Spleen e charutos

fevereiro 8, 2010

Cabedal: a grande surpresa do Projeto Verão 2010

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 6:43 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Com alegria e muito sacolejo, os caras chegam longe, podem apostar

Meia dúzia de gatos pingados, quinhentas pessoas e não mais do que isso, acompanharam aquela que talvez tenha sido a melhor apresentação do Projeto Verão 2010. Apoiada em um juízo de valor, a eleição pode ser, naturalmente, contestada por terceiros, ansiosos para transformar a tietagem mais rasteira num parâmetro aceitável de avaliação. Importa, no entanto, discriminar as razões que fizeram da aparição da banda Cabedal na praia de Atalaia um acontecimento especial.

Preterida pelo edital lançado pela Secretaria de Estado da Cultura, que pretendia incentivar o amadurecimento da cena local por meio de apresentações na última edição do Verão Sergipe, a Cabedal talvez tenha sida a ausência mais lamentada naquele palco. Embora os critérios de avaliação elencados pela Secult ainda hoje sejam questionados no âmbito do Fórum de Música de Sergipe (para citar uma instância acima de qualquer suspeita), foi o lamentável equívoco dos curadores, que ignoraram o trabalho de bandas como a Plástico Lunar e da própria Cabedal, que alimentou o coro dos descontentes e provocou o escândalo.

Em pouco mais de uma hora, os caras provaram o que qualquer conhecedor da cena está cansado de saber. A Cabedal é a maior promessa da música sergipana em nossos dias. Com um empurrãozinho, aquela ajuda que não custa nada a ninguém, responsabilidade das esferas da administração pública criadas com o intuito de desenvolver o potencial cultural do lugar, os meninos chegam longe, podem apostar.

De acordo com os organizadores do Festival Grito, realizado no último fim de semana, em Recife, capital cultural do Nordeste, “não foi fácil lapidar as mais de 200 inscrições que recebemos até conseguirmos definir 22 bandas que vão preencher os 4 dias” do evento. As sergipanas Cabedal e Rótulo (ambas ignoradas em sua própria terra), no entanto, foram selecionadas.

No show do sábado, as composições calcadas no que existe de melhor na tradição musical brasileira – dos tropicalistas a Chico Buarque, de Mutantes a Luiz Gonzaga – colocaram um sorriso sincero na seleta platéia, que acompanhou cada acorde com uma alegria espontânea e um sacolejo no corpo comoventes.

Durante a apresentação, o vocalista Saulo Sandes prometeu que a Cabedal lançará um disco nos próximos meses. Eu, que não sou besta nem nada – e não canso do pronome pessoal que incomoda a tantos – prometo uma entrevista com os cabras nos próximos dias.

fevereiro 3, 2010

A música sergipana, entre o trabalho e o aperto de mão

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 6:49 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A Maria Gastona precisa economizar oportunidades

Quem escreve pra fazer amigos é assessor de imprensa. Minha seara é outra, afeita a uma espécie de honestidade que não admite contemporização. Ao despencar para a Rua da Cultura na última segunda-feira, encarei o caminho com a certeza de procurar o único espaço dedicado à divulgação da música sergipana que pode ser definido como democrático. Caminhei fiado nisso, sem um pingo de receio. O problema é que o interior de nossas certezas, eu logo descobriria, tem sempre um quarto arrumado para a decepção.

Deve ter sido uma noite especial. Responsável pela abertura do Projeto Verão, o projeto liderado pelo diretor de teatro Lindemberg Monteiro mais uma vez procurou privilegiar a cena sergipana. Esta semana, no entanto, além das locais Maria Gastona, Orquestra dos Palhaços, Kararoots e a onipresente Alapada, a noite contou com a apresentação dos forasteiros bem vindos da Móveis Coloniais de Acaju (DF), que tiveram nova oportunidade de pisar naquele palco, incentivados pelo aplauso carinhoso de centenas de pessoas. Digo isso escorado no julgamento alheio. Impedido pelo atraso inexplicável, um dos problemas que atentam contra o projeto ao longo dos últimos sete anos, fui pra casa logo depois da primeira apresentação.

Eu sei que já deveria ter aprendido, mas tenho a mania ultrapassada de respeitar os horários, observar as convenções. Fonte interminável de aborrecimento, o hábito me custou mais uma noite perdida entre os malucos e bebinhos do mercado, uma noite a menos de diversão.

