Spleen e charutos

fevereiro 16, 2012

De olhos bem fechados

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 7:06 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Arthur Soares e Victor Balde mantém os olhos abertos enquanto a galera viaja

Quando a onda bate, neguinho fecha os olhos e sacode a piolheira no compasso. Cabeça, tronco e membros obedientes aos impulsos sugeridos pelos amplificadores. É pra galera mais suscetível à pancada que a dupla de fotógrafos Arthur Soares e Victor Balde (leia-se Snapic) mantém os olhos abertos enquanto a maioria viaja. Instantâneos de um feeling intraduzível acendem nossa memória afetiva e dão cores às lembranças embaçadas pelas pálpebras, pelo barulho e pela fumaça.

É como dar nome aos bois. Depois de quatro anos registrando a profícua cena musical sergipana, a Snapic reuniu parte do material guardado no escuro de filmes e cartões de memória num volume com 80 páginas. No miolo, a labuta de uma galera que tira leite de pedra pra assombrar a poeira adormecida sobre a sensibilidade coletiva.

The Baggios, Plástico Lunar, NaurÊa, Rótulo, Karne Krua, Elvis Boamorte e os Boavidas, [maua], Mamutes, Ferraro Trio e Nucleador, entre outros responsáveis pelo barulho que acorda os fantasmas nos subterrâneos da cidade, transpiram, fazem careta e dão a própria cara a tapa pra tanger nossa música fronteiras afora. A Snapic faz parte da empreitada.

Música pra ver – O projeto “Snapic-Música pra ver” foi aprovado na conclusão do curso de graduação de Jornalismo pela Universidade Tiradentes. “No dia 17 de abril, lançaremos o livro fotográfico com uma exposição na Galeria Jenner Augusto, localizada na Sociedade Semear. Através dessa mostra, conseguimos um capital inicial com o patrocínio da Petrobras”.

Balde explica que, para viabilizar a impressão de uma tiragem de 300 exemplares, a Snapic precisa vender 150 livros antecipadamente. A idéia é pegar um punga na onda do Financiamento Colaborativo e, através desse método de captação de recursos, atingir o montante necessário para o lançamento do primeiro livro de fotografia de música apenas com bandas de Sergipe.

“Nossa intenção é captar esse valor através da pré-venda do livro. As pessoas que aderirem à ideia, além de ajudarem a transformar o projeto em realidade, estarão incentivando a produção cultural local”.

O valor único da cota é R$50,00, que poderá ser pago através de depósito bancário (Santander,Banco do Brasil,Caixa Econômica ou Bradesco) ou pessoalmente. Para as pessoas residentes fora de Aracaju ou do Brasil, será necessário consultar a taxa de envio. Para dar a contribuição aos jornalistas e adquirir antecipadamente “Snapic – Música para ver”, os interessados podem telefonar para 9136 – 8582.

Anúncios

fevereiro 8, 2012

Com fome de tudo

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 7:55 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A fome dos Baggios encurralada no Projeto Verão

O Projeto Verão não vai dar cabo de meu fastio. Ainda não media meio metro quando comecei a fuçar a discoteca dos mais velhos, enfeitiçado pelo passeio mecânico da agulha obrigada aos sulcos riscados na superfície escura do vinil. Nunca mais fui resgatado. Não empinei pipa nem joguei bola na rua. Não troquei socos nem esfolei os joelhos em competições estúpidas. Passei infância e adolescência no abismo das ranhuras que guardavam as melodias.

Sensação estranha, portanto, esse aborrecimento dos ouvidos. Se ao menos os responsáveis pela programação do Projeto Verão tivessem ameaçado alguns passos além da obviedade cafona e repetitiva que dedica o principal palco do evento aos zumbis de uma indústria decadente, ignorando a revolução musical que ocorre sob as próprias barbas, restaria esperança de remédio. No lugar dos artistas a quem pode ser atribuída a renovação da tradição musical brasileira, entretanto, somos constrangidos a nos contentar com a chatice noveleira de Seu Jorge, Falcão e Charlie Brown Jr. Dá até pra imaginar a turma da Funcaju desafiando os menos distraídos:

– E durma com um barulho desses!

