais tenso do que os músculos do trapezista, o coitado finalmente abandona o peso do corpo e flutua de olhos fechados no espaço.

A semana passada, derrubaram uma casa na minha rua. Majestosa, ela caiu como todos os déspotas da história, como todos os lacaios aduladores. Um estrondo magnífico antes da poeira acalmar num silêncio de quem está dormindo.

Julho 3, 2009

O coração denunciador

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 1:38 pm

Nossa imprensa diplomada desperdiçou mais uma chance de refletir a respeito do modelo de segurança pública pelo qual ansiamos

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não tem nada a ver com sangue, seringa ou agulha. O problema reside nos segredos preservados pelas paredes do coração. Por trás do “tum, tum” insistente que bombeia a vida, corre um rio caudaloso, ansioso feito matilha faminta, onde uma pilha de cadáveres criminosos navega à deriva, num escuro mais denso do que o gelado das sepulturas.

Médico nenhum vai auscultar meu peito. Não quero ninguém ouvindo o ruído dessas algemas, a queda da noite ressoando aqui dentro como uma porta que bate em um apartamento vazio. Todos os meus fantasmas arrastam correntes no interior dessa cela. No martelar obstinado de seus passos, o uivo das sirenes, grades forçadas e pedidos desesperados de clemência. Pancada e estampido marcando os compassos de minha aflição.

Não, ninguém nunca vai medir minha pressão. Sob a lona íntima do circo, o sangue ferve e abandona uma ponta de cigarro sobre rastilho de pólvora. Todos os pretos, todos os pobres, os maconheiros miúdos que apanham da polícia, no mesmo rugido de animal acuado sem o governo de sedativo.

Eu esperava que o caso ganhasse maior repercussão. Infelizmente, no entanto, nossa imprensa diplomada desperdiçou mais uma chance de refletir a respeito do modelo de segurança pública pelo qual ansiamos. Há alguns dias, o estudante Geferson Santos Santana, o Sinho, ligado ao Hip Hop, denunciou que foi agredido por um grupo de policiais militares que faziam a segurança da Praça de Eventos Hilton Lopes, durante um show do Forró-Caju. O ativista relatou que foi abordado pelos militares porque usava roupas ligadas ao movimento.

Se o leitor acolhe a informação como um acontecimento corriqueiro, reproduzindo o comportamento complacente dos periódicos, certamente nunca esteve sob o olhar desconfiado de um desses gorilas fardados. Eu, que cultivo um penteado digno dos figurantes de Hair e de vez em quando esqueço um restinho de orégano no bolso da calça, não sou doido de enfrentar essas festas populares sem a salvaguarda de uma credencial de imprensa por baixo da camisa. Não foram poucas as oportunidades em que o artifício revelou sua utilidade.

Minha preta não entende a preocupação que me assalta quando ela sai de casa sozinha. Eu escutei todas as coisas no céu e na terra. Eu escutei algumas coisas do inferno. Ela não entende que, entre bandidos e mocinhos, o zunido das balas perdidas persegue cada batida de meu coração.

Junho 25, 2009

Mundo grande

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 11:59 pm

Nossas aspirações se justificam quando adquirem a medida exata da vocação que as inspiram

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Deus me fez um cara fraco. Quem me encontra nas bodegas, uma barriga grande como o mundo, não adivinha o menino magro, quase sem recheio, no qual eu me reconhecia há uns pares de anos. Pele e osso como eu, só meu amigo Silas, tão franzino que a gente não sabia como seus ombros suportavam o peso daquele sonho. Ele alisava as cordas do violão, arrancando gemidos, e jurava que um dia viveria de música. Ninguém duvidava, mas parecia tudo tão distante…

A semana passada, Silas visitou Aracaju. Graduado em História e Salvador, seu sonho feliz de cidade, o magrelo voltou pra terrinha doido pra se amostrar. Foi por intermédio vaidoso deste escriba, o único problema da imprensa local – diplomada e incapaz de empregar corretamente uma vírgula – que Silas conversou com Paulo Lobo e agendou um show no próximo dia dez, no espaço privilegiado do Viva Ará Café. Ele ainda não sabe, mas encontrá-lo no meio da tarde, experimentando um instrumento fabricado por Nino Karva enquanto acertava os detalhes de uma apresentação, me ajudou a aquietar um rebanho de angústias. Naquela hora eu percebi que nossas aspirações se justificam quando adquirem a medida exata da vocação que as inspiram.

