Spleen e charutos

abril 10, 2012

A pulsação cardíaca da Coutto Orchestra de Cabeça

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 8:43 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Coutto Orchestra de Cabeça – Um balde despejado*

A pulsação cardíaca de algumas músicas preenche o oco de nosso peito como um assalto. Os mais sensatos fecham a boca. Os esnobes rasgam a roupa, arrebatados. Eu adivinho o fim do mundo e batuco o teclado.

Há na urgência marcial das composições reunidas no EP Aratu Milonga, debute da Coutto Orchestra de Cabeça, uma ênfase parida pela necessidade. A reiteração de algumas poucas frases fundamentais revela a essência de um enredo intimista, que dispensa palavras e projeta contornos difusos, sombras de símbolos originais, para nos falar de histórias passadas no baldio de não se sabe onde. A informação sujeita à intuição. A silhueta no lugar da imagem.

Sob o manto bélico de uma marcha ou no colorido de uma fanfarra (o tom e a forma pouco importam), as composições assinadas por Alisson Coutto (aka Alemão) seguem à risca o aparente propósito de comunicar sensações por meio de quase nada. Apesar do aparato tecnológico e do instrumental numeroso (projeções, controladores, teclas, percussão, vozes, cordas e metais), tudo é muito simples e direto. Melodias curtas, com pequenas variações, repetidas à exaustão, provocam os nervos até que neguinho não aguenta mais e se derrama feito o coração do poeta – um balde despejado.

No lançamento de Aratu Milonga, realização do selo Disco de Barro e Loop Bop produções, a Coutto divide o palco com A banda dos Corações Partidos (que lança EP na mesma ocasião e deve inspirar alguns garranchos, nos próximos dias) e o DJ Léo Levi. Depois de tudo o que aqui foi dito, espera-se que o leitor ultrapasse o eco dos passos e vivencie a experiência. O contrário significa que nossos músicos estão dando murro em ponta de faca.

Disco de Barro lança Aratu Milonga e A Banda dos Corações Partidos:

Local: Casa Rua da Cultura (Pça Camerino – Centro)
Data: 14 de abril
Hora: 21 horas

*Crédito da foto: Neto Gonzales

abril 4, 2012

Marco Vilane com ímpeto de kamikaze

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:18 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Canto, salto e choro

Coitado de quem puxa corda sem pano pra pendurar no varal. Há na disposição criativa um ímpeto de kamikaze. Sem o coração de um homem bomba, melhor colocar o rabo entre as pernas, conservar o tecido imaculado das próprias vergonhas num fundo de gaveta, e tratar de repetir os gestos dos outros.

Criar é pra quem tem o couro grosso. No varal de Marco Vilane, os versos e a diversidade sugerida pelo famigerado jogo de palavras que batiza seu terceiro disco e ganhou lugar cativo entre os moderninhos da propalada Nova MPB. “Varal Diverso” se impõe aos nossos ouvidos não apenas pela tessitura harmônica que aglutina gêneros distintos com a coerência dos que respeitam transpiração e labuta, mas também pelo cuidado dispensado às antíteses concebidas nos gastos de perdulário. Amor guardado estraga.

Fazer samba não é fazer piada – Trocadilho, coisa nenhuma. Aqui há canto, salto e choro. Loops, guitarras e violas numa fusão musical que se escora na palavra e sustenta a fé de um compositor que descalça os pés e reza a Iemanjá, mas não descuida da atenção necessária para extrair o barro da poesia dos acidentes esparramados no chão. Intuição é necessário, mas macumba também tem limite.

Atado à tradição inaugurada pelos heróis da música popular tupiniquim, numa ponta, e às propostas sugeridas pela tecnologia e as urgências de nosso tempo, em outra, Marco Vilane se pendura na dedicação evidente nesse terceiro esforço criativo para se mostrar. Parir é isso. Resguardar a criança ensanguentada que acaba de rasgar um ventre, levantá-la o mais alto possível e provocar o berro original.

Em tempo. O disco é velhinho, foi lançado em 2010, mas pentear release é como a própria vida: Às vezes cansa.

março 27, 2012

Além do grunhido, a imagem

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Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Abram o olho, as meninas sabem do que estão falando

O SESC abriu inscrições para o I Ciclo de Fotografia: Teoria, Técnica e Poética. Dividido em cinco módulos independentes, entre março e julho, o Ciclo será realizado sob auxílio e orientação da pesquisadora em poéticas fotográficas Ana Carolina Lima Santos e da fotógrafa Renata Voss.