Maria Gastona – Mas estaria tudo bem, se a apresentação da Maria Gastona tivesse valido o desencontro. Teríamos chegado em casa – eu e alguns poucos descontentes – sonolentos e felizes! Ocorre que o bando de mulheres que tripudiaram sobre algumas das pérolas do nosso cancioneiro durante mais de uma hora possuem uma longa estrada pela frente. Estrada essa que ninguém sabe onde vai desembocar.

Causa espanto, contudo, que apesar da inapetência e da pouca experiência acumulada, os espaços tão escassos de nossa cidade tenham demonstrado tanta generosidade com as meninas. Não me refiro aqui à Rua da Cultura, que acolhe a todos os músicos e gêneros sem distinção. Mas em menos de um ano, sem nenhum esforço aparente (as mocinhas nem mesmo dominam a execução de seus instrumentos), a Maria Gastona já tocou no Projeto freguesia e no Bloco da Limpeza da PMA.

Fica difícil aconselhar trabalho enquanto tanta gente acumula privilégios com apertos de mão…

fevereiro 1, 2010

naurÊa: ‘Antes cedo do que nunca’

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 8:27 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A putaria vai comer no centro, antes cedo do que nuncaEu só tenho compromisso com o meu próprio tempo, de modo que não me custa nada inventar uma tradição de apenas três anos. Foi lá, nos idos de 2008, quando a Casa Rua da Cultura tomou a feliz iniciativa de convidar os barrigudos da naurÊa para puxar um bloco de rua autêntico, popular e escrachado como determinam os anjos dionisíacos do carnaval. Desde então, uma semana antes dos festejos de Momo, o bando liderado por Márcio de Dona Litinha e Alex Sant’anna sobe num mini-trio para entoar marchinhas, composições da banda e versões tarja preta dessas mesmas canções para centenas de foliões extemporâneos. Nas palavras de Alex, é quando “a putaria come no centro”.

Se nada mudou nesse intervalo, a idéia do bloco Antes Cedo do que Nunca pode ser encontrada na reunião da comunidade com o universo lúdico que vem sendo negligenciado pelos grandes eventos comerciais. No ano em que a farra foi inaugurada, durante uma conversa telefônica que resultaria numa matéria modesta, que deveria colaborar com a divulgação do bloco, Lindemberg Monteiro (a cabeça por trás da armada) lamentou que os tais eventos comerciais (ninguém mencionou o Pré Caju textualmente) tenham tomado o espaço daquela que já foi considerada a maior festa popular do Brasil.

Fato incontestável, o assalto deixou muita gente carente de diversão, como atestam as centenas de pessoas que há dois anos colocam o bloco na rua, munidas exclusivamente da alegria de vestir uma fantasia e pular, feito doidas apaixonadas, atrás do trio.

naurÊa – Como afirma o release da banda, são duas palavras ditas muito rapidamente que representa uma sensação, um tipo de pressão sonora que diz muito sobre a força que mora em seu som. Som esse que resolveu reinventar a mistura particular que é o forró, ampliando e dando novas possibilidades para o xote, o xaxado e o baião, tradicionais ritmos nordestinos.

Formada em novembro de 2001, em Aracaju, a naurÊa toca basicamente o que chama de Sambaião. Como o nome já sugere, uma mistura de samba e baião. Mas não pára por aí. A banda recebe informação musical de várias partes do Brasil e do mundo: das batidas populares do universo negro de Laranjeiras ao costarriquenho Reggaeton; da música pouco convencional de Tom Zé às melodias de Cuba e do Leste Europeu; das guitarras “caribenhas” do Pará ao apelo do R&B e do Hip Hop. A idéia, muito mais do que fazer mistura, é mostrar as potencialidades do forró, é ter uma sonoridade própria com um sotaque local.

Sotaque que vem ganhando prestígio nacional, como testemunham as palavras carinhosas do jornalista Fernando Rosa – para quem a naurÊa “é daquelas surpresas que só um pais continental como o Brasil tem poder de produzir, e que a internet, especialmente, cada vez mais trata de projetar para além das aldeias”; e do músico Pedro Luiz, que atribuiu ao som da banda um poder revelador.

“”Eles me descortinaram um universo que me inspirou do mesmo modo que o Chico Science na década de 90″.