Sempre desconfiei de que levava jeito para a escrita. Observações de terceiros transformaram dúvida em convicção. Quando leio o primeiro parágrafo de Moby Dick, no entanto, me pergunto, assombrado, como a combinação de algumas palavras pode produzir tamanha magia. O mesmo espanto está guardado na melodia de “Sílaba muda”, uma das seis faixas presentes no EP “Em transe”, primeiro trabalho de Silas Giron, gravado após a conquista do IV Festival Universitário de Música da Bahia (Unifest), no ano passado. Se expressando sempre na condicional, Silas realiza uma verdadeira declaração de amor, comovente e contida como imaginamos os sentimentos dos poetas.

Para alimentar a minha prosa insossa, só tenho os acidentes escondidos entre a minha casa e a redação do Jornal do Dia. Silas, ao contrário, procurou a Praia do Buracão, o carnaval da Bahia, correndo desembestado como um bruguelo no meio da feira. Ao que parece, contudo, ainda não se deu por satisfeito. Durante nossa conversa, ele deixou transparecer um desejo de cair ainda mais pro sul, até encontrar o centro cultural do país, como os doces bárbaros que sempre fizeram a sua cabeça. Quem ouve seu disco com um pouco de atenção não tem nenhuma dúvida. O mundo é grande e o rapaz faria bem.

Junho 20, 2009

Vadiando na Tobias Barreto

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 12:34 am

“Vadiagem, em Aracaju, é ocupação para obstinados. Experimente esticar as pernas ao acaso, como aconselham Baudelaire e João do Rio, e a hostilidade do passeio morderá a planta de seus pés. Calçadas estreitas, acidentadas, irregulares. Nenhuma sombra de árvore no caminho. Nas grandes cidades, amigas dos automóveis, restaram as praças como refúgio dos andarilhos”.

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Até agora nenhum amigo observou, mas quando eu me acomodo na calçada do Café Casual e encaro de longe as feições da Praça Tobias Barreto, abandono pelo menos uns quinze anos no gesto. Viro menino. Desrespeito os muros do Colégio Nobel e dedico o resto de meu dia a desfalcar o acervo da Epiphânio Dória. Depois me sento no canteiro da avenida e, como um gatuno ansioso para esbanjar com as putas, viro as páginas do livro ali mesmo, satisfeito com a erudição nas entrelinhas de minha delinqüência.

Naquele tempo não existia tanto cimento. A gente enfiava o tênis da escola na terra escura, as meias quase tão sujas quanto nosso vocabulário. Quando o zelador se aproximava, cioso de suas obrigações, na tentativa de preservar os últimos peixes do aquário, só não era chamado de bonito. Ali, tudo nos pertencia, e não havia fi do cabrunco que demovesse a convicção daquela posse, natural como o ar em nossos pulmões.

Hoje, graças a uma parceria com a Petrobras, a Tobias Barreto é uma das praças mais bem conservadas da cidade. Apesar disso, a despeito da vizinhança com a Secretaria de Segurança Pública, já foi melhor freqüentada. Em minha época, a malandragem que imperava era como um exercício das próprias faculdades. Corria-se para dar vida às pernas, jamais para fugir da polícia.

Fazendo ouvidos moucos para os apelos da nostalgia, é preciso reconhecer, no entanto, a alegria interiorana que se desprende das barracas de comidas típicas na feirinha dos domingos, quando matronas gordas despencam da Igreja São José, após a missa, e temperam os eflúvios de milho cozido com a lavanda encarcada nos vestidos. Foi numa dessas ocasiões que me chamaram atenção para as inclinações etílicas do patrono empedernido no meio da praça. Impedido de acompanhar um espetáculo de rua pelos penteados extravagantes dos universitários, um gaiato escalou o pedestal da estátua e, como se abancasse na mesa de uma bodega, arranjou espaço para uma garrafa de cerveja. Foi lindo!