Pra início de conversa, as ministrantes recebem os interessados amanhã à noite, a partir das 18 horas, num Café Cultural abrigado pelo auditório do Sesc Centro. Como adianta Ana Carolina, o curso surgiu da percepção de uma carência de iniciativas dessa natureza.

“O espaço para se pensar e fazer fotografia em nossa cidade tem melhorado significativamente nos últimos anos. O trabalho do Trotamundos Coletivo (o Conversando Fotografia, em especial) e do Snapic Fotografias (com o projeto de financiamento colaborativo para o seu primeiro fotolivro, o Música para ver) bem como o crescente número de exposições fotográficas são provas disso. Este projeto de arte-educação é a contribuição que eu e a Renata podemos dar aos sergipanos”, diz a pesquisadora.

Os interessados podem fazer a pré-inscrição através do telefone (79) 3216-2727 ou matricular-se na Central de Atendimento do SESC (rua Dom José Thomaz, 235, São José), desde o último 12 de março. A entrevista reproduzida abaixo é prova de que as meninas estão mais do que habilitadas para a tarefa a que estão se propondo.

Jornal do Dia – Carol, você sabe que eu morro de inveja do seu trampo, mas explique melhor: o que faz uma pesquisadora em poéticas visuais? Você entrou em contato com o trabalho de Renata durante o expediente? Como se deu essa aproximação?

Ana Carolina – É difícil responder essa primeira pergunta, pois tenho problema em me definir como qualquer coisa que não seja ‘professora’. No fundo, meu trabalho caminha ou se materializa sempre no que levo para a sala de aula, no que consigo oferecer aos alunos. Mas, por trás desse ‘produto pronto’ que é uma palestra, um curso de capacitação ou uma disciplina na universidade, existe um processo mais amplo. O meu começa na formação e na pesquisa científica. O mestrado e o doutorado têm sido meus espaços para isso; primeiro, na área do fotojornalismo e, mais recentemente, do fotodocumentário. Ao passar pelo trabalho de formação, nas leituras específicas da área, alguns pontos foram me atraindo e aos poucos fui os transformando em problemas de pesquisa, a partir dos quais tento desenvolver fundamentações teórico-empíricas que gerem novos conhecimentos sobre o fazer fotográfico. É aí que entra a poética visual: eu me debruço sobre as fotografias para entender a construção das imagens enquanto obra, fruto de uma criação artístico-expressiva em que o fotógrafo é capaz de dar formas às suas visões de mundo – ainda que, em um primeiro momento, elas nos pareçam apenas meros registros do mundo ou, no sentido oposto, apenas delírios sem pé nem cabeça ou sem qualquer relação com mundo. Simplificando: o que faço é enfiar a cara nos livros e nas imagens fotográficas para tentar levar a comprensão de como se dá a produção e a fruição das fotografias para além do senso comum. É isso, ao meu ver, que me qualifica para oferecer aos alunos um pensamento maduro acerca do universo fotográfico. Só que minha contribuição para eles não é de ordem mais prática (ou técnica), não dou aulas do tipo ‘pegar uma câmera, configurar no modo x ou y e clicar’, porque, no fundo, eu sou apenas um teórica da fotografia, eu não fotografo. Embora eu saiba da importância da técnica e de aulas dessa natureza, acredito que a fotografica não pode se resumir a isso; motivo pelo qual tento promover reflexões acerca das implicações que as práticas fotográficas então realizadas trazem para a nossa relação com o mundo, seja o mundo mediado pela imagem ou o mundo fotográfico propriamente dito. O contato com a Renata surgiu no meio de todo esse processo. Ela, além de pesquisadora, é fotógrafa e desenvolve um trabalho autoral que me encanta demais. Acho que o trabalho dela reflete inquietações muito próximas das questões conceituais que levanto, sobretudo no que diz respeito ao papel e às possibilidades da fotografia na contemporaneidade. Das primeiras conversas que tivemos, a idéia do Ciclo foi surgindo naturalmente.

JD – Em língua de gente, o que significa “alinhar a mente, o olho e o coração”? Em que medida a compreensão da síntese realizada pelo fotógrafo Henri Cartier-Bresson, mencionado por vocês no material de divulgação do Ciclo, pode auxiliar um leigo na educação do próprio olhar?

