Spleen e charutos

Novembro 23, 2009

O Circo Singular de Polayne registrado em disco

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 6:02 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quando Patrícia Polayne resolveu experimentar a vida mambembe, e arrastou os andrajos de sua poesia por aí, provando as delícias desse mundo inclemente, a música sergipana correu o risco de nunca mais sorrir com a mesma alegria. O longo intervalo entre a sua aparição, em 1995, quando debutou na noite sergipana, e o nascimento de um disco, testemunha a aflição guardada na promessa que não vingava, impossível de ser apalpada, artigo valioso que se negava à bagunça da estante. O caminho que corre, no entanto, também aquieta. Esta semana, sob a lona do Circo Estoril, Polayne, novamente entre nós, finalmente nos brinda com o lançamento de seu primeiro trabalho.

Lá se vão treze anos, desde que a cantora conquistou o Festival Canta Nordeste, primeiro de tantos. Contemplada com o Prêmio Produção Pixinguinha, contudo, este ano Polayne se concentrou na oportunidade de gravar seu primeiro disco, e apresenta um projeto autoral, dando uma contribuição inestimável para o enriquecimento da música brasileira.

O espetáculo “O Circo Singular” marca o esperado lançamento, e apresenta o universo desta que é considerada uma das mais expressivas artistas sergipanas em atividade.

O Circo Singular – Partindo do conceito de memória e interatividade, o repertório aglutina uma mostra de temas e releituras relacionados à tradição e contemporaneidade. Em outras palavras, a atmosfera das composições de Polayne é adornada pelas cores de um nordeste híbrido e volúvel, ansioso por fazer justiça às nossas raízes ao mesmo tempo em que flerta descaradamente com as modernices em voga na música contemporânea.

Está tudo lá: cirandinha eletrônica, repente urbano, bossa super nova, xote trip hop, rave orgânica, domínio público, coco contemporâneo, macumba andina, xaxado trance, cacumbi, samba de aboio, chorinho lounge e mântricos maracatus modernos.

A linguagem audiovisual também será explorada no show O Circo Singular – que será registrado e deverá dar origem ao primeiro DVD de Polayne –, por meio de intervenções de vídeo e poesia. Assim, o show apresenta um formato próprio, maduro e pronto para o consumo, traduzindo a trajetória e a pesquisa da autora, uma artista apta para representar a sua geração, em som e imagens.

Datas dos shows:

25 de novembro:
Circo Estoril (em frente ao Shopping Riomar) – 20 horas
27 de novembro:
UFS (São Cristóvão) – 21 horas
28 de novembro
Laranjeiras (praça da Igreja da Matriz) 20 horas

Novembro 20, 2009

‘Zumbi Vive’ e o reggae transcende

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 3:30 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Comemorado hoje, o Dia da Consciência Negra possui um significado simbólico muito forte. Ao menos uma vez por ano – pelo menos uma vez na vida! –, os movimentos sociais que se relacionam com a questão de alguma forma possuem a valiosa oportunidade de colocar suas demandas em pauta e celebrar a própria cultura. Em Aracaju, um dos pontos altos da festa ocorre somente amanhã, quando o BNB Clube abriga a música engajada das bandas Reação, Oganjah, e Vibrações (AL). A apresentação é promovida pelo projeto Zumbi Vive, que trabalha silenciosamente há cerca de três anos, e vem resgatando o orgulho negro, inspirado por Zumbi dos Palmares e João Mulungu, entre outros militantes da liberdade.

De acordo com Ras Lau, baixista da Reação, ainda é preciso avançar muito no tratamento dispensado às comunidades marginalizadas. Ele cita o exemplo do Pantanal, ocupado recentemente pela polícia sergipana, e questiona. “Por que o Estado só entra ali para levar a repressão?”.

Para Thiago Ruas, vocalista da Oganjah, a construção da cidadania exige um esforço minucioso e cotidiano. Ele fala com a propriedade de um dos mantenedores do projeto CHAMA, responsável por diversas oficinas de cunho social e educativo que interferem de maneira efetiva na auto-estima dos moradores do Pantanal.

“Nosso envolvimento com a militância social é anterior à música, mas é muito bom conciliar as duas coisas. A música também pode ser um instrumento para a educação das pessoas, e para nossa própria conscientização. Quando eu canto, também falo pra mim. É um exercício”.