Pode ser que, no futuro, um cronista aborrecido com suas próprias sarnas mire a Tobias Barreto e chore de saudade por tudo o que agora repudio. Nada mais compreensivo. Desprezadas pelo fastio cotidiano, as paisagens urbanas são generosas. Acolhem com a mesma resignação o afago e o tabefe que lhe devem.

Junho 18, 2009

Por que a atual direção envergonha a Associação Brasileira de Imprensa

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 12:56 pm

Reinaldo Azevedo quarta-feira, 17 de junho de 2009 | 21:39

A ABI, atualmente presidida por Maurício Azêdo, divulgou uma nota sobre a decisão do STF, que considerou inconstitucional a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. Leiam a nota. Volto em seguida:

“A ABI lamenta e considera que esta decisão expõe os jornalistas a riscos e fragilidades e entra em choque com o texto constitucional e a aspiração de implantação efetiva de um Estado Democrático de Direito, como prescrito na Carta de 1988.
A ABI tem razões especiais para lamentar esse fato porque, já em 1918, há mais de 90 anos portanto, organizou o 1º Congresso Brasileiro de Jornalistas e aprovou como uma das teses principais a necessidade de que os jornalistas tivesse formação de nível universitário. Com esse fim, chegou inclusive a aprovar a possível grade curricular do curso de Jornalismo a ser implantado.
A ABI espera que as entidades de jornalistas, à frente a Federação Nacional dos Jornalistas promovam gestões junto às lideranças do Congresso Nacional, para restabelecer aquilo que o Supremo está sonegando à sociedade que é um jornalismo feito com competência técnica e alto sentido cultural e ético”.
Maurício Azêdo — Presidente da ABI

Comento
Certamente foi Azêdo quem redigiu o texto. Pessoalmente! Eu poderia considerar que aquele erro de concordância foi só uma distração. Mas a virgulação tumultuada do texto evidencia um sistema. Se Azêdo soubesse o que está fazendo, seria uma conspiração contra a língua. Como não sabe, é só ignorância das regras. Ele deve ter diploma, né?

Gostaria de saber qual artigo da Constituição torna obrigatório o diploma. Ou ainda: por que o jornalismo precisa do diploma para ter “competência técnica e alto sentido cultural e ético”. Outras experiências intelectuais não dariam essa competência técnica e esse sentido cultural? Quanto à questão ética, será que agora é privativa de universitários — e, em particular, de quem cursa jornalismo? “Ah, ele está falando de ética profissional”? É. Então é preciso provar que as faculdades de jornalismo são a fonte desse saber.

Só uma coisa: “Azêdo, você sabe consertar ar-condicionado?”

Junho 12, 2009

Vadiando na Olímpio Campos

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 1:53 pm

Quando eu resolvi morar no Centro, a dez minutos da redação do Jornal do Dia, ergui a mão para a estátua de Olímpio Campos, mas não fui atendido. Chegamos atrasados, eu e o poeta sufocado pelo meu sovaco. Os hippies já haviam tomado conta da sombra gótica da Catedral, e cercado um latifúndio com o sortilégio dos artesanatos

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Vadiagem, em Aracaju, é ocupação para obstinados. Experimente esticar as pernas ao acaso, como aconselham Baudelaire e João do Rio, e a hostilidade do passeio morderá a planta de seus pés. Calçadas estreitas, acidentadas, irregulares. Nenhuma sombra de árvore no caminho. Nas grandes cidades, amigas dos automóveis, restaram as praças como refúgio dos andarilhos.

Quando eu resolvi morar no Centro, a dez minutos da redação do Jornal do Dia, ergui a mão para a estátua de Olímpio Campos, mas não fui atendido. Chegamos atrasados, eu e o poeta sufocado pelo meu sovaco. Os hippies já haviam tomado conta da sombra gótica da Catedral, e cercado um latifúndio com o sortilégio dos artesanatos. Pulseirinhas de couro, brincos de arame polido, hieróglifos marcados na carne dos mais corajosos, além de paisagens pintadas rapidamente, num estalar de dedos, na superfície lisa dos azulejos. Tudo pelo preço de um baseado.