Renata Voss – Alinhar esses três elementos significa pensar a fotografia além da técnica, significa envolver no momento do ato fotográfico (e mesmo antes ou depois dele) o sensível e algum pensamento. A fotografia é um meio técnico e muita gente se detém em entender somente a técnica. Essa não é a nossa proposta. A intenção é pensar naquilo que a fotografia pode provocar, pode trazer para as pessoas. Acreditamos que com essa proposta do Ciclo podemos fazer pensar em e através de imagens. Imagens também têm textos e histórias e essa educação do olhar além da imagem é, do nosso ponto de vista, muito importante. Por causa disso, o Ciclo foi estruturado em cinco módulos que têm sua razão de ser no sentido da ordem em que acontecerão: alternamos módulos teóricos e técnicos, com a questão da poética, do modo de se fazer fotografia, prepassando todo o ciclo. Tivemos uma preocupação de continuidade nessa formação, então o primeiro módulo (Prática Fotográfica) dará a base mais técnica da fotografia, do funcionamento da câmera, tipos de equipamento, que é importante conhecer quando se quer estudar fotografia. O segundo módulo é o Panorama histórico da fotografia, que irá traçar os principais movimentos da fotografia, bem como as suas contribuições e questões trazidas para discussão sobre a própria fotografia; depois, temos o módulo de Projeto Fotográfico Autoral, em que os alunos irão desenvolver, apresentar e refletir sobre a sua própria produção; no quarto módulo, Teoria e crítica da imagem fotográfica, serão apresentadas algumas teorias da fotografia e, no último módulo, A fotografia em suas múltiplas linguagens, vamos discutir as obras de alguns fotógrafos que de alguma forma têm feito trabalhos que desafiem o universo fotográfico. Assim, com essa sequência pretendemos ampliar e estimular a discussão sobre fotografia.

JD – Vocês podem discordar, mas eu tenho a impressão que vivemos hoje sob uma espécie de hegemonia da imagem. Ao mesmo tempo em que caminhamos a passos largos em direção ao grunhido – como afirmava Saramago, externado sua indisposição com as plataformas de comunicação contemporâneas – recorremos de maneira assustadora a símbolos padronizados, que condensam significados completos num instantâneo. Isso poderia ser tomado como um sinal de maturidade visual, ou tal padronização seria fruto de uma espécie de engessamento da percepção coletiva? Em outras palavras, estamos mais sensíveis à imagem enquanto possibilidade de comunicação?

Carol – Vou ser petulante para discordar não de você, mas do Saramago. Acho a afirmação dele muito conservadora na medida em que desconsidera que as formas de comunicação estão apenas mudando. Se elas se reduzem em termos de caracteres, elas se alargam por outras vias. Creio que a imagem pode ser uma delas. ‘Poder’ não significa que ela já seja ou mesmo que vá ser. Por isso também vejo a sua idéia de ‘símbolos padronizados’ e de ‘engessamento da percepção coletiva’ com alguma cautela. Não vou dizer que isso seja uma falácia, mas que é uma meia verdade ou uma verdade parcial. Guy Debord e Jean Baudrillard, dois pensadores da imagem já falecidos, levaram essa idéia tão a sério que decretaram que a hegemonia da imagem a faz substituir a própria realidade e falavam de uma sociedade dominada pelo espetáculo e pelo simulacro. Só que nesses termos totalizadores, eles desconsideravam o fato de que, no meio do ‘espetáculo’ e do ‘simulacro’, também é possível surgir práticas que conseguem desestabilizar a produção e a percepção das imagens. Vou dar um exemplo da moda: Vik Muniz, artista que fez a abertura da novela global Passione, consegue trazer nela imagens que são tanto espetacularizantes quanto desestabilizadoras, porque pode-se olhar para elas e ver apenas uma representação figurativa de diversos personagens ou perceber que elas propõem um desafio à percepção que joga com a composição de imagens a partir da imagem de outra coisa, esta resignificando aquelas.

JD – Um fotógrafo também pode ser considerado um autor, um artista? Quase apanho de Victor Balde, outro dia, ao reivindicar um autógrafo no meu exemplar do livro que a Snapic deve lançar agora em abril.

