Spleen e charutos

março 7, 2012

Maria Scombona, caceteira como nunca

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 7:24 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Maria reafirma a composição enquanto valor fundamental

Sou a última pessoa do mundo para se confiar um segredo. Língua grande, maior do que o corpo, falo pelos cotovelos. Falo até do que não entendo. Ironicamente, a discrição foi a única condição imposta pela generosidade de Henrique Teles. Para mastigar o terceiro disco da Maria Scombona antes do lançamento, eu teria que me fechar em copas. Até a hora certa, nem um pio.

Nunca dei tanto trabalho à cerca dos dentes. Foram quinze dias com a verdade sufocando na garganta, a guitarra jazzy de Saulo Ferreira perturbando os votos de silêncio. O remédio foi apelar para as paredes do claustro e debulhar as canções com a devoção dos monges. Minha fé vacilou. Quase quebro o brinquedo. No escuro mais solitário da dúvida, sem vela nem rosário, a voz clara de Henrique me puxou pelo braço.

A palavra como profissão de fé – De acordo com Thiago Ribeiro, responsável pela direção e arranjo dos vocais de Un Nu, seu trabalho consistiu em colocar o compositor no lugar que lhe é devido. “Nos dois primeiros discos da Maria, Henrique se apresentava apenas como o vocalista da banda. Agora, ele assume a condição de poeta”.

A observação faz sentido. Embora conserve certa coerência, preservando alguns elementos fundamentais, a discografia da Maria registra formações e escolhas diferentes. Com a voz de Henrique desenterrada por obra e graça da correta acentuação das palavras, no entanto, a banda reafirma o apreço pela composição enquanto valor fundamental.

Não nos referimos a qualquer banda. Falamos dos grooves de Robson Souza (baixo) e Rafael Jr (bateria), das linhas de guitarra de Saulinho. Se a trinca de Ás da nossa música instrumental dobrou os joelhos para reverenciar os sopapos da inspiração, melhor imitar o gesto, calado.

O pior é que o desprendimento deu muito certo. A Maria nunca se apresentou tão confortável e caceteira. Uma banda despida de artifícios, com competência e cara dura para gravar o disco inteiro num tapa, sem os excessos dos overdubs, amparada exclusivamente pelos calos dos músicos e pela naturalidade expressa no sotaque de um compositor à vontade para soltar o verbo como bem entender.

Só vacila quem procura um caminho. Diferente de mim, a Maria Scombona sabe bem onde pisa.

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2 Comentários »

  1. Phoda! Digno de imprimir e emoldurar pra botar na parede!

    Comentário por Rafael Jr — março 7, 2012 @ 11:19 pm

  2. […] que andam falando: Programa de Rock, Spleen e Charutos Compartilhe:MaisShare on TumblrEmailGostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso […]

    Pingback por Maria Scombona – Un Nu « Mais Simples — março 19, 2012 @ 11:20 pm


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