Spleen e charutos

março 23, 2012

A gravura e o (re) encantamento do mundo

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:00 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Ruídos – A gravura enquanto experiência reveladora

As redondilhas dos cantadores penduradas no meio da feira, o papel esturricado do cordel não são os únicos motivos e suportes adequados para a xilogravura. Sujeita ao trabalho contínuo do tempo, a impressão obtida pela força do olhar que entalha a madeira, nossas palmas, ou qualquer espécie matriz, vem tomando formas e funções desafiadoras, que respondem às questões propostas pela arte contemporânea por meio de um diálogo cada vez mais abrangente entre linguagens e entendimentos do exercício visual.

Ano passado, a experiência do pernambucano Derlon Almeida serviu de pretexto para as discussões suscitadas pelo projeto Gravura em Circuito. Agora, foi a vez do artista e educador mineiro Tales Bedeschi conversar com os interessados nas implicações da hibridação radical verificada nas mídias. Pra nossa felicidade, nem mesmo a gravura foi posta a salvo. A pureza não está mais entre a gente.

Sinal dos tempos – Se deus está morto, tudo é permitido. A cidade se transformou numa grande matriz, sujeita à interferência e sensibilidade dos mais atentos. Nas palavras proferidas por Bedeschi na noite da última quinta-feira, durante a segunda edição do Gravura em Circuito, tudo é uma questão de sentir as superfícies. “A sola do nosso sapato é grossa demais pra gente perceber os desenhos”.

Nesse processo de reencantamento com o mundo, a gravura pode ser entendida além da incisão e fisicalidade da matriz. É o que ocorre, por exemplo no trabalho da artista Regina Silveira. Na intenção de desenvolver uma temática de significados que transitam entre o lúdico e a mensagem crítica, um sinal dos tempos e um indício dos caminhos abertos para a gravura. Não à toa, tal material, que aproveita com largueza imaginativa as potencialidades dos recursos tecnológicos, foi difundido em exposições no Brasil e no exterior.

Baldes topados de outros exemplos podem ser colhidos em qualquer canto. Além da experiência do convidado mineiro, junto ao coletivo Kaza Vazia, podemos citar também o trabalho realizado aqui mesmo por Elias Santos (responsável pelo Gravura em Circuito), que há poucos meses montou a exposição Ruídos, na galeria da Sociedade Semear.

Naquela ocasião, parecia importar ao gravador construir a ambiência necessária à exasperação dos sentidos e sugerir o distanciamento indispensável para que o observador pudesse perceber os contornos de xilos imensas, que tomavam paredes inteiras, normalmente dedicadas à chamada “arte de verdade”. Ao nos obrigar a dar um passo pra trás, Elias não apenas descortinava as imagens concebidas pelos sulcos cavados na matriz, mas também a confusão que engole os distraídos da pólis.

Mais do que nunca, portanto, a gravura se apresenta como experiência reveladora.

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