A observação de Thiago poderia fazer sentido em qualquer contexto, mas adquire um significado especial quando levamos em consideração o caráter transcendental presente nas composições das bandas sergipanas. Lau explica que uma pergunta norteia o trabalho dos caras. “A gente sempre se pergunta: Qual é a moral da história?”.

Apesar de todos os revezes observados – o reggae é marginalizado porque é uma música de preto, nas palavras de Moziah, vocalista da Reação –, a rapaziada vem colhendo os frutos de seu trabalho, conquistando um espaço cada vez mais relevante no cenário reggaeiro do país, e sobretudo junto a suas próprias comunidades. De acordo com Dona Ildete, idealizadora do projeto Zumbi Vive, isso ocorre por uma razão muito simples.

“Quantas crianças, quantos negros estão carentes de uma palavra?”

Serviço:

Local: BNB Clube
Data: 21 denovembro
Hora: 22 horas

Novembro 18, 2009

Sob o sol do meio-dia

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 4:31 pm

Rian Santos

O perfume de minha pele sob o sol do meio-dia – evidência inequívoca do sangue e do sêmen negro, estrume fecundo de nossa cultura.

Nos últimos dias, o noticiário local foi assaltado por uma grande surpresa. O pré-conceito racial persiste entre a gente. A médica Ana Flávia Pinto Silva quebrou as correntes que governavam os seus demônios, e abriu nossas narinas, empurrando o sexo do sinhozinho pelas fendas da criada. Sentimos o odor repulsivo da natureza, obrigados a nos reconhecer no fruto indesejado da violência. Somos, sim, filhos bastardos de uma satisfação culpada – A roupa alva da Casa Grande, o couro do chicote, a carne nua e lasciva da negrada no chão escuro da senzala…

Não foi no canavial assombrado pelo silvo da chibata e o banzo choroso dos africanos. Ocorreu em nossos dias, entre prédios gigantescos, em uma Aracaju asfaltada. Ana Flávia – bonitinha, mas ordinária – justificou a atuação de Lucélia Santos na adaptação do clássico de Nelson Rodrigues para o cinema, e, cheia de bestialidade, gritou: Negro! Parecia até que a moça estava sendo currada.

Ficamos todos indignados, mas repetimos a acusação da médica, cuspimos cheios de luxúria, como a personagem de Lucélia Santos, todos os dias. Sob o mito da democracia racial, a maioria da população suporta a pancada.

Recentemente, a ONU apresentou um relatório sobre o desenvolvimento humano no Brasil. Segundo o documento, entre outros dados apresentados, o número absoluto de pobres com renda per capita inferior a R$ 75,00 no ano de 2000 diminuiu em 5 milhões, entre os anos de 1992 e 2001. O número de negros pobres, entretanto, ao contrário da tendência, aumentou em 500 mil.

Alguém já disse que todo camburão tem um pouco de navio negreiro. Incontestável, o olor desprendido pela realidade continuará a nos incomodar até que a súplica de Castro Alves finalmente adquira algum sentido. “Colombo, fecha a porte de teus mares!”

Novembro 13, 2009

Trotamundos propõe novo olhar em exposição

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 11:53 am

Trotamundos propõe novo olhar em exposição

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

tROTAMUNDOSA fotografia que transborda o documento e subverte a linguagem, transformando-a em arte, em intervenção social, lançando um olhar diferenciado sobre o cotidiano. O Trotamundos Coletivo não espera mais do que isso. Tamanha pretensão poderia descambar em experimentalismo vazio, travestindo a ansiedade apaixonada do fotógrafo num hermetismo sem pé nem cabeça. A experiência de alguns dos nossos profissionais mais respeitados, no entanto, ofereceu ao projeto “Quem faz a foto?” o respaldo necessário para que a iniciativa funcionasse a contento. O resultado poderá ser conferido a partir da próxima semana, quando a Sociedade Semear abriga a primeira exposição do Trotamundos Coletivo.

Formado por Marcelinho Hora, Alejandro Zambrana, Daniely Clarisa, Danilo Bandeira e Zak Moreira, o Trotamundos Coletivo pode ser definido como o filho mais novo, ou uma dissidência, do Foto Clube Monalisa Godoy, que reúne fotógrafos profissionais e amadores em torno dos temas relacionados a esse universo.

De acordo com Zambrana, contudo, embora o Foto Clube desempenhe um papel importante, os cinco amigos precisavam partir para uma ação mais efetiva. Prova disso, a exposição “Quem faz a foto?” foi materializada logo após os três primeiros meses de existência do Coletivo.