Renata – Acho que isso envolve muitas relações, desde o reconhecimento institucional ao reconhecimento pelo outro como tal. Um fotógrafo constrói um trabalho que traz muito do seu modo de ver o mundo e acho que é essa identidade da obra que permite conceber o fotógrafo como um autor. E ser um autor ou um artista traz um bocado de responsabilidade, no sentido de se posicionar como tal. Para mim, ser fotógrafo não anula ser artista, mas são, digamos, localizações no mundo – que determina, inclusive, como você se identifica mesmo: fotógrafo, artista, artista visual. Os nomes podem ser muitos, mas o que vale no fim das contas é a densidade do trabalho, a sua verdade! Sei que para muitos fotógrafos ser chamado de artista é algo engraçado, porque quem é que determina isso? Sou eu que me coloco como artista? É o outro que me chama de artista? É o fato de levar o trabalho para uma galeria? E é justamente nesse ponto, ao envolver questões institucionais, que entra também o histórico da fotografia, de ter demorado a ser aceita como arte dentro dessa estrutura institucional em que as outras linguagens clássicas já tinham cadeira cativa.

JD – Em termos pedagógicos, como a “abertura do raio de visão”, proposta por vocês, pode enriquecer o cotidiano das pessoas?

Renata – A abertura do raio de visão só se dá, acreditamos, trabalhando com o sensível. Nós temos imagens o tempo todo ao nosso redor, das mais simples às mais complexas. Acreditamos que com o Ciclo de Fotografia podemos trabalhar o entendimento das pessoas para além da superficialidade da imagem, seja para aguçar as percepções sobre o trabalho do outro ou até mesmo do seu próprio. É claro que cada um lança um olhar diferente sobre uma mesma imagem, visto que a bagagem cultural e a experiência de vida é sempre individual. No Ciclo, apostamos justamente nessa troca de olhares – do nosso olhar, inclusive. E a partir daí, acreditamos que isso pode se reverberar no cotidiano, desde o ‘olhar imagens’ (fotografias, ilustrações, filmes) até perceber as sutilezas das coisas no dia a dia. A abertura de visão tem a ver com isso: às coisas que vemos e que não vemos no cotidiano.

JD – Pra terminar tirando uma onda de sabidinho: a poesia não seria território do verbo?

Carol – É território do discursivo. A fotografia também demorou bastante para ser entendida e aceita como discurso, como texto (de natureza visual), pelo mesmo motivo que demorou a ser aceita como arte, ou seja, porque ser assim reconhecida abalava os domínios institucionais já bem estabelecidos – da pintura, em um caso, e da literatura, no outro. Os movimentos de vanguardas, na década de 1920, abriram caminho para que as diferentes linguagens fossem se aproximando ou até mesmo se hibridizando. Hoje é um pouco redutor falar em fronteiras delimitadas. Preferimos pensar que todas as formas de expressão se entrelaçam de alguma maneira. A fotografia, mesmo quando é ‘pura’, tem um tanto de desenho, de pintura, de escultura, de perfomance, de literatura e de poesia – por que não? Não estamos falando de dependência entre as linguagens, mas de traduções, apropriações, associações, cruzamentos e filtragens.

março 23, 2012

A gravura e o (re) encantamento do mundo

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:00 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Ruídos – A gravura enquanto experiência reveladora

As redondilhas dos cantadores penduradas no meio da feira, o papel esturricado do cordel não são os únicos motivos e suportes adequados para a xilogravura. Sujeita ao trabalho contínuo do tempo, a impressão obtida pela força do olhar que entalha a madeira, nossas palmas, ou qualquer espécie matriz, vem tomando formas e funções desafiadoras, que respondem às questões propostas pela arte contemporânea por meio de um diálogo cada vez mais abrangente entre linguagens e entendimentos do exercício visual.

Ano passado, a experiência do pernambucano Derlon Almeida serviu de pretexto para as discussões suscitadas pelo projeto Gravura em Circuito. Agora, foi a vez do artista e educador mineiro Tales Bedeschi conversar com os interessados nas implicações da hibridação radical verificada nas mídias. Pra nossa felicidade, nem mesmo a gravura foi posta a salvo. A pureza não está mais entre a gente.

Sinal dos tempos – Se deus está morto, tudo é permitido. A cidade se transformou numa grande matriz, sujeita à interferência e sensibilidade dos mais atentos. Nas palavras proferidas por Bedeschi na noite da última quinta-feira, durante a segunda edição do Gravura em Circuito, tudo é uma questão de sentir as superfícies. “A sola do nosso sapato é grossa demais pra gente perceber os desenhos”.