Meu papagaio – Pior é quando os protestos pelo efetivo fomento da produção musical sergipana são deliberadamente confundidos com um elogio ao ufanismo. Reivindicar o palco principal do Projeto Verão para os meninos da Baggios, por exemplo, é muito diferente de afirmar que meu papagaio tem as asas douradas. O duo de São Cristóvão não merece a atenção do público por causa de um recorte de origem, mas em função do trabalho destacado pelos principais veículos especializados em música do país. Não pretendemos cota, mas o talento dos nossos reconhecido. Simples assim.

O que se observa na programação do Projeto Verão (confira abaixo, por sua conta e risco), contudo, é uma disparidade escandalosa entre o alegado compromisso com nossos artistas e a altura do palco a eles dispensado. As poucas atrações relevantes do evento, as exceções que dialogam com os acordes, dubs e beats que assustaram a poeira adormecida sobre a nossa música, foram contidas numa espécie de curral, obrigadas a uma convivência insalubre, bem longe da multidão que promete invadir a Atalaia. Triste, mas é assim.

Foto: Snapic

Confira a programação, por sua conta e risco:

Palco principal (a partir das 22 horas)

09 de fevereiro

Monobloco
Revelação
Naurêa

10 de fevereiro

Seu Jorge
Charlie Brown Jr.
Alapada

11 de fevereiro

Manu Chao
O Rappa
Reação

Palco Multicultural (a partir das 20 horas)

09 de fevereiro

DJ Preto JB
Elvis Boamorte e os Boavidas
Samba de Moça Só
Grupo Kdência

10 de fevereiro

DJ Zuc
Uzotoz (Hip-hop)
Ato Libertário
Dekolla

11 de fevereiro

DJ Kaska
The Baggios
Grupo 5 Elementos
Out Mask
Sambacana

fevereiro 3, 2012

O artista e a transformação da paisagem

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:13 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Dois anos jogando tinta no meio da rua

O artista visual Fábio Sampaio sempre soube que, para respirar de fato, as cidades não precisam somente de árvores. Além de sombra e verde, além de ciclovias e civilidade no asfalto, o cidadão carece do reflexo de suas feições no espelho dos dias. Foi pensando nisso, em função de uma fome para a qual o pão não basta, que Sampaio se propôs a jogar tinta no meio da rua.

A iniciativa não poderia ser mais oportuna. Ao longo de sua carreira, o artista se acostumou a provocar até os mais distraídos com as intervenções urbanas reunidas recentemente em um catálogo. O maior instantâneo de sua ousadia, no entanto, é mesmo a paisagem.

Entre todos os frutos do trabalho realizado por Sampaio, o projeto Caju na Rua é o mais simples e pretensioso. Na aparente contradição inerente a uma empreitada de execução pouco elaborada e a comunicação imediata estabelecida com a comunidade, a grande sacada.

Lugar de poesia é na calçada – A primeira edição do Caju na Rua transformou Aracaju numa verdadeira galeria a céu aberto. Inspirado pelo Cow Parade, o projeto distribuiu 11 esculturas de uma das frutas mais caras à identidade sergipana em pontos estratégicos da capital. Através da customização das peças, os artistas que fizeram parte do projeto – Zé Fernandes, Madureira, Edidelson, Hortência Barreto, Antônio da Cruz, João Valdênio e Elias Santos, entre tantos outros – prestaram uma homenagem sincera ao aniversário de Aracaju.

Nesta segunda edição, os artistas que farão parte do Projeto serão selecionados através de edital. A curadoria do Caju na Rua avaliará as propostas enviadas a Prefeitura de Aracaju conforme regulamento que estará disponível no site da Prefeitura Municipal de Aracaju: http://www.aracaju.se.gov.br a partir da próxima segunda-feira. Poderão participar da seleção pública artistas plásticos residentes em Sergipe. A seleção começa no dia 6 de fevereiro e se encerra no dia 10. O resultado será divulgado no dia 15 de fevereiro.

Entusiasta da cultura local, Edvaldo afirma que a ação abre espaço para os artistas, embeleza a cidade e leva cultura para a população. Ele informou ainda os locais onde serão expostas as novas obras de arte. “Teremos cajus na Orla Pôr do Sol, rótula do Mosqueiro, nos Quiosques da Aruana, no viaduto Carvalho Déda, calçadão de João Pessoa, Praça da juventude, no conjunto Augusto Franco, na praça vereador Osvaldo Mendonça, no bugio, e praça Ulisses Guimarães, no Santos Dumont”, declarou.

