Spleen e charutos

fevereiro 24, 2012

A cidade caiu de amores pelo automóvel

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 5:18 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Os vinte passos mais bonitos da cidade

Eu escrevo com ternura, afeto e quatro pedras na mão. Imito a curva do Iate, os vinte passos mais bonitos de Aracaju. Se o abestalhado vacilar, acaba atropelado. Ali, onde a cintura fina da cidade sugere uma bunda generosa, a beleza pode ser fatal. Não se deslumbre, portanto, muito menos a pé ou de bicicleta. Ignore o canto das sereias, o desespero das ondas violentas contra a balaustrada do calçadão. Aracaju adoeceu, caiu de amores pelo automóvel.

A elegância de Mônica Waldvolgel escondeu durante muito tempo o nariz monstruoso que um criador gaiato lhe cravou no meio da cara. A ignorância demonstrada em episódio recente do programa Saia Justa, contudo, arrancou o véu. Sob o pretexto de cutucar a chatice da militância politicamente correta, a jornalista perdeu uma bela oportunidade de ficar com a boca fechada e, entre grunhidos incompreensíveis, tradução da euforia que lhe tomou ao fazer chacota de milhões de pessoas, arrotou burrice e sectarismo, condenando a solução mais simples para os problemas de mobilidade urbana enfrentados pelas grandes cidades: a bike.

Na cadência do pedal – Anda de bicicleta quem quer. Pra mim, que não suporto azul Severino sobre a moleira, pedalar é uma atividade noturna, a maneira encontrada para me apoderar da cidade. Enquanto os poderosos e o séquito de puxa sacos que sempre os acompanha acenam dos camarotes, eu pedalo. Enquanto uma gente fresca e afetada enfrenta fila para beber em vernissages, eu tomo vento na cara. Enquanto a maioria gasta dinheiro e passa cartões de crédito como quem coloca a corda no pescoço, eu transpiro. A cidade me pertence.

Com o tempo, a cadência do pedal acabou se prestando ainda a um exercício inusitado. Aprendi a escrever em cima da magrela. Os fones despejam um disco novo nos meus ouvidos. Distraído, o corpo responde. Não tem palavra que escorregue ou desobedeça. Não tem firula de guitarrista atinado. Equilibrado sobre duas rodas, meu veredicto adquire o peso de uma vontade despótica e condena à forca ou ao exílio todos os bobos da corte que não fazem a alegria do rei.

Um metro e meio de distância, como determina o Código Brasileiro de Trânsito, ou a sua cabeça vai pro mastro.

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3 Comentários »

  1. Eis o veredito!

    Comentário por Pollyana — fevereiro 25, 2012 @ 11:41 am

  2. Ah, como gostaria de compreender a fundo tal prosperidade bicicletária.
    Em um idioma que quer ser compreendido além do Atalaia, que tal facilitar na língua camoniana? Menos barroquismo seria pedir demais?
    Eu já andei à pé nesse trecho, não era nem verão e que calor meu Deus! A foto se não me engano é próximo ao Iate, não é? Ainda bem que tem a brisa para aliviar.
    E, gostaria de sugerir. Deixe a flacidez glútea do discurso anti-polimérico-monetária. Sua bike foi paga com conchinhas catadas na beira-mar?

    Comentário por Saudades do Macunaíma — março 11, 2012 @ 8:02 pm

  3. Cuma?!

    Comentário por spleencharutos — março 11, 2012 @ 8:13 pm


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