Nesse processo de reencantamento com o mundo, a gravura pode ser entendida além da incisão e fisicalidade da matriz. É o que ocorre, por exemplo no trabalho da artista Regina Silveira. Na intenção de desenvolver uma temática de significados que transitam entre o lúdico e a mensagem crítica, um sinal dos tempos e um indício dos caminhos abertos para a gravura. Não à toa, tal material, que aproveita com largueza imaginativa as potencialidades dos recursos tecnológicos, foi difundido em exposições no Brasil e no exterior.

Baldes topados de outros exemplos podem ser colhidos em qualquer canto. Além da experiência do convidado mineiro, junto ao coletivo Kaza Vazia, podemos citar também o trabalho realizado aqui mesmo por Elias Santos (responsável pelo Gravura em Circuito), que há poucos meses montou a exposição Ruídos, na galeria da Sociedade Semear.

Naquela ocasião, parecia importar ao gravador construir a ambiência necessária à exasperação dos sentidos e sugerir o distanciamento indispensável para que o observador pudesse perceber os contornos de xilos imensas, que tomavam paredes inteiras, normalmente dedicadas à chamada “arte de verdade”. Ao nos obrigar a dar um passo pra trás, Elias não apenas descortinava as imagens concebidas pelos sulcos cavados na matriz, mas também a confusão que engole os distraídos da pólis.

Mais do que nunca, portanto, a gravura se apresenta como experiência reveladora.

março 20, 2012

O Baggio sedado dentro da gente

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Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

No rastro das próprias vontades*

A voz de minha mãe numa prece. A ladainha derramada entre suspiros melados de açúcar sempre me deixou confuso. Ninguém jamais adivinharia onde a convicção, onde o desespero e a dúvida. De certo, o contraste pungente dos cabelos tingidos de dourado por uma vela faminta e o escuro das angústias. Uma centelha de amor, mainha dizia, abrasaria a Terra.

Na maioria das vezes, uma fagulha é mesmo suficiente. Há quem se agarre a ritos misteriosos, criados sabe deus quando; há quem se pendure nos cartões de crédito. De minha parte, sei que não seria nada sem a tábua da inspiração.

Inspiração vem de onde? – Para Julio Andrade, frontman da Baggios, a salvação foi o exemplo de uma figura de São Cristóvão que faleceu esta semana. Numa terra arrasada pela ingerência dos poderosos, um lugar que parece ter encontrado sua maior vocação no tédio e na fabricação de lunáticos, José Sinval (o Baggio que batiza a banda) ousou pendurar uma viola nas costas e seguir o rastro das próprias vontades. Acabou sedado, mas ainda assim realizou mais do que a maioria. Cada acorde pronunciado pela guitarra de Julico lhe presta tributo.

Próximo sábado, Julico e Perninha (The Baggios) seguem honrando a memória de quem merece. A ocasião é festiva. O duo de guitarra e bateria faz as honras da casa para a paulista Andreia Dias e recebe os parceiros Melcíades Filho, Fábio Snoozer e Igor Côrtes para comemorar o lançamento do clip “Em outras”. Chorar é pros fracos.

Baggio pode ir tranquilo, no que depender dos meninos a terra lhe será leve. Num tempo em a regra é dopar o maluco dentro do peito de cada um e tratar de ganhar a vida, seja lá o que isso signifique, não deixa de ser um alento saber que ainda tem gente com disposição para a existência.

Lançamento do clip ‘Em outras’

Local: Tio Maneco Botequices (Rua Manoel Espírito Santo, 593)
Data: 24 de março (sábado)
Hora: A partir das 20 horas

*Crédito da foto: Márcio Garcez

março 17, 2012

Chegou a hora de apagar a velinha

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:59 pm

Rian Santos
riansantos@jrnaldodiase.com.br

Sem as palmas de nossas mãos, não tem parabéns coisa nenhuma

O couro de nosso tambor não carece de sopapo. Se o cacique da tribo desconhece o tum tum insistente que a constelação dos Serigys faz ecoar por obra e graça dos próprios calos, pior pra ele. Sem as palmas de nossas mãos, não tem parabéns certo.

A inteligência aboletada na Funcaju que me perdoe, mas convidar os filhos de Francisco para soprar as 157 velinhas de nosso bolo foi a gota d’água. Como Henrique Teles (leia-se Maria Scombona) faz questão de declarar sempre que a oportunidade se apresenta, “não foi com essa revolução que nós sonhamos”.