Para a presidente da Empresa Municipal de Serviços Urbanos, Lucimara Passos, o projeto já foi acolhido pela população de Aracaju, o que motivou a renovação da parceria firmada na primeira edição do projeto. “Esse não é um projeto dedicado aos turistas. Embora eles adorem visitar as esculturas, nossa preocupação é atender uma necessidade da população, que carecia de sua identidade expressa no cotidiano da cidade”.

As palavras de Fábio Sampaio, proferidas pouco antes do lançamento do projeto, dimensionam a ambição da empresa. “Até onde sei, Aracaju é a única capital nordestina que não possui artistas com visibilidade nacional, em grandes exposições e circuitos internacionais. Acredito que projetos grandiosos como esse podem despertar a curiosidade de outros centros e instituições. Quanto a questão dos monumentos, Aracaju realmente é um cidade carente de obras públicas. Eu espero que essa iniciativa projete uma certa ambição, não apenas na cabeça dos seus moradores, como também em quem administra a cidade. Nós temos, sim, todas as possibilidades de uma cidade mais artística”.

janeiro 30, 2012

Desculpe o auê

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 8:49 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Pra roqueiro que se preze, algemas não fazem falta nem causam medo

O governador Marcelo Déda que me perdoe. Cabe sim ao artista, mirante do porvir, esticar os olhos por cima de nossas cabeças, desafiar hábito e lei, para açoitar o rabo preso do progresso. Com violência, ternura, raiva ou afeto.

Embora a caricatura do desajustado tenha perdido muito de seu apelo romântico – um belo dia o mundo levantou da cama com um hálito amargo –, pequenos espasmos de rebeldia continuam provocando alguma reverberação. Rita Lee subiu no palco do Verão Sergipe merecendo uma boa vaia, mas desceu como as meninas que fogem de casa, a mala pesada de ilusões. Do alto de seus quase setenta anos, a velhinha carcomida que esnobou o nosso aplauso chutou a bunda do status quo e se redimiu diante de vinte mil pessoas. Pra roqueiro que se preze, algemas não fazem falta nem causam medo.

Eu não queria magoar você – Ao contrário do que insinua a nota divulgada pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult), o protesto de Rita Lee não pode ser atribuído a um surto psicótico. Se a altura dos camarotes impediu que as autoridades se dessem conta do que ocorria bem embaixo do nariz delas, aí já são outros quinhentos.

Diferente de Fernando Pessoa, conheço uns três ou quatro que já levaram porrada. Relatos a respeito da valorosa Polícia Militar de Sergipe podem ser colhidos no lombo da arraia miúda, em nome de quem a cantora se manifestou. É bem verdade que, ânimos exaltados, a celeuma se aproximou temerariamente do caos. A responsabilidade pela balbúrdia, no entanto, não deve ser lançada sobre os ombros de quem se rebelou contra os abusos cometidos, mas ao despreparo do braço armado do Estado.

Foi uma cantora em fim de carreira. Poderia ter sido um bancário, um jornalista ou um pedreiro. Embora a civilidade ensine que a imposição da força é sempre o último recurso, o incidente no Verão Sergipe prova que ninguém está a salvo de um baculejo.

janeiro 25, 2012

Sergipe, ou a casa da mãe Joana

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 8:53 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Rita Lee esnoba Verão Sergipe, mas vai faturar mesmo assim

Quatro edições de Verão Sergipe não foram suficientes para que nossos gestores compreendessem o óbvio: Nós já temos uma cena capaz de sustentar o calendário de eventos do Estado. Não se trata de bairrismo, nem de uma concepção de cultura indiferente às contaminações do mercado. Enquanto insistimos no equívoco de oferecer nossos palcos de mãos beijadas para os outros, como se os domínios de Serigy fossem a casa da mãe Joana, os artistas que tiram leite de pedra para engrossar o caldo de nossa música disputam os farelos abandonados no chão.