Sob o carinho idoso das árvores, todos os bancos quebrados. Desde as ruínas do Cacique Chá, até a extremidade oposta, nenhuma possibilidade de descanso sem o auxílio de algumas moedas. A sorte é o grande número de botecos. São pelo menos quatro, somente no interior da praça. No melhor deles, o único estabelecimento comercial que nunca fecha as portas em nossa cidade beata, um trailer escorado numa parede de engradados, bebe-se o quanto quiser, a qualquer hora do dia ou da madrugada, por um preço justo. A fauna é diversa. Além dos ratos e dos morcegos, as demais criaturas da noite. Putas, bêbados, artistas e travecos. Quem duvida pode consultar o cantor Deilson Pessoa, o produtor cultural Roberto Nunes, ou o artista plástico Anderson Camilo. Eles não devem negar os momentos desfrutados no sujinho.

Se os desígnios misteriosos que regem o universo assim desejarem, um passeio na Olímpio Campos pode render uma espiada pelas frestas abertas na couraça do insondável. É lá que uma senhora gorda, o último de nossos tipos urbanos, percorre o mapa riscado na palma das mulheres e lhes receita banhos perfumados para prender os maridos. A clientela é vasta, e se não proporciona o luxo da corte (a cartomante jura que descende de uma família nobre), tem sido suficiente para livrar a duquesa da indigência.

Eu ainda poderia mencionar a feira que emporcalha a vista de quem passa, e a Galeria de Arte Álvaro Santos. Mas a sujeira abandonada pela primeira é evidente, não carece de comentários, e na segunda eu nunca botei os pés, apesar de reiteradas tentativas. Vai ver que o soldado da Guarda Municipal que realiza a segurança do prédio não acredita que arte seja coisa de pedestres.

Junho 5, 2009

Presente de grego

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 12:53 pm

Quando meu pai me tomou nos braços pela primeira vez, há exatos vinte e nove anos, eu chorei muito e ele me ergueu bem alto, como quem ostentasse um troféu (…). De bar em bar, acabamos nos tornando amigos

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Em seis de junho de 1980 meu pai completou vinte e sete anos. Naquele dia, minha mãe chegou em casa com uma trouxa de tecido nos braços e, com muito cuidado, entregou o balaio ao aniversariante. Era o seu primeiro filho homem.

No início, eu me limitava a apalpar o mundo com olhos curiosos, estranho a tudo que não cheirasse a colo materno. Depois viriam os dentes, grunhidos ansiosos, doidos pra rebentar em verbo, alguma inquietação e, se Deus permitir, um bocado de cabelo branco. Cada passo era acompanhado com muita apreensão. Passos de gigante disposto a pisar a toa, ao sabor dos tropeços. Passos de quem nunca aprenderia a andar direito na vida.

Quando meu pai me tomou nos braços pela primeira vez, há exatos vinte e nove anos, eu chorei muito e ele me ergueu bem alto, como quem ostentasse um troféu. Com o tempo, no entanto, as lágrimas secaram e o dourado foi perdendo brilho. Eu virei um moleque feio, cheio de espinhas, incapaz de encarar as meninas na rua. Naquela altura, diferentes em quase tudo, contrariando o signo que nos rege, uma única inclinação nos aproximou. O velho fazia vista grossa para a minha timidez, e me arrastava numa peregrinação interminável pelos botecos da cidade. De bar em bar, acabamos nos tornando amigos.

Parceiros de copo, vocês sabem, não costumam medir as palavras. Colocam as cartas na mesa sem um pingo de constrangimento. A irmandade das bodegas abraça um corno triste e os jogadores derrotados da terceira divisão com o mesmo sorriso enternecido. Não existe dinheiro curto ou coceira no cacete poupada pela conversa. Foi em meio a esse gênero de honestidade que eu conheci o homem que pagava as contas lá de casa. Não fosse a cerveja, eu nunca saberia que, além de sustentar quatro filhos ingratos e educá-los com toda a sorte de sacrifícios, meu pai afundava no lodo escuro das paixões, o coração fustigado como um pedaço de pano largado no vento. Do legado construído para a nossa família, tomei posse dessa lição e a guardei como um segredo valioso, só pra mim.