“A criação de um coletivo pode ser bem complicada, pois meche muito com o ser humano. No nosso caso, felizmente, tudo aconteceu de maneira muito tranqüila”.

Fruto de uma oficina ministrada junto aos moradores da zona norte de Aracaju, a exposição “Quem faz a foto?” não possui relação com qualquer espécie de assistencialismo. Segundo Zambrana, o objetivo do Trotamundos é bem diferente.

“Nós queremos reunir as pessoas para pensar a fotografia. Queremos que as pessoas entendam que o exercício do olhar exige muita educação”.

Zambrana garante que a construção da mostra foi inteiramente realizada com a participação dos alunos. Ele revela que o resultado foi muito satisfatório, e que os trabalhos selecionados para a exposição possuem, invariavelmente, uma grande relação afetiva com os seus autores.

“Eles escolheram as fotos que afetaram, de algum modo, a sua percepção da realidade. Em algumas fotos, percebemos um olhar bonito sobre a periferia. Achei isso muito bacana”.

Local: Sociedade Semear
Data: De 16 de novembro a 04 de dezembro
Hora: 19 horas

Novembro 10, 2009

Beatlemania invade o Capitão Cook

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 7:43 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

TributoHá quarenta anos, mais precisamente em 22 de agosto de 1969, os Beatles lançavam o Abbey Road, canto dos cisnes da banda mais influente da história da música pop, e um dos discos mais vendidos de todos os tempos. Como esperteza pouca é bobagem, os velhinhos da Snooze – os caras tocam juntos há quase vinte anos – aproveitaram o pretexto para fazer barulho e convidaram a Daysleepers para celebrar a data em grande estilo. O resultado poderá ser conferido este sábado, quando as bandas desfiarão o repertório dos discos Abbey Road e Let it Be (este, sob a responsabilidade dos convidados) de cabo a rabo, no palco do Capitão Cook.

Explica-se. Meses antes das gravações de Abbey Road, os Beatles se enfurnaram num estúdio de filmagens para registrar em filme o processo de composição, ensaios e gravação de um novo disco, a ser interpretado ao vivo. Era Janeiro de 1969, mas o que viria a se tornar o disco/ filme Let It Be só foi lançado em 1970, como primeiro disco póstumo do quarteto, quando os Beatles já não existiam como grupo.

Quem conhece o trabalho das bandas sergipanas sabe que não existem nomes mais apropriados para realizar a homenagem. O envolvimento dos caras com o quarteto de Liverpool é antigo, e transparece na paixão com que o baterista Rafael Jr relata o seu primeiro contato com a música de Paul, John, Ringo e George.

“Lembro como hoje. As músicas mais conhecidas (baladas e hits da primeira fase) já habitavam minha mente, mas o divisor de águas foi uma fita k-7 gravada pelo meu Tio Tom, fanático pelo quarteto desde os 60. Isso foi de 86 para 87, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos. Eu levei essa fitinha BASF pra casa, e ficava ouvindo “Help!”, “I Wanna Hold Your Hand” e “Twist and Shout” o tempo inteiro. Mas a fita também tinha a pesada “I Want You” e coisas mais obscuras. Então, pra mim, não tinha essa hierarquia de fases e do que era hit ou não. Era uma coisa só, que me pegou de jeito, e pra sempre. A música desse quarteto é como um vício, fascinante, não sei explicar direito”.

Para Fabinho, baixista da Snooze, não há como mensurar a influência do quarteto ao longo do tempo.

“São melodias aparentemente simples num tratamento profundo, os arranjos dos Beatles costumam fugir do que se espera ouvir de um grupo pop. Os grandes são os que quebram barreiras, instigam tendências… É exatamente esse o legado dos Beatles. Junte isso a três cantores/compositores fora de série (sem esquecer de um batera sensacional) e um produtor que traduz suas concepções vanguardistas em arranjos sofisticados. É impossível ficar imune. Minha filha de 04 anos já é beatlemaníaca, ela não só curte como pede para ouvir a trilha do Yellow Submarine quase todos os dias!”.