Quem quiser que se vire para manter a fervura da cadeia produtiva acesa. No que depender dos eventos promovidos pela administração local (Governo de Sergipe e Prefeitura de Aracaju), a profícua produção musical sergipana permanecerá relegada a palcos menores, preenchendo os intervalos da programação.

It’s all entertainment – Brecha é diferente de espaço. Como bem observou Henrique Teles, da Maria Scombona, a proporção de artistas locais x nacionais na programação do Verão Sergipe está invertida. Embora a Secretaria de Estado da Cultura (Secult) tenha acertado mais uma vez ao publicar edital selecionando os artistas que se apresentarão na Arena Multicultural do Verão Sergipe (a Funcaju, responsável pelo Projeto Verão, não fez nem isso), comete um pecado imperdoável ao transformar o principal palco do evento numa vitrine de tudo o que não interessa mais na música brasileira. A esnobada que a ex-mutante Rita Lee deu em nossos caciques fala por si.

É como se nossos gestores tivessem parado no tempo. Há quatro anos, os mesmos nomes são contratados a peso de ouro e se revezam diante de um público que periga sucumbir ao cansaço. Margareth Menezes, por exemplo, já se apresentou no Verão Sergipe em 2010. De lá pra cá, não produziu nada que justificasse o convite realizado agora. Os Paralamas do Sucesso se apresentam em evento promovido com o nosso dinheiro pela terceira vez. O Biquine Cavadão não pode ser considerado novidade – uma banda morta, que arrasta a própria carcaça desde o início da última década do século passado. O mesmo pode ser dito do cantor e compositor Frejat, que vem se esmerando na arte de afogar a própria biografia num copo raso de água com açúcar. E por aí vai…

Atencioso e crítico, o cantor e compositor Deilson Pessoa, que integra o coletivo de músicos Serigy All Stars, se manifestou em nome do Fórum de Música de Sergipe. “Nem entro no mérito subjetivo do gosto. Somente me pergunto: por qual necessidade se repetem nomes de artistas nacionais nos eventos de um país tão rico em atrações musicais de grande e médio porte? Há pouco, em 2008, Rita Lee veio embolsar a grana de um reveillon aracajuano. Novamente está de volta, agora pelo Verão Sergipe. Parece que trocou cadeira com Daniela Mercury, que esteve nas edições do próprio Verão Sergipe em 2009 e 2010, e retornou agora para brindar um ‘troquinho’ em nosso reveillon”.

O pior é que o apreço demonstrado pela música local na hora de compor a programação desses eventos se estende ao tratamento dispensado até que o músico finalmente pise no palco. Esta semana, as redes sociais serviram de canal para que os descontentes desabafassem. O produtor Mário Eugênio, profissional respeitado, com diversos serviços prestados à música sergipana, está entre os que soltaram o verbo.

“A produção do Verão Sergipe acabou de me ligar e disse que só tem duas vans pra fazer o translados das bandas locais. Desta forma, temos que ir 13h e ficar direto até a hora do show, que será 1h da manhã. Que tal ficar 12h na labuta pra fazer o show? Tenho certeza de que as bandas de fora ficam com transporte a disposição”.

Segundo a Secult, tudo não teria passado de um ruído na comunicação entre os produtores do evento e o profissional citado. No entanto, não seria a primeira vez que os músicos locais reclamam de descaso no back stage. Se esse estado de coisas permanecer inalterado, melhor os poderosos se acostumarem com o barulho das vaias. Ano passado, o incidente que culminou na interrupção do show de Patrícia Polayne no Verão Sergipe motivou reações apaixonadas e ofereceu oportunidade para que os gestores de nossa cultura fizessem uma auto crítica. O tratamento dispensado aos artistas sergipanos estaria à altura do trabalho apresentado no palco? A julgar pelos acontecimentos mais recentes, parece que não.

janeiro 24, 2012

Além da própria fórmula, a naurÊa

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:19 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Músicos de mão cheia, com sangue no olho e cabelo na venta

Coloque as mãos nos bolsos. Revire os coitados pelo avesso. Se você não encontrar mais do que dois tostões furados, as moedas do pão, é provável que seja daqueles para quem o amanhã não interessa. Os perdulários sabem que o homem é o momento. Aqui e agora. Ponto final. No entanto, quando tratam das provocações propostas à sensibilidade alheia, mesmo os mais expansivos apreciam a economia dos gestos. É certo que caixão não tem gaveta, mas quem vive de beliscar os nervos dos outros não precisa gastar todas as cartas numa jogada só.