Há exatos vinte e nove anos, em seis de junho de 1980, eu cheguei em casa num cesto e roubei o aniversário de meu pai. Faminto e chorão, apesar de tudo, fui recebido como um presente.

Maio 29, 2009

Eu, Camus e os romeiros de Zambrana

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 7:10 pm

Visitar a exposição “Romeiros de fé”, do repórter fotográfico Alejandro Zambrana, foi suficiente para me convencer de que passei a vida inteira na capital da Argélia

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não passo de uma criatura sem fé. Preciso de alguma tragédia doméstica para voltar os olhos súplices para o céu. Se uma conta atrasa e mastiga o resto de juízo escondido sob os anéis de meus cabelos, as goteiras do telhado me compelem furiosamente para a crença e a devoção. Assim que a chuva passa, no entanto, retomo a simplicidade confortável de minhas ocupações cotidianas, indiferente às entidades misteriosas desalojadas pela precipitação. Elas só moram nas nuvens porque não conhecem a cidade de Camus.

Em um ensaio sobre a terra onde passou a maior parte de sua vida, o Prêmio Nobel de Literatura Albert Camus elege a juventude e a generosidade da paisagem como os maiores responsáveis pela satisfação ruidosa e inconseqüente de seus concidadãos.

“É preciso, sem dúvida, morar muito tempo em Argel para compreender até que ponto um excesso de bens naturais pode prejudicar a sensibilidade. Aqui não existe nada para aquele que deseja aprender, educar-se ou tornar-se melhor. Essa terra não oferece lições. Nada promete ou deixa entrever. Contenta-se em dar, fazendo-o prodigamente, entretanto (…). Ordena que se faça um ato de lucidez, como se faria um ato de fé”.

Pois bem. Visitar a exposição “Romeiros de fé”, do repórter fotográfico Alejandro Zambrana, foi suficiente para me convencer de que passei a vida inteira na capital da Argélia. O que esperam aquelas mãos erguidas? O que desejam alcançar? No release enviado para a imprensa, Zambrana compartilha um testemunho curioso, que parece ter impregnado com sensibilidade singular os momentos capturados pelas lentes de sua câmera, e nos dá uma pista. “Quando estava indo a um dos locais de peregrinação em um ônibus coletivo, ouvi um romeiro dizer que quem vai a Juazeiro tem que sofrer”.

O mundo ainda vai girar um bocado antes do tempo riscar as primeiras marcas no meu rosto. Até lá, o azul inclemente que castiga os romeiros de Juazeiro, a velhice cheia de rugas, encurvada e devota, será para mim como um retrato de cores fortes pendurado na parede de uma galeria. Dotado de maturidade e senso estético inegáveis, contudo, o trabalho de Zambrana possui ainda um componente humano fundamental. Está tudo lá – carne, suor, aflição e empatia –, embora meus olhos imberbes não tenham idade suficiente para extrapolar a plasticidade do universo sensível e, de fato, enxergar.

Maio 22, 2009

Com o pé na lama, baby!

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 5:39 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Rock de verdade se faz com o pé na lama. Pelo menos no caso da Mamutes. Para alcançar o quartel general da banda – uma espécie de alojamento coletivo, abrigo de músicos e outros malucos talentosos, estúdio, empresa e residência da turma – foi preciso vencer o barro da Coroa do Meio. Logo que me acomodei, no entanto, alguma coisa no ar me disse que eu ficaria à vontade. Quando Rick Maia, anfitrião e guitarrista da banda, me perguntou se eu fumava, esqueci de levantar as mãos pro alto, mas agradeci intimamente a existência de Fernando Sávio, que registrou a própria loucura em letra de imprensa e me mostrou o que fazer da vida. Eu adoro esse trabalho!