Serviço:

Local: Capitão Cook (próximo ao farol da Coroa do Meio)
Data: 14 de novembro
Hora: 22h30

Novembro 6, 2009

Brincadeira de gente grande na galeria do Sesc

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 6:48 pm
Toy Art

Toy Art + Humor: possibilidades de síntese da forma e da técnica

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quem tem medo da arte contemporânea? A pergunta é recorrente, e conduz a conversa na mesa, sempre que tenho a felicidade de encontrar a turma que trabalha com as múltiplas vertentes dessa linguagem aqui em Aracaju. Na noite da última quinta-feira não foi diferente. Dessa vez, no entanto, o discurso possuía um objeto bastante palpável. A empreitada mais recente do artista plástico João Valdênio radicaliza os traços que identificam o conjunto de seu trabalho, e coloca a questão em pauta de maneira imperativa. Como, afinal, definir essa coisa vaga e super valorizada que chamamos de arte?

A exposição “Toy Art + Humor” flerta com todas as nuances do problema apontado logo no início do texto. Para o professor e artista plástico Milton Coelho, contudo, não há como se negar ao embate. “A Toy Art reúne aspectos do design, do lúdico, do brinquedo, da coleção… Isso tudo está muito presente no cotidiano das pessoas e vem sendo apropriado pela linguagem artística. Me agrada muito essa coisa de dar um sentido individual ao pré-fabricado”.

Segundo João Valdênio, o seu trabalho tem como norte a procura pela síntese. “Fazer, pensar, sentir, expressar e provocar, tudo isso vem caminhando junto com esses novos rumos. Com esta mostra pretendo apresentar minha primeira produção de Toy Art e outros objetos. O fio condutor traduz-se em bom humor, buscando desafiar as possibilidades de síntese da forma e da técnica”.

O designer Marcelo Prudente acredita que a confusão estética provocada pela Toy Arte, e por extensão, pela arte contemporânea, é natural e faz parte de uma dinâmica observada ao longo da história, quando os valores canônicos são postos em cheque para a criação de novos paradigmas. “O novo sempre assusta, mas a arte precisa quebrar paradigmas. Nesse sentido, a Toy Art é o que existe de mais interessante no momento. Ao customizar produtos industriais, os artistas criam um objeto de fácil assimilação, próprio para o consumo. As pessoas ainda precisam aprender como lidar com isso”.

A exposição “Toy Arte + Humor”, do artista plástico João Valdênio, fica em cartaz até o dia 02 de dezembro, das 10 às 19 horas, na galeria de arte do Sesc/Centro.

Novembro 5, 2009

ORSSE: uma bomba prestes a explodir

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 9:08 pm
Simão

“O carinho cultivado pela ORSSE não pode nos impedir de observar suas contradições”

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Administrada como um feudo, a Orquestra Sinfônica de Sergipe (ORSSE) não cumpre o papel social que justificaria o vultoso investimento realizado em sua manutenção. Nessas poucas palavras pode ser resumida a conversa que eu mantive ontem com o contrabaixista Pedro Simão, exonerado há pouco mais de um ano por determinação do maestro Guilherme Mannis, sem qualquer justificativa. O músico poderia ser apenas mais uma voz a emitir lamúrias, engrossando o coro dos insubordinados e descontentes, mas a consistência dos argumentos apresentados conquistaram minha atenção, assim como já haviam convencido grande parte da imprensa local, em episódio recente.

Simão lembra que as denúncias de ingerência no seio da ORSSE não são novidade, e remontam a sua fundação. Assusta, no entanto, que após mais de vinte anos – a ORSSE foi fundada em maio de 1985 – os equívocos não tenham sido reparados. Para ele, somente a realização de concurso público poderia solucionar os problemas de gestão observados atualmente.

“A ORSSE é inteiramente amparada por cargos de comissão. Além de ser inconstitucional, esse regime, que está sendo contestado judicialmente, permite os desmandos que ocorrem hoje. Na qualidade de diretor artístico, o maestro Guilherme Mannis administra a Orquestra como um feudo particular, e tem exercido suas funções de maneira autoritária, personalista, pré-conceituosa e racista”.

As denúncias são confirmadas por Malva Ramos, ex-assessora do maestro. Segundo ela, relatos de perseguições e assédio moral podem ser colhidos com muita facilidade no corpo da ORSSE. Ela afirma que a contratação de músicos por meio de editais têm atendido somente aos interesses do maestro, que estaria promovendo uma verdadeira limpeza étnica nos quadros da Orquestra.

“Mais da metade do corpo da ORSSE já foi exonerado. Hoje, apenas dois sergipanos estão entre os 68 músicos que a compõem. Os demais foram substituídos por amigos do senhor Guilherme Mannis. Muitos deles, no entanto, não possuem sequer habilitação em música, e vêm comprometendo a qualidade do conjunto”.