A concentração do bloco Antes Cedo do que Nunca ocorrerá às 16h30 desta sexta-feira, na praça Camerino, em frente ao prédio da Casa Rua da Cultura.

janeiro 26, 2010

O Corredor das Artes de Fábio Sampaio

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 8:42 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Fábio Sampaio, idealizador do Corredor das Artes, metendo o nariz onde não foi chamado

Foi observando o imenso vazio que toma conta de nossas galerias durante a alta estação que o artista plástico Fábio Sampaio concebeu o Corredor das Artes. Como sempre ocorre quando o rapaz mete o nariz onde não é chamado, o projeto – que será inaugurado amanhã, na galeria Sayonara Viana – se aproveita das carências do mercado local para apontar caminhos interessantes para todos os que gravitam em torno desse universo.

Fábio lembra que os principais espaços dedicados às artes plásticas de nossa capital insistem no pecado de fechar as portas nesse período, quando os artistas poderiam aproveitar o grande fluxo de turistas que visitam a cidade para conquistar a atenção de um número maior de pessoas. Manifestando uma preocupação antiga, ele acredita que, ao promover as coletivas, é possível contribuir com a formação de um público comprometido com os avanços necessários ao amadurecimento da atividade em Aracaju.

“Nossa pretensão é que as exposições dessa semana sirvam apenas como um ponto de partida. Nosso objetivo maior é a criação de um calendário anual, que possibilite ao artista plástico sergipano trabalhar sempre, durante o ano inteiro, além de, no futuro, realizar alguns intercâmbios com o pessoal que batalha lá fora”.

Para tanto, o projeto pretende permitir a aquisição de obras de arte a preço cômodo, ampliando o público consumidor de um produto que costuma ser supervalorizado. Somado a essa visão contemporânea do fazer artístico em Sergipe, existe também a valorosa iniciativa de ajudar instituições filantrópicas do estado, agregando um valor solidário à marca do projeto, através do repasse de 50% do valor comercializado pelas galerias para instituições filantrópicas.

Na coletiva de hoje à noite, sob curadoria da própria Sayonara Viana e de Elias Santos, uma exposição de xilogravuras, além de uma coletiva reunindo trabalhos de arttistas plásticos e fotógrafos. No próximo dia 28, na galeria do Espaço Cultural Yázigi, sob a curadoria de Fátima Bastos, pinturas, esculturas e fotografias.

As coletivas deverão reunir nomes bastante influentes, a exemplo de Adauto Machado, Fábio Sampaio, Willy, Márcia Guimarães, Ismael Pereira, Edidelson, Jacira Moura, Melcíades, Ricardo Teixeira, Elias Santos, Claudia Nen, João Valdênio e Marcio Garcez, entre outros.

janeiro 25, 2010

Música sergipana tipo exportação

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 8:28 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Da terrinha, sem nenhuma caravela, para o mundo

Embora tenha sido pensada para divulgar a música local na última edição da Feira Música Brasil, a coletânea Sergipe’s Finest – music from Sergipe começa a dar sinais de que o registro alcançará mais do que isso. Ao que parece, as 34 canções divididas nos dois discos que compõem o volume deverão testemunhar, no futuro, um momento muito particular, no qual os artistas da terra se livraram do complexo de minhoca e arregaçaram as mangas para se fazerem conhecidos no mundo.

De acordo com o cantor e compositor Alex Sant’anna, responsável pelo selo Disco de Barro, culpado pela ousadia do lançamento, o projeto é antigo e foi inspirado em um trabalho realizado pelo produtor Paulo André (leia-se Abril Pro Rock), que há cerca de cinco anos reuniu 20 artistas nordestinos na coletânea Music From Northeast.

Mas somente com a oportunidade sugerida pela Feira – quando Patrícia Polayne, a Banda dos Corações Partidos, a Plástico Lunar e o DJ Patrick Tor4 foram selecionados entre mais de 800 inscritos para se apresentar em Recife – a idéia de reunir os artistas mais representativos da música local, independente do sectarismo atualmente observado nos ambientes em que a nossa produção é discutida, conseguiu ganhar corpo.

Alex garante que “aconteceu tudo muito rápido”. Segundo ele, o longo tempo em que a intenção foi alimentada não ajudou na captação dos recursos necessários à empreitada, que só foi materializada agora por causa do apoio da Segrase (que garantiu a impressão do encarte), da Secult e da Fundação Aperipê (que garantiram a prensagem de 500 cópias, cada uma).

Alex explica ainda que não houve impedimento para que nenhum artista fizesse parte do disco. Segundo ele, a unidade observada na coletânea se deve a fatores pontuais, sobre os quais, mesmo estando à frente do projeto, não manteve nenhum controle.