Enquanto a gente aguardava a chegada de Odara (bateria) e Karl di Lyon (vocais), Maia e Thiago Sandes (baixo) trataram de me mostrar a casa. Convertida em estúdio, a sala estava entulhada de equipamento. Cases, amplificadores, cabos, pedais, pedestais e instrumentos, numa bagunça organizada para fazer a alegria de qualquer músico securento. Eles também aproveitaram o intervalo pra me falar das expectativas que rondam a Mamutes. Além do show agendado para o próximo dia 29, em Itabaiana, a banda pretende realizar uma turnê pelo interior do Estado. De acordo com Rick Maia, eles estão empenhados em conquistar novos públicos, levantar novos palcos. Maia acredita que os poucos espaços destinados à música autoral em Aracaju estão saturados, e que é preciso procurar novas experiências.

“Nós só temos o Capitão Cook. Ali o público é sempre o mesmo, vemos sempre as mesmas caras. Quando tocamos no interior, ao contrário, dá pra sentir uma energia diferente. Se a gente quiser sair do gueto, temos que trocar idéias com outras pessoas”.

Maia usa como exemplo a recente apresentação na última edição do Rock Sertão. De acordo com ele, o clima de Festival é muito saudável pra qualquer banda. “Foi incrível! Você via que as pessoas realmente estavam ali por causa da música”.

Depois de alguns minutos, o ensaio finalmente começou, com o reforço de uma presença ilustre. Daniel, vocalista da Plástico Lunar, fez as vezes de groupie e acompanhou todas as músicas batendo palmas e rebolando, como faria num show. O repertório foi baseado no primeiro EP, lançado há pouco mais de um ano. Uma novidade, contudo, chamou atenção. Parece que os meninos estão menos nervosos, atentos à cadência das canções, preocupados com a respiração da música. O resultado não interfere no peso, mas essa preocupação com a sonoridade acaba favorecendo as melodias que permaneciam encobertas pela massa sonora da Mamutes.

Maia já havia me adiantado que o próximo disco, em fase de pré-produção, traria elementos novos, seria fruto de um trabalho mais cuidadoso. “Vamos gravar tudo na Caranguejo Records. Queremos um resultado bacana”. De qualquer modo, deu gosto de ver uma banda tão nova fazendo um esforço para enxergar além do próprio umbigo. Eles não disseram, mas eu pensei com os botões que minhas camisas velhas perderam. É assim que se faz rock!

Maio 15, 2009

Medo da chuva

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 9:53 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O coração de meu amigo é um barraco na encosta. Vinte e nove anos de deslizamentos constantes o colocaram lá em cima. Não adianta o mestrado em filosofia, a leitura de Blake no original inglês. Tão logo o céu escurece, no alto, sugerindo um copo de conhaque para arrefecer a aflição, os silvos gelados do vento empurram lembrança de muita lama pelas fendas rasgadas na memória de suas paredes.

Como alguém levanta a própria casa em terreno movediço? Foi também a pergunta que me fiz um tempo. Na realidade, poucos distinguem o lugar mais adequado para se encostar. A tragédia certa não é menos angustiante do que o vadiar sem propósito de um cachorro perdido, e o alento de um abrigo é como refúgio criminoso, prédio ignorante de veleidades e conveniências. A primeira oportunidade deitada na cama da última chance. A mesma coberta, a baba escorrendo entre dois rostos no travesseiro. Somente depois vem a ciência do risco. Três dias seguidos de chuva, soterramentos e inundações.

Quando eu andava sem rumo, procurando acidentes na fortuna ordinária das esquinas, subia o morro e catava pedaços de papelão. Na feiúra descoberta das putas, encontrava o palmo de chão necessário para brincar meu latifúndio. Cavalices de macho, coices e desejos relinchantes. Nesse pasto de nojeiras celadas, eu juntava quatro tijolos para sustentar um pedaço rachado de zinco. Enquanto não houvesse alternativa viável, me ajeitaria por ali.

É certo que uma hora a força da água deita tudo abaixo. As toras de madeira dispostas contra o barranco não podem com a erosão continuada, cataclismo melífluo disfarçado em modos de mulher. Recordo o gosto do barro, café amargo que provava todos os dias, e estremeço pelo amigo na ribanceira. Por isso, pode ser apenas uma nuvem, mas ao perceber qualquer sinal de precipitação, entorno uma dose de Domecq e afago com carinho minhas paredes de alvenaria. Não é agradável a lembrança que conservo da chuva.

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