Para Simão, o carinho cultivado pela ORSSE não pode impedir o público que ela ajudou a formar de observar suas contradições. Segundo ele, a maneira como a orquestra vem sendo regida está ultrapassada, e é inspirada por um modelo criado na Alemanha nazista. Ele acredita que isso explica o tratamento racista dispensado aos músicos sergipanos e à cultura local, de maneira mais abrangente.

“Considero o tratamento dispensado pelo maestro inadmissível. Não admito que ele se refira à música de Sergipe como o samba do crioulo doido, nem afirme que o hino de meu estado é um plágio. A ORSSE vai crescer muito quando o senhor Guilherme Mannis estiver bem longe daqui”.

É com essa convicção que o músico tomará parte na manifestação que será realizada na manhã da próxima segunda-feira, quando os músicos locais ocuparão o púlpito da Assembléia Legislativa, cobrando respeito pela cultura popular sergipana e a efetiva implantação de uma política cultural em Sergipe.

Outubro 29, 2009

Cara feia pra mim é fome

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 6:40 pm

Bandas arregaçam as mangas e financiam viagem sem fazer cara de fome

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não tenho nada contra conversa de bar. Muito ao contrário. Devo ao ambiente inspirador, e à leitura do saudoso Pasquim, a redação de minhas melhores entrevistas. Talvez o hábito incomode alguns poucos, leitores engessados por uma concepção burocrática de notícia, mas o fato é que seria impossível comparar, com a seriedade adequada, dois trabalhos fundamentais na compreensão do atual momento da música sergipana fazendo concessões ao nervosismo de uma redação.

Tendo isso em mente, na noite da última quarta-feira me juntei aos músicos Plástico Jr (Plástico Lunar) e Julico Andrade (The Baggios) para entornar algumas brejas e conversar sobre as expectativas de mais uma apresentação além de nossas fronteiras. Convidados para se apresentar no renomado Festival Do Sol, os caras corriam o risco de perder o bonde, mas arregaçaram as mangas e organizaram a festa Help!, que a Casa do Rock abriga hoje à noite, se recusando ao hábito preguiçoso de bater na porta dos outros fazendo cara de fome.

Jornal do Dia – A The Baggios já comeu a poeira de muita estrada.

Julico – Rapaz, conte aí. Só esse ano, a gente visitou Recife (PE), João Pessoa (PB), Natal (RN), Poções (BA), Salvador (BA), Feira de Santana (BA) e Vitória da Conquista (BA).

Jornal do Dia – É muita estrada pra uma banda nova.

Julico – A banda vai completar seis anos, agora em março. Mas as coisas começaram a funcionar de verdade a partir de 2007, quando a gente lançou o primeiro EP. Foi quando começamos a fazer shows e participar mais ativamente do cenário local.

Jornal do Dia – Já a Plástico tem quantos anos? Me lembro de assistir a Plástico, ainda moleque, na ATPN.

Plástico Jr – Esses caras precisam tomar vergonha!

Jornal do Dia – Tenha calma que nós vamos chegar aí.

Plástico Jr – A Plástico Lunar, com a atual formação, nasceu em 2001, quando Odara (bateria) entrou na banda. A gente começou tocando no Punka, num palco pequeno, com a Lili Junkie e outros nomes que batalhavam no underground da época.

Jornal do Dia – Mas na verdade o núcleo da banda é bem mais antigo.

Plástico Jr – Como Plástico Solar, a banda existe desde dezembro de 1998. No ano seguinte, a Plástico tocou pra caralho, mas ainda não existia um circuito independente ou alternativo na cidade. A gente só conseguia se apresentar por que Tiaguinho, nosso baterista, fazia parte do meio pop rock.
Nos apresentamos muito no Tequila, em uns lugares nada a ver. Tocamos com a Mosaico, a Sibbéria, uns nomes nada a ver.

Jornal do Dia – Quando foi que isso mudou?

Plástico Jr – Quando Odara entrou na banda. Antes, o nosso trabalho era muito ingênuo. A transformação em Plástico Lunar foi uma tentativa de encarar o trabalho de maneira diferente, a gente precisava ficar mais malicioso.

Jornal do Dia – Em que sentido? Às vezes eu tenho a impressão de que o trabalho da Plástico podia ganhar uma dimensão muito maior.