O maior trunfo da naurÊa não reside no elogio ao gozo e à fruição, no tecido puído da experiência que amamenta o lirismo das composições assinadas por Alex Sant’anna e Márcio de Dona Litinha. Há muitos coelhos nessa cartola, outros truques guardados na manga. É nas seis cordas do guitarrista Abraão Gonzaga, por exemplo, que a mágica acontece. São as palmas das mãos de Betinho Caixa D’água que sacodem o furdunço.

Evidente, esta é somente a opinião de um jornalistazinho. É possível que os próprios músicos atribuam a disposição da galera que gasta as canelas na frente do palco a fatores mais relevantes. Ocorre que o apelo da zabumba maltratada por Márcio, a marcação ensandecida do sambaião, não encerram as virtudes da banda – uma reunião de músicos de mão cheia, com sangue no olho e cabelo na venta, que buscou na exaltação da alegria o seu principal motivo.

Às vezes, o que não salta aos olhos faz muita diferença. Vai ver que já estava lá pra quem quisesse ver. Em Furdunço (2011), entretanto, ficou muito evidente, ao menos para este escriba, que os beats da naurÊa, a algazarra exaltada pelas suas composições, só funcionam por causa de um todo orgânico, quase altruísta, que trabalha a serviço da composição. Do próprio disco, eles falam melhor do que ninguém (leia abaixo), mas fica aqui registrada a satisfação de um aficionado. Tranquilizado por riffs e batuques, em verdade vos digo, a naurÊa não é só uma fórmula.

Furdunço – Bagunça. Celebração. Forró. Completando 10 anos, a Naurêa presenteia seus fãs com o primeiro volume do álbum box All Gazaha: Furdunço. São três músicas inéditas e três remixes – dos djs Dolores, Lucio K e Kaska.

A ideia agora é investir em álbuns periódicos que serão lançados a cada três meses. Cada pedaço dessa All Gazaha contará com músicas inéditas, com artista de renome internacional, contribuindo com o trabalho da Naurêa (neste primeiro volume, Dj Dolores e Dj Lucio K – nos próximos virão surpresas) e com artes visuais que no final do projeto em Junho formarão o mosaico da algazarra.

Com isso a banda dá um passo largo para novas possibilidades e, dentro de uma nova estética que tomou conta do mundo, criará obras abertas que estarão sendo trabalhadas durante um ano inteiro.

Furdunço será o início desta confusão que mixará sabores sonoros, línguas e linguagens. A faixa inicial do ep já dá mostras do que será feito este novo trabalho: Bate beat, um trocadilho globalizado das brincadeiras de roda com o universo do pop dançante, do pirulito que bate-bate ao beat it que já bateu.

A segunda faixa vai à salsa de Célia Cruz ao samba de Clara Nunes passando pela deliciosa lambada de Michel Nerplat (aquele do Wi Pi Ti Pi Ti). A terceira nos leva ao afrobeat, ao R&B e samba de roda e de pareia – minha vida é viver e brincar.

janeiro 17, 2012

Maneco planeja rota de fuga do Pré Caju

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 8:07 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O meu ouvido não é penico. E o seu?

Ninguém vai me empurrar a própria alegria goela abaixo. Pouco afeito aos tambores trazidos a peso de ouro da Bahia, o Tio Maneco Botequices preparou uma rota de fuga para os sobrinhos e nos oferece uma alternativa pra lá de interessante para quem não faz do ouvido penico e prefere valorizar a prata da casa ao invés de descer até o chão, obediente aos apelos despejados de cima do trio. Durante o Pré Caju 2012, só vai ouvir porcaria quem não conseguir ultrapassar a faixa de gaza transportada para a Avenida Beira Mar, ou realmente fizer questão de sacodir o corpo feito criança.

Enquanto um lado da cidade ferve ao som dos pracatuns baianos, o Tio Maneco oferece palco, holofote e a atenção da galera para a molecada que faz barulho aqui mesmo em nossa aldeia; Gente que vem colecionando críticas entusiasmadas