Bate, coração – A propaganda encomendada a peso de ouro pela Secretaria de Comunicação do Governo de Sergipe, parabenizando a capital do Estado pelo seu aniversário, poderia sugerir uma mudança de mentalidade no âmbito da administração pública. Na peça divulgada por meio das redes sociais, alguns dos principais nomes de nossa música declaram seu amor pela cidade. Já no palco montado para presentear a população, como afirma o hot site do evento, Aline Barros e Capital Inicial, além das lamúrias de Zezé de Camargo e Luciano. Artista local que é bom, nada!

“Fiz parte de um vídeo lindo em homenagem aos 157 anos de Aracaju. Fiz porque achei a ideia ótima e os músicos que participariam tinham (e tem) meu respeito. Mas saber que no show em que será comemorado o aniversário da cidade não tem sequer um artista local é um fato duro de aceitar”, lamenta Julio Andrade, frontman da banda The Baggios, citada em todas as listas de melhores discos lançados em 2011.

Para o baixista Fábio Oliveira, o descaso demonstrado com a produção cultural sergipana não é nenhuma novidade. Segundo ele, os artistas engolem esse sapo há muito tempo.

“Toquei no Projeto Freguesia, recentemente. Fiquei impressionado com o descaso da Funcaju, que mandou a sonorização para “voz e violão”, quando desde sempre havia se passado o formato banda, na contratação. Não há sequer um praticável, quiçá um palco, e isso não é porque eles não têm, eu imagino. Sem contar a falta de divulgação, ou seja, independente de quem toque o público é o espontâneo. Não se agrega valor ao projeto porque o artista para esse órgão não tem valor algum, ele é “só” um prestador de serviço. Se o artista quiser divulgar sua apresentação porconta própria – um evento do calendário oficial da prefeitura – o problema é dele. Junte-se essa constatação com o que tem se dito sobre o desaniversário da capital, adicione o atraso dos cachês da Arena Multicultural do governo e uma pitadinha do atraso dos cachês do Festival de Laranjeiras e a receita está pronta. Serve-se morto”.

A cantora Patrícia Polayne vai ainda mais longe, e acusa a desnaturação da Funcaju. “Vamos cobrar transparência nos gastos, apurar fatos. Uma fundação de cultura recebe fundos de apoio e incentivo para iniciativas como as nossas: a de produzir, divulgar, formar platéia e pensamento. Nós já funcionamos como agenciadores de nós mesmos há algum tempo. Agora, só precisamos ter acesso ao investimento, o que na Fundação não só é negado, como, na maioria das vezes, é arrancado de nós para outros fins”.

Eu, que adoro meter o bedelho onde não sou chamado, gostaria de perguntar ao prefeito de Aracaju quanto foi retirado dos cofres do município pra bancar essa gracinha. Afinal de contas, a transparência é um dos pilares fundamentais da administração pública. Ou não?

março 13, 2012

Na sina escura e fatal de ser homem

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:44 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O sabugo de uma experiência franzina

Num de seus versos mais contundentes, o poeta Jozailto Lima afirma que “deus só é deus porque prescinde do corpo”. Atado ao chão, sujeito às mesquinharias da vontade, o homem se debate num embate barroco entre o ideal e o palpável e, de tudo o que podia fazer de si, aproveita somente o sabugo de uma experiência franzina. Vida noves fora nada.

Abrigo indigno da divindade que, ainda assim, nos habita, a carne crivada de insatisfações arrasta a própria fome pelos descampados do acaso, às voltas com o buraco cavado no âmago da ansiedade. Amparado pelo puído de um ceticismo cínico e vacilante, Jozailto modela o barro da poesia como quem desafia a existência para um acerto de contas. Ele paga pelas pegadas incrustradas na planta dos pés e exige o troco em palavras.

Engana-se quem imagina pacífica a convivência com a poesia. Voluntariosa, ela é mãe de muitos estragos, não se presta à salvação do poeta nem de ninguém. Desalmada, obediente apenas à natureza do verbo, a poesia distribui coices e ferroadas, revela o homem ao mesmo tempo em que lhe nega o segredo do açoite que impele os seus passos. Generosa, em seus melhores momentos, a poesia devolve o homem ao quase nada de si.