Plástico Jr – Nós ficamos muito tempo na garagem. A gente só tocava o que queria. Com o tempo, mesmo defendendo uma personalidade musical, acrescentamos muito à nossa visão inicial do que significa fazer música. A gente percebeu que uma banda não é só composição. Ter uma banda é mais do que fazer músicas boas, com arranjos legais e gravações cuidadosas. Depois de apanhar um bocado, finalmente aprendemos o significado da palavra produção. Hoje nós temos ciência de que fazer a produção da banda é tão importante quanto compor uma música.

Jornal do Dia – Apesar disso, a Plástico tem apenas um CD lançado, depois de mais de dez anos de carreira.

Plástico Jr – Um jornalista de Brasília já cobrou isso da gente. Ele nos conheceu através de uma coletânea do selo Baratos & Afins lançada em 2001, e esperava que o disco não tivesse demorado tanto pra sair. Ele nos perguntou se tinha valido a pena esperar tanto tempo pra lançar o disco. Eu já me martirizei muito tentando responder a esse pergunta, mas talvez tenha sido melhor assim. Se o Coleção de Viagens Espaciais tivesse saído antes, a gente provavelmente não ia saber o que fazer com as respostas que conquistamos. A gente não tinha nada na cabeça, só queria saber de tocar bêbado, de encher a cara até de manhã cedo. Hoje, a gente pode lidar com isso um pouco melhor.

Jornal do Dia – Vocês estão se preparando pra pegar a estrada mais uma vez. Em que medida isso é importante para o amadurecimento das bandas?

Julico – Viajar mudou minha cabeça pra caralho. Eu era um cara que reclamava muito. Hoje eu percebo que é preciso botar a cara, batalhar pro trabalho ganhar corpo, pra depois cobrar alguma coisa do governo ou de quem quer que seja.
A viagem que faremos agora, por exemplo, será praticamente custeada por nossa conta. A gente podia ficar se lamentando, e desperdiçar a oportunidade de se apresentar em um dos maiores festivais do nordeste, mas preferimos organizar um show pra arrecadar a grana que falta.
É preciso ter uma visão profissional da banda. Todo artista independente quer ocupar o palco desses festivais, mas isso não cai do céu. A gente só conseguiu cavar esses espaços por causa de um investimento pessoal, motivados pela fé que a gente leva no trabalho das duas bandas.

Outubro 27, 2009

‘O artista sergipano é muito chorão’

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 9:11 pm

Léo Levi, diretor da Rádio Aperipê, porque trabalhar é preciso

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O diretor da Rádio Aperipê já conhece os nomes que deverão defender a bandeira de Sergipe no festival de música realizado pela Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub), mas não os revela nem sob tortura. A divulgação só ocorrerá na próxima sexta-feira, Dia da Sergipanidade, quando a programação da emissora será totalmente dedicada aos artistas locais. Isso não significa, contudo, que Léo Levi alimente algum receio em relação à exposição de suas idéias.
Em uma conversa rápida, entre um gole de coca-cola e outro, o rapaz e4xpôs suas impressões a respeito da cena local com uma franqueza corajosa, sobretudo quando levamos em conta a importância de sua posição. A conversa deveria girar em torno do Festival da Arpub. Malicioso como poucos, no entanto, torci o rumo da prosa até encontrar o porto que pretendia.

Jornal do Dia – Quando você assumiu a direção da Rádio Aperipê, o processo de aproximação com o artista sergipano já estava em andamento.

Léo Levi – Isso. Eu entrei lá por volta de 2007, na gestão de Patrick Tor4, quando fiquei responsável pela programação. Embora Patrick tenha sido responsável por essa aproximação inicial, o perfil da Rádio acabou sendo definido por mim e por Ricardo Gama, já que Patrick se dedicou mais ao exercício político inerente a suas funções. Isso facilitou muito o meu trabalho quando assumi a direção. Quando fui convidado para o cargo, agora em março, eu já sabia como as coisas caminhavam ali dentro, quem eram nossos funcionários, como cada funcionário funcionava… E esse conhecimento, num órgão público cheio de vícios, pode ser fundamental.

Jornal do Dia – Nesse período, a Aperipê acabou se transformando numa referência muito importante na cadeia produtiva da cultural local.

Léo Levi – Cara, a grande sacada foi dar espaço aos nossos músicos. Antes, a Aperipê conseguia veicular, estourando, cinco músicas por mês. Agora, veiculamos mais de quatrocentas músicas de artistas sergipanos mensalmente. Por isso a aproximação. Os artistas perceberam que teriam espaço em nossa programação. Eles começaram a enxergar a Aperipê como uma casa onde eles podiam ficar à vontade para divulgar shows, levar música, debater idéias e lançar propostas. Isso foi muito bom pra gente e, acredito, para todos os agentes da cultura sergipana.