“A maioria do pessoal que está no disco faz parte do Fórum de Música, e está a par de nossas discussões. Mas tem banda que ainda nem foi lançada, como a Vila Carmen, que eu conheci por acaso, quando eles estavam gravando no estúdio de Léo (Airplane, tecladista da Plástico Lunar), e achei interessante incluir na coletânea”.

Para que se tenha idéia da importância do registro, a coletânea conquistou a atenção do jornalista Marco Aurélio Canônico, da Folha Online, que destacou os nomes sergipanos como exemplo da boa música que é produzida à revelia da indústria fonográfica.

“Não conhecia nenhum dos nomes do disco – a bem da verdade, não conhecia quase nada de Sergipe, em termos musicais. É o tipo de acontecimento que faz a gente lembrar como existem centenas, se não milhares, de artistas de grande potencial largamente à margem dos canais (de distribuição e de comunicação) que levam aos ouvintes. Tem uma galera imensa e largamente desconhecida fazendo boa música no menor dos Estados brasileiros; imagina o que não rola nos demais”.

janeiro 21, 2010

Spok Frevo: Pra não dizer que não falei das flores

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 8:09 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A Sopk Frevo demonstra que a alegria, às vezes, tem alguma razão

Minha má vontade em relação ao Pré Caju, a festa de Fabiano, não é novidade. Todo ano eu reclamo do mijo que nossos visitantes abandonam na Avenida Beira Mar, e continua tudo por isso mesmo. Mas até eu sou capaz de aprender alguma coisa. Ao invés de me concentrar nas excrescências da economia festiva, resolvi empunhar uma lupa e procurar algo que valesse a pena mencionar. Este ano, pra minha felicidade, a programação ajudou nessa tarefa normalmente ingrata, e incluiu, entre os costumeiros pracatuns que animam a multidão, a música inspirada do coletivo Spok Frevo Orquestra, que puxa o bloco Caranguejo Elétrico, no próximo domingo, e demonstra que a alegria, às vezes, tem alguma razão.

Spok Frevo – A orquestra surgiu em 1996, inicialmente, com o nome Banda Pernambucana, formada para acompanhar shows de artistas pernambucanos. Mais tarde, tornou-se a Orquestra de Frevo do Recife. Em janeiro de 2003, o grupo ressurge com o nome Spok Frevo Orquestra, num batismo de Wellington Lima, desde então seu agente e produtor artístico, a convite e em parceria com o músico e produtor Zé da Flauta.
A orquestra tem como proposta mostrar o frevo fora da folia, dar um tratamento diferenciado, com arranjos modernos e harmonias arrojadas.
Os músicos abusam da liberdade de expressão em improvisos com uma clara influência do jazz. “O frevo é uma música única, diferente de todas, animada e com uma magia especial: a de passar felicidade”, descreve Spok.
A formação com 18 jovens e talentosos músicos pernambucanos é liderada pelo virtuoso Inaldo Cavalcante de Albuquerque, mais conhecido como maestro Spok, saxofonista, arranjador e diretor musical. No comando da big band do frevo, Spok conta, desde a formação original, com a experiência e o talento do primo Gilberto Pontes, o Gibasax, como co-diretor musical.
Como atesta o maestro Spok, deixando de lado uma modéstia desnecessária, em entrevista ao jornalista Gilson Oliveira, a Spok Frevo Orquestra deu mais um passo naquilo que se convencionou chamar, desde os 60’s, a linha evolutiva da música popular brasileira.
“A Spok Frevo Orquestra criou uma nova conduta moral para o frevo e está mostrando ao Brasil e ao mundo o quanto é bela e rica nossa música, derrubando várias e antigas teorias, quebrando tabus e colocando o Recife e Pernambuco em seu devido lugar como gerador de grandes talentos musicais”.

janeiro 19, 2010

Pra quem não gosta de pracatum

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 7:28 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A banda Anéis de Vento lança seu primeiro EP em pleno Pré Caju

O underground sergipano me enche de orgulho. Quando os inquietos militantes do meio ficam insatisfeitos com alguma coisa, botam as caras e fazem do próprio jeito. Prova disso, esse fim de semana, enquanto a maioria da cidade se embebeda na alegria simplória do Pré Caju, os meninos da banda Anéis de Vento reúnem uma platéia seleta, formada por malucos e afins, em torno do lançamento de seu primeiro EP. Além dos valentes anfitriões do Pré Castanha (apelido involuntário adquirido pela festa), o Capitão Cook abriga na mesma noite os acordes nostálgicos das bandas Mamutes e Plástico Lunar. Vai perder?