O passeio por estrada conhecida, a sedução da memória, os retratos amarelados nas paredes úmidas da lembrança, a família desbotada. Essa angústia restauradora empresta à viagem realizada pelo poeta Jozailto as mais preciosas paisagens. No solo rachado da infância catingueira, a cultura do afeto. Em cima da mula, nas brenhas do esquecido, nos cafundós feridos pelo arado, o menino corre de novo e emprenha com o olhar despreocupado cada galho de árvore esturricado pela distância.

A condenar no esforço mais recente do poeta Jozailto (pois é a isto a que se presta qualquer arremedo de crítica: coroar intenções ou sentencia-las a pedradas), somente o excesso de referências, como se, no domínio do próprio impulso, ele necessitasse fazer uso das lombadas perfiladas nas bibliotecas para pesar os sopapos da intuição. Uma bobagem. Nas centenas de poemas reunidos em ‘Viagem na argila’, Jozailto vai à forra com a alegria besta e o amargo sem propósito que na maioria das vezes valem a vida.

Viagem na argila – O poeta e jornalista Jozailto Lima, 51 anos, lança “Viagem
na Argila”, seu quatro livro de poemas, a partir das 19h desta quarta-feira, 14 de março, no Museu da Gente Sergipana (Avenida Ivo do Prado, 398, Centro, Aracaju).

Editado com recursos do próprio autor, contendo 142 poemas em 208 páginas, “Viagem na Argila” revela um Jozailto mais maduro, mas com a pegada de sempre: dono de uma poesia lírica, questionadora da existência, cética, mas, sobretudo, muito humana.

março 7, 2012

Maria Scombona, caceteira como nunca

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 7:24 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Maria reafirma a composição enquanto valor fundamental

Sou a última pessoa do mundo para se confiar um segredo. Língua grande, maior do que o corpo, falo pelos cotovelos. Falo até do que não entendo. Ironicamente, a discrição foi a única condição imposta pela generosidade de Henrique Teles. Para mastigar o terceiro disco da Maria Scombona antes do lançamento, eu teria que me fechar em copas. Até a hora certa, nem um pio.

Nunca dei tanto trabalho à cerca dos dentes. Foram quinze dias com a verdade sufocando na garganta, a guitarra jazzy de Saulo Ferreira perturbando os votos de silêncio. O remédio foi apelar para as paredes do claustro e debulhar as canções com a devoção dos monges. Minha fé vacilou. Quase quebro o brinquedo. No escuro mais solitário da dúvida, sem vela nem rosário, a voz clara de Henrique me puxou pelo braço.

A palavra como profissão de fé – De acordo com Thiago Ribeiro, responsável pela direção e arranjo dos vocais de Un Nu, seu trabalho consistiu em colocar o compositor no lugar que lhe é devido. “Nos dois primeiros discos da Maria, Henrique se apresentava apenas como o vocalista da banda. Agora, ele assume a condição de poeta”.

A observação faz sentido. Embora conserve certa coerência, preservando alguns elementos fundamentais, a discografia da Maria registra formações e escolhas diferentes. Com a voz de Henrique desenterrada por obra e graça da correta acentuação das palavras, no entanto, a banda reafirma o apreço pela composição enquanto valor fundamental.

Não nos referimos a qualquer banda. Falamos dos grooves de Robson Souza (baixo) e Rafael Jr (bateria), das linhas de guitarra de Saulinho. Se a trinca de Ás da nossa música instrumental dobrou os joelhos para reverenciar os sopapos da inspiração, melhor imitar o gesto, calado.

O pior é que o desprendimento deu muito certo. A Maria nunca se apresentou tão confortável e caceteira. Uma banda despida de artifícios, com competência e cara dura para gravar o disco inteiro num tapa, sem os excessos dos overdubs, amparada exclusivamente pelos calos dos músicos e pela naturalidade expressa no sotaque de um compositor à vontade para soltar o verbo como bem entender.

Só vacila quem procura um caminho. Diferente de mim, a Maria Scombona sabe bem onde pisa.

março 1, 2012

Por favor, não contem a mamãe

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 5:42 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Por causa da fúria de um deus...

Eu andei me embriagando. Por favor, não contem a mamãe. Não são mais os cigarros amassados no meio da roupa suja, nem as garrafas de vodca malocadas na bagunça do quarto. Agora a porra ficou séria.

Eu agora ando com fome. O dia inteiro repetindo os mesmos gestos de autômato, ouvidos escravizados pelo mesmo disco arranhado. Se o deus que devasta também cura, como afiança o rebento mais recente de Lucas Santtana, o pé d’água que caiu aqui em casa, dez canções arrasadoras, vai levar o que tiver de levar e lavar o resto.