Jornal do Dia – A partir de sua experiência profissional – tanto como diretor da rádio, quanto como produtor cultural – é possível falar em uma nova fase na música sergipana?

Léo Levi – Eu lembro de quando era garotão, no início da década de 90. Pra sair um disco era um grito. Lembro que o lançamento do primeiro disco da Snooze foi uma coisa de outro mundo. O mesmo pode ser dito do lançamento de Joésia Ramos. Hoje, com tanta tecnologia, com essa coisa toda de internet, ficou tudo mais fácil. Isso refletiu naturalmente na produção local.
Agora, um pouco mais recentemente, lá pros anos 2000, aconteceu uma movimentação bem interessante aqui na cidade, a cena estava borbulhando. Eu lembro das pessoas empolgadas. “Agora vai! Agora vai!”.

Jornal do Dia
– Parece que não foi…

Léo Levi – Parecia que ia acontecer, mas deu uma brecada, infelizmente…

Jornal do Dia – Os meios de comunicação sempre foram muito negligentes, e não se assumiam como um elo dessa cadeia, né?

Léo Levi – A divulgação era muito informal, baseada em zines e listas de discussões virtuais. Mesmo a Aperipê, uma rádio pública, permanecia indiferente, era uma rádio morta. Faltava uma válvula de escape pra coisa de fato acontecer.

Jornal do Dia – Por outra lado, no entanto, parece que o artista sergipano também reclama muito e se nega a encarar a música como uma profissão. Tem muita gente que identifica o artista local como uma cara chorão.

Léo Levi – Rapaz… Eu acho que não vou responder isso, não (sorrindo).

Jornal do Dia – Pode falar, eu prometo que não conto a ninguém…

Léo Levi – Eu acho o artista sergipano muito chorão. Tem uma gurizada que encara a atividade com muita seriedade, que está dando um gás, mas a gente ainda percebe em certa parcela da classe artística um certo comodismo. Eles acham que o governo, ou a Funcaju, ou sei lá o quê, tem obrigação de bancar o trabalho preguiçoso que fazem. Eu acho que isso atrapalha o desenvolvimento da cena, na medida em que algumas bandas que trabalham de verdade acabam sofrendo, sendo apontadas como pupilo do governo, coisa e tal.

Jornal do Dia – Você está se referindo ao “caso NaurÊa”?

Léo Levi – Pois é. Tem gente que prefere ficar se lamentando ao invés de ocupar os espaços existentes. Eles criticam a Naurêa, ficam falando essas besteiras, mas podiam trabalhar para conquistar o mesmo respaldo. Mas parece que é mais fácil fazer acusações.

Outubro 16, 2009

Noite de muito rock no Capitão Cook

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 4:08 pm

 Vocalista da Daysleeper, em registro de Danilo Bandeira, durante as gravações do primeiro disco da banda

Vocalista da Daysleeper, em registro de Danilo Bandeira, durante as gravações do primeiro disco da banda


Os cabras da Daysleepers não perdem tempo. Caçula do cenário alternativo local, a banda vem trabalhando com dedicação, e rapidamente se firmou como uma das maiores promessas da música pop sergipana. Como eu também não tenho nada de besta, aproveitei o show que os caras realizam amanha à noite, no Capitão Cook, e troquei dois dedos de prosa com o camarada Arthur, vocalista e compositor de todas as músicas da banda. Ele me explicou que o a intenção é transformar o show “60’s Sounds” numa grande celebração musical, e comentou a respeito de algumas conquistas da banda.

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Jornal do Dia – A primeira vez em que a gente conversou, no início do ano, a Daysleepers ainda era uma banda muito verde, embora não tivesse nada de imatura. Agora, alguns meses depois, vocês já realizaram diversas apresentações fora do Estado, e se dedicam à gravação do primeiro disco. Deu pra aprender alguma coisa num período tão curto? Como foi a experiência da “Invasão Sergipana”?

Arthur – Com certeza. Amadurecemos bastante nesse tempo, graças às oportunidades que surgiram ao longo do caminho e da certeza de que vale a pena per seguir os objetivos da banda. A turnê reforçou foi muito importante pra reforçar nossos pensamentos e compromissos. Além dos bons shows que fizemos e vimos, trouxemos na bagagem muitas histórias e uma amizade muito grande com os nossos amigos da The Baggios e Elisa, além da relação entre nós cinco ficar muito mais forte. Foi uma experiência excelente.