Anéis de Vento – Fundada em meados de 2006, a banda é formada pelos músicos Lucas (vocal e baixo), Raul e Rodrigo (guitarras), Gabriel (bateria).
O grupo tem como base o blues, mas também sofre influências do rock psicodélico e progressivo dos anos 60 e 70, além de acrescentar uma pitada do grunge dos anos 90 ao amálgama sonoro que já pode ser conferido no My Space da banda.
É com a mistura de todas essas influências que a banda tem a proposta de fazer um som que se mostre diferente aos ouvidos.

Mamutes – Calcados na sonoridade setentista do hard-rock, proto- punk e do blues, os Mamutes avançam numa manada potente e destruidora, impulsionados pelo instinto primitivo de sobrevivência: a sobrevivência do rock and roll!
Formada por Karl di Lyon (voz, rugidos), Thiago Sandes (baixo, voz), Marcos Odara (bateria, voz) e Rick Maia (guitarra, voz), a Mamutes se destaca por ser a primeira banda de rock de Aracaju cujos integrantes dividem o mesmo teto. A Mamutes House, ponto de encontro de músicos, poetas e artistas de todos os tipos, hospeda até mesmo bandas e músicos de outros estados.
Como o público da Mamutes está cansado de saber, os caras pretendem colocar um novo trabalho no mercado ainda este ano. “Estamos muito empolgados com a gravação desse disco. Do EP até hoje, ganhamos a maturidade e experiência necessárias para fazer um trabalho mais musical, abrangendo até públicos de outras tribos fora do rock. A intenção é justamente sair do gueto e mostrar que existem outros ritmos em Sergipe”, afirma Thiago Sandes, baixista da banda.

Plástico Lunar– Assistir a um show da Plástico é uma experiência difícil de esquecer. Melodias espaciais, arranjos complexos, timbres envenenados, letras filosóficas, climas que te levam pra longe. Tudo isso tocado por jovens que sabem o que fazem (músicos de mãos cheias) e amantes do bom e velho rock’n roll. É uma verdadeira viagem de volta aos anos 60 (época de ouro do surrealismo musical), com direito a costeletas quilométricas, óculos escuros, terninhos, plumas e paetês. Tudo emoldurado por boa música e melodias carregadas de sentimento.
A banda é composta por Daniel Torres (vocais e guitarra), Plástico Jr (Baixo e backings), Léo Airplane (Órgãos e sintetizadores), Julio Andrade (Guitarras) e Odara (bateria). Juntos, eles esbanjam talento nas suas composições, produzindo uma sonoridade que altera qualquer sentido, com letras e arranjos que soam ora paranóicos, ora reveladores.

Serviço:

Local:Capitão Cook
Data: 23 de janeiro (sábado)
Hora: 22 horas

janeiro 12, 2010

Sergipe é mesmo o país do forró?

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 5:27 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Rogério se pergunta, atônito, onde andará o forró

Há exatos dois meses, um grupo de artistas ligados ao mais genuíno dos gêneros musicais sergipanos encontrou o governador em exercício Belivaldo Chagas para lhe entregar uma pauta de reivindicações bastante extensa, na esperança de acabar com o que classificam como uma “verdadeira perseguição”. Resumidos em apenas uma sentença, os 47 pontos da pauta pretendem a valorização do forrozeiro e o resgate de nossas raízes. Apesar da justiça da causa, no entanto, eles se dizem decepcionados com o tratamento que lhes foi dispensado pelos gestores de nossa cultura desde a fundação do Movimento Salve, e avisam que não irão se acomodar.

De acordo com o forrozeiro Rogério, os artistas populares identificam um ranço pré-conceituoso na condução da política cultural do estado. Ele lembra que a sua geração, a mesma que hoje estaria marginalizada, foi responsável pela criação do conceito de artista local, e cobra o devido reconhecimento.

“Em nossa época, a maioria dos cantores da noite sergipana tinha um repertório baseado em Nelson Gonçalves e coisas do gênero. Fomos nós, com nossa coragem e criatividade, que criamos os traços que hoje identificam a música sergipana”.