A cidade não parou – Não dá pra se deter sobre o que canta Lucas Santtana e permanecer indiferente. Quando vale a pena, a poesia tem o impacto de uma verdadeira experiência. Estranhamente, do lado de lá da janela, a Praça Camerino continua a mesma. As pedras portuguesas amontoadas aos pés das árvores podem sugerir a proximidade de uma guerra civil, mas o azul inclemente do céu de Aracaju, a buzina dos carros, a corrida das pessoas na rua é categórica. Choveu aqui dentro, lá fora o sol castiga. É a vida.

A fúria de certo deus pode ter poupado a geografia da cidade, mas não teve piedade de minhas gavetas. A sucessão das faixas inunda tudo, desenterra cadáveres, espalha papéis e recita garranchos esquecidos no fundo conveniente do nunca mais.

Como o próprio compositor confessa em diversas entrevistas, a faixa de abertura, que empresta o nome ao disco, resume a empreitada; O espírito colaborativo das participações especiais, as orquestrações (orgânicas ou sampleadas), a esperteza casuística e sincera da poesia, tudo temperado com balanço e mansidão, sempre na dose certa.

A malandragem da moçada que auxilia Lucas Santtana e executa as canções do disco é tão grande que o arranjo de metais de uma música foi suficiente para convertê-la em uma peça instrumental. A turma do Guizado (assim como a Orkestra Rumpilezz, que dá as caras em outro momento) manda muito bem e empresta a força dos pulmões para impelir nosso passo.

É a velha história: Diga-me com quem andas e te direi quem és. Pois Lucas Santtana anda muito bem acompanhado. Céu, Curumin, Kassin, Gui Amabis, Rica Amabis, e integrantes do Hurtmold, Bixiga 70 e Do Amor. Pode chover canivetes. Tem como desesperar?

fevereiro 24, 2012

A cidade caiu de amores pelo automóvel

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 5:18 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Os vinte passos mais bonitos da cidade

Eu escrevo com ternura, afeto e quatro pedras na mão. Imito a curva do Iate, os vinte passos mais bonitos de Aracaju. Se o abestalhado vacilar, acaba atropelado. Ali, onde a cintura fina da cidade sugere uma bunda generosa, a beleza pode ser fatal. Não se deslumbre, portanto, muito menos a pé ou de bicicleta. Ignore o canto das sereias, o desespero das ondas violentas contra a balaustrada do calçadão. Aracaju adoeceu, caiu de amores pelo automóvel.

A elegância de Mônica Waldvolgel escondeu durante muito tempo o nariz monstruoso que um criador gaiato lhe cravou no meio da cara. A ignorância demonstrada em episódio recente do programa Saia Justa, contudo, arrancou o véu. Sob o pretexto de cutucar a chatice da militância politicamente correta, a jornalista perdeu uma bela oportunidade de ficar com a boca fechada e, entre grunhidos incompreensíveis, tradução da euforia que lhe tomou ao fazer chacota de milhões de pessoas, arrotou burrice e sectarismo, condenando a solução mais simples para os problemas de mobilidade urbana enfrentados pelas grandes cidades: a bike.

Na cadência do pedal – Anda de bicicleta quem quer. Pra mim, que não suporto azul Severino sobre a moleira, pedalar é uma atividade noturna, a maneira encontrada para me apoderar da cidade. Enquanto os poderosos e o séquito de puxa sacos que sempre os acompanha acenam dos camarotes, eu pedalo. Enquanto uma gente fresca e afetada enfrenta fila para beber em vernissages, eu tomo vento na cara. Enquanto a maioria gasta dinheiro e passa cartões de crédito como quem coloca a corda no pescoço, eu transpiro. A cidade me pertence.

Com o tempo, a cadência do pedal acabou se prestando ainda a um exercício inusitado. Aprendi a escrever em cima da magrela. Os fones despejam um disco novo nos meus ouvidos. Distraído, o corpo responde. Não tem palavra que escorregue ou desobedeça. Não tem firula de guitarrista atinado. Equilibrado sobre duas rodas, meu veredicto adquire o peso de uma vontade despótica e condena à forca ou ao exílio todos os bobos da corte que não fazem a alegria do rei.

Um metro e meio de distância, como determina o Código Brasileiro de Trânsito, ou a sua cabeça vai pro mastro.

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