JD – Você pode me corrigir se eu estiver enganado, mas tenho a impressão de que existe uma presença muito forte de suas maiores influências (The Beach Boys, Beatles, etc e tal) no EP Tempo, primeiro trabalho da banda. Esse primeiro disco oficial aponta para a mesma direção? O que a galera pode esperar dessa nova empreitada? Quando é que o disco fica pronto?

Arthur – Eu diria que este disco que estamos gravando é uma espécie de desfecho de “Tempo”. Muitas das novas composições que estão presentes no disco são da época em que o EP estava sendo gravado. O disco soa como um pensamento, só que passa por diversas situações que possuem uma certa conexão entre si. Esse disco tem sido uma experiência única para nós, pois trata-se de um trabalho muito conectado. Sabemos exatamente aonde queremos chegar com ele.
Sobre a sonoridade o disco, tem muita influência de Beach Boys e Beatles no trabalho harmônico, tanto instrumental quanto vocal, sem esquecer de artistas como Byrds; Crosby, Stills, Nash e Young; The Turtles; The Zombies; Simon and Garfunkel; Judee Sill; além de uma banda de Seattle chamada Fleet Foxes, que estourou em 2008 e nos impressionou bastante pela beleza das canções e também por uma certa semelhança que nós temos com eles, musicalmente falando – logicamente nós somos mais bonitos (risos). Ficamos muito felizes em ver uma banda como o Fleet Foxes agradar tanta gente, ser sucesso de crítica em meio a esse conturbado mundo musical que vivemos hoje.
Já estamos na metade do processo de gravação do nosso disco e creio que ele fica pronto (finalizado, na caixa e lacrado) em fevereiro de 2010. Esperamos muito que as pessoas gostem do trabalho e que ele possa abrir novas portas e possibilidades para a banda.

JD – Eu tenho a impressão de que a Daysleepers surgiu num momento particularmente interessante da cena sergipana. Eu percebo uma movimentação diferente, uma energia estranha no ar, vejo um monte de banda na correria, trabalhando, e no entanto a gente ainda não pode falar de mercado ou de uma indústria musical em Aracaju. Isso desanima? Vocês alimentam a esperança de encarar a música como algo além de um hobby, como um ofício de verdade?

Arthur – De forma alguma. Como diria um grande amigo meu: “Olha o tamanho do mundo”. As bandas sergipanas têm lutado muito para que haja um circuito bacana dentro da nossa cidade. Demos, EPs, discos, shows, divulgação… A idéia é se manter em constante crescimento. À medida que o barco anda, eu vejo a cena sergipana crescendo. Pode ser que não seja na velocidade e intensidade que todos querem, mas ela vem evoluindo.
Levamos nossa música muito além de um hobby e procuramos sempre dar um passo à frente, conquistando novos espaços e pessoas. Embora tenhamos todos outros afazeres, nunca deixamos nossa música de lado. A música é um trabalho que levamos a sério.

JD – Em sua opinião, quais as bandas sergipanas em atividade que deverão influenciar gerações futuras? Além dos monstros dos anos 60, algum nome local influenciou a Daysleepers de alguma maneira?

Arthur – Pergunta complicada. Seria uma honra se a Daysleepers influenciasse o trabalho de gerações futuras. Quem sabe, né? Mas algumas bandas já influenciam as pessoas a fazerem um trabalho bem feito, não só musicalmente, mas na questão de logística, como a Naurêa, The Baggios, Maria Scombona, Plástico Lunar, Snooze, entre tantas outras.
No nosso caso, a grande influência sergipana é a Snooze. Somos grandes fãs do trabalho dos caras e olhamos para eles como grandes professores, além do imenso respeito que temos por eles. É tanto que no dia 14 de novembro faremos um tributo juntamente com a Snooze aos quarenta anos dos discos Abbey Road e Let it Be. Será uma grande festa!

JD – O que a galera pode esperar do show que vocês realizam amanhã no Capitão Cook?

Arthur – Vai ser uma noitada e tanto! No repertório deste tributo aos 60’s iremos visitar diversos artistas super consagrados, vide Beatles, Beach Boys, The Byrds, Bob Dylan, Jimi Hendrix, The Who, Simon adn Garfunkel, Joe Cocker, além de alguns números um pouco inusitados para o nosso estilo, como Ray Charles e Jackson 5. Não percam vai ser uma noite de muito Rock n’ Roll.

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