Alguns dos pontos presentes na pauta apresentada pelo Movimento Salve, a exemplo da recuperação das festas que tomavam conta da Rua São João e do Gonzagão, seriam ponto pacífico, e já estariam aos cuidados da Secretaria de Estado da Cultura. Um projeto criado por Rogério, batizado como “Atelier do Gonzagão”, pretende realizar um trabalho de inclusão social através de workshops ministrados por músicos voltados para os alunos da rede estadual de ensino.

Para Tonico, um dos líderes do movimento, essa não é uma demanda apenas dos artistas, mas da própria comunidade, verdadeira protagonista dos eventos que ocorriam nesses espaços. “Acabar com eles foi um verdadeiro absurdo. Eles pertenciam à população”.

Apesar disso, Tonico insiste que o Movimento Salve foi uma reação dos artistas ao desprezo, e questiona as motivações que lhes obrigaria a essa situação. Segundo ele, ao privilegiar uma parcela dos artistas em atividade no estado, a Secult seria responsável pelo sectarismo que hoje pode ser observado entre os músicos.

“A gente percebe que existe um componente ideológico na distribuição das oportunidades. Como o forró é um gênero que sempre foi bem recebido em nosso Estado, a Secult nos identifica com governos passados. Para deixar sua marca, a secretaria nos penaliza”.

O músico Mingo Santana, que se identifica como um “sergipanista” e já manifestou seu apoio ao movimento, reitera o seu ponto de vista, afirmando que a briga do Movimento Salve diz respeito ao conjunto da sociedade. “Devemos todos apoiar todo e qualquer movimento de libertação”.

O resumo da ópera, a briga pela implantação de uma política cultural independente de gestores e governos, no entanto, foi escrito pelo cantor Rogério. “Quando eu cantei que Sergipe era o país do forró, isso se devia a uma razão muito evidente. O forró estava espalhado pelos quatro cantos do estado. Onde está ele agora?”.

janeiro 11, 2010

NPD Orlando Vieira – democratizando o audiovisual

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 3:00 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

“Aos poucos, o NPD vai sendo conhecido e usufruído por outros setores da sociedade”

A partir de hoje, além de uma grande amiga, Graziele Andrade, diretora do Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, será por mim reconhecida como a entrevistada mais escorregadia da história desse diário. Desde que assumiu a gestão da Núcleo (eu normalmente o apelidaria de elefante branco, ou gigante adormecido, mas a moça me convenceu, ao menos em parte, de sua importância), Grazi prometeu responder a algumas perguntas, revelando seus planos para aproximá-lo da comunidade e justificar o investimento realizado em sua manutenção. Esperta como a gota, ela finalmente considerou minhas perguntas carregadas de maldade, mas o fez como bem entendeu.

Jornal do Dia – O NPD Orlando Vieira foi inaugurado há algum tempo (quanto tempo mesmo?), com a promessa de interferir de maneira positiva em nosso incipiente cenário audiovisual. Apesar disso tudo, parece que os resultados não acompanharam o investimento realizado. O que pode ser feito pra mudar esse quadro?

Graziele Andrade – O NPD Orlando Vieira foi instituído oficialmente em 01 de setembro de 2006 e no dia 30 de novembro do mesmo ano, foi disponibilizado pela Prefeitura Municipal de Aracaju para o funcionamento num imóvel alugado na Rua Lagarto, nº 2161, local onde permanece até hoje.
O espaço do NPD engloba salas de aula equipadas com TV, DVD, computadores Imac, home theater, telão, projetor, além de um Kit de captação de imagem e outros equipamentos. Foi através dessa estrutura e das ações de fomento à produção audiovisual independente que ao longo de apenas três anos de existência, o NPD Orlando Vieira democratizou o conhecimento audiovisual para mais de 300 pessoas, levando-se em conta apenas os alunos dos cursos. Se contarmos os participantes das atividades de formação do olhar (mostras de filmes com debates), lançamento de curtas sergipanos e de longas-metragens como o “Canta Maria”, veremos o impacto considerável da chegada do Núcleo em Aracaju.
Outro bom argumento é a ligação de grande parte dos realizadores sergipanos concorrentes no Curta-SE com os cursos oferecidos pelo NPD.
Portanto, o NPD Orlando Vieira interfere positivamente, como você mesmo diz, nesse cenário audiovisual incipiente que, para evoluir, necessita de investimentos que vão desde a formação à geração de um mercado audiovisual consistente.

Jornal do Dia – Eu sinto falta de uma integração maior entre o NPDOV e a comunidade. Existe a intenção de levar um número maior de pessoas para dentro do Núcleo? Como fazer isso?

