Spleen e charutos

março 13, 2012

Na sina escura e fatal de ser homem

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:44 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O sabugo de uma experiência franzina

Num de seus versos mais contundentes, o poeta Jozailto Lima afirma que “deus só é deus porque prescinde do corpo”. Atado ao chão, sujeito às mesquinharias da vontade, o homem se debate num embate barroco entre o ideal e o palpável e, de tudo o que podia fazer de si, aproveita somente o sabugo de uma experiência franzina. Vida noves fora nada.

Abrigo indigno da divindade que, ainda assim, nos habita, a carne crivada de insatisfações arrasta a própria fome pelos descampados do acaso, às voltas com o buraco cavado no âmago da ansiedade. Amparado pelo puído de um ceticismo cínico e vacilante, Jozailto modela o barro da poesia como quem desafia a existência para um acerto de contas. Ele paga pelas pegadas incrustradas na planta dos pés e exige o troco em palavras.

Engana-se quem imagina pacífica a convivência com a poesia. Voluntariosa, ela é mãe de muitos estragos, não se presta à salvação do poeta nem de ninguém. Desalmada, obediente apenas à natureza do verbo, a poesia distribui coices e ferroadas, revela o homem ao mesmo tempo em que lhe nega o segredo do açoite que impele os seus passos. Generosa, em seus melhores momentos, a poesia devolve o homem ao quase nada de si.

O passeio por estrada conhecida, a sedução da memória, os retratos amarelados nas paredes úmidas da lembrança, a família desbotada. Essa angústia restauradora empresta à viagem realizada pelo poeta Jozailto as mais preciosas paisagens. No solo rachado da infância catingueira, a cultura do afeto. Em cima da mula, nas brenhas do esquecido, nos cafundós feridos pelo arado, o menino corre de novo e emprenha com o olhar despreocupado cada galho de árvore esturricado pela distância.

A condenar no esforço mais recente do poeta Jozailto (pois é a isto a que se presta qualquer arremedo de crítica: coroar intenções ou sentencia-las a pedradas), somente o excesso de referências, como se, no domínio do próprio impulso, ele necessitasse fazer uso das lombadas perfiladas nas bibliotecas para pesar os sopapos da intuição. Uma bobagem. Nas centenas de poemas reunidos em ‘Viagem na argila’, Jozailto vai à forra com a alegria besta e o amargo sem propósito que na maioria das vezes valem a vida.

Viagem na argila – O poeta e jornalista Jozailto Lima, 51 anos, lança “Viagem
na Argila”, seu quatro livro de poemas, a partir das 19h desta quarta-feira, 14 de março, no Museu da Gente Sergipana (Avenida Ivo do Prado, 398, Centro, Aracaju).

Editado com recursos do próprio autor, contendo 142 poemas em 208 páginas, “Viagem na Argila” revela um Jozailto mais maduro, mas com a pegada de sempre: dono de uma poesia lírica, questionadora da existência, cética, mas, sobretudo, muito humana.

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2 Comentários »

  1. dá-lhe! guarde um livro pra mim? diz pro jozailton que eu pedi….
    cheiro!

    Comentário por patricia polayne — março 13, 2012 @ 5:42 pm

  2. Xá comigo! 😉

    Comentário por spleencharutos — março 13, 2012 @ 7:16 pm


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