Graziele Andrade – No pouco tempo de existência do NPD, vejo a integração com a comunidade como um processo em crescimento. No início – e acho até lógico pela ligação do produto oferecido, o audiovisual – houve uma aceitação imediata dos universitários de Comunicação Social. Aos poucos, o NPD vai sendo conhecido e usufruído por outros setores da sociedade.
Ao longo deste ano, recebemos crianças e adolescente do Instituto Recriando, que se encontram na chamada situação de risco social. Também oferecemos exibições de filmes nacionais, através do projeto “Paralela Infantil”, a 455 alunos da rede pública de ensino de Aracaju. Esse é o tipo de investimento, a longo prazo, que acredito ser importantíssimo para no futuro, o conteúdo sergipano, além de ser competitivo nacionalmente, ter uma platéia, em seu próprio Estado, consciente do importante valor de reconhecer sua identidade cultural.

Jornal do Dia – Como você, na qualidade de diretora do Núcleo, avalia os investimentos realizados pela administração pública em produções de forasteiros (“Orquestra dos meninos”, “Arthur Bispo do Rosário”)? Muitos acreditam – e eu me alinho a estes – que tanto dinheiro poderia ser mais bem investido.

Graziele Andrade – Eu avalio os investimentos públicos que foram feitos em longas-metragens produzidos por realizadores de outros Estados como parte estrutural desse processo de amadurecimento audiovisual pelo qual cenas iniciantes precisam passar. Quando essas equipes se instalam em nosso Estado, apresentam experiências, tanto positivas quanto negativas, adquiridas ao longo de anos de convívio com cenas audiovisuais mais avançadas. E nesse confronto de realidades, os profissionais sergipanos aprendem muito e, dessa forma, acabam, indiretamente, usufruindo do recurso disponibilizado pelo erário sergipano.

Jornal do Dia – Ano passado, o Curta-SE (maior evento relacionado ao universo audiovisual sergipano) correu o risco de ser cancelado. Depois de ser adiado duas vezes, ele finalmente foi realizado, mas motivou uma série de críticas, direcionadas principalmente à falta de organização. Você acha que a dependência do financiamento estatal prejudica, de alguma forma, as atividades culturais do Estado?

Graziele Andrade – Entendo o financiamento estatal como peça chave na construção de uma economia cultural saudável. O produto cultural não deveria ter uma relação de dependência com a iniciativa privada porque a lógica, nesse caso, seriam as diversas variações do mercado, o que deixaria projetos artisticamente maravilhosos, mas sem nenhuma relação direta com o lucro, excluídos do conhecimento público.

Jornal do Dia – Hoje, você faz parte dos quadros da administração pública, e tem a oportunidade de interferir de alguma maneira na política cultural do município. Nessa condição, você acredita que já podemos afirmar que possuímos uma política cultural efetivamente implantada em Aracaju? Muita gente acredita que o maior equívoco dessa chamada política cultural é o direcionamento expressivo dos recursos aos grandes eventos (a exemplo do Forró Caju). Você comunga com esse pensamento?

Graziele Andrade – Em relação ao audiovisual, a Prefeitura Municipal de Aracaju/FUNCAJU tem um enorme reconhecimento por ter implantado um Núcleo de Produção Digital. Atualmente, existem em funcionamento 15 Núcleos de Produção Digital (NPDs) do Olhar Brasil distribuídos pelos estados brasileiros. E entre estes, o NPD Orlando Vieira é um dos mais atuantes, apesar das dificuldades encontradas na política cultural em todo o país. Existem lugares em que o Núcleo se configura como mais uma ação de apoio e fomento à produção audiovisual, em outros, como é o caso de Aracaju, o NPD é a primeira intervenção pública planejada para o setor.

janeiro 5, 2010

Secult divulga resultado de edital e desagrada artistas

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 9:00 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

The Baggios, uma das poucas surpresas boas selecionadas pelo edital

Quando a Secretaria de Cultura lançou um Edital para selecionar os artistas que se apresentariam na Arena Multicultural do verão Sergipe, gerou uma grande expectativa entre os músicos que enxergam no trabalho a ferramenta mais apropriada para a reverberação de seus projetos. Divulgada no início da noite da última segunda-feira, contudo, a lista com o nome dos doze eleitos pela curadoria da Secult acabou responsável por uma grande decepção. Eu fui provocado por alguns dos descontentes e, como não costumo fugir da raia, saí a campo para conhecer os argumentos da galera.

A princípio, a maior parte de minhas fontes ficou reticente, com receio de fazer o papel ingrato do ressentido. No entanto, uma rápida conversa foi suficiente para convencê-los da importância de discutirmos o assunto pelas vias apropriadas, levando a público os sussurros que povoam os subterrâneos da música sergipana.

O cantor e compositor Deilson Pessoa atacou a questão de frente, como costuma fazer sempre que o procuro. “Não acato o resultado do edital Arena Multicultural. E é com coragem e desconforto que assumo isso. Coragem e desconforto por ter sido, eu mesmo, um dos inscritos não contemplados, o que pode levar alguém a questionar as minhas motivações. Sou defensor então de que, ao invés de choramingar sempre que não pudermos ser a carta da vez, devemos sim desenvolver o cenário local com iniciativas independentes, além de nos lançarmos pra lá das fronteiras do estado”.

Pessoa continua. “Se por um lado considero a ação independente como saída para o pouco número de eventos do estado – e não reconheço entre as atribuições do Governo a responsabilidade de fazer show pra sustentar artista –, por outro lado as participações nos eventos devem se dar da maneira mais democrática possível. Os espaços culturais estão sendo utilizados como propriedade de uma nova panelinha, que mais uma vez ameaça fazer cumprir a terrível maldição, aquela do tal cacique praguejador”.

Para Rick Maia, guitarrista da banda Mamutes, a secretaria deveria se concentrar em nomes que possuem projetos consistentes, e já formatados, para selecionar os músicos que se apresentarão na Arena.

“Estou muito triste pelo fato do meu “filhote” não ter sido contemplado. Estávamos contando com esse dinheiro para terminar o nosso CD. Tivemos um ano de muita luta pra consolidação no mercado local e esperávamos por essa oportunidade para alavancar os planos desse ano que são, além de lançar o CD, sair em turnê pelo país levando o nosso rock e o nome de Sergipe para todo o território nacional. Infelizmente, tem muita gente contemplada pelo edital que vai tocar uma noite, colocar o dinheiro no bolso, e esperar pelo próximo presente do Estado”.

O guitarrista Allen Alencar (Elvis Boa Morte e os Boas Vidas) e o vocalista Rafael Oliva (Ode ao Canalha) lamentam a ausência de algumas bandas bastante ativas no cenário local, bandas que na avaliação dos músicos (e deste escriba) podem oferecer muito à nossa cultura. “Eu estranho muito que uma banda como a Cabedal, que possui público, um trabalho consistente, envolvimento com a cena e o escambau tenha sido preterida em favor de alguns dos nomes que estão na lista. Tem gente ali que não mora em Aracaju há muito tempo e não realizou mais do que seis shows a vida inteira”, defendem.

Critérios questionados – A maior parte dos insatisfeitos aponta na ausência de critérios claros para a seleção o maior problema do edital. Em uma lista criada pelos participantes do Fórum de Música da Secult, os produtores culturais Elma Santos e Jota Pê questionaram a transparência da seleção.

De acordo com a diretora de projetos da secretaria, Kadydja Albuquerque, contudo, a avaliação dos jurados está disponível na Secult. Segundo ela, foram analisados itens como Potencialidade; Profissionalismo; Obra em análise; Alinhamento do artista ou grupo com a proposta estética da Arena Multicultural.

A curadoria realizou a seleção em duas etapas diferentes. A análise documental foi realizada pela própria Kadydja Albuquerque e pelo coordenador de Música da Secult, Eduardo Prudente; A análise qualitativa, foi realizada pelo professor do Conservatório de Música de Sergipe, Emanuel Vasconcellos, pelo Coordenador do Curso de Música da Universidade Federal de Sergipe Hugo Leonardo Ribeiro, e pelo diretor da Aperipê FM, Léo Levy.

A secretária de Estado da Cultura, Eloísa Galdino, afirma que a Arena Multicultural é um espaço que foi pensado exclusivamente para a apresentação de artistas sergipanos.
“Esta é uma maneira de ampliar a participação dos nossos músicos no Verão Sergipe, uma vez que já teremos alguns nomes se apresentando no palco principal. Esse esforço da Secult reflete o nosso compromisso com a cena musical sergipana, mas revela também a preocupação em adotar critérios democráticos e transparentes na escolha desses artistas, realizando um processo de seleção através de edital público”.

A lista completa dos selecionados pode ser conferida no sítio www.divirta.se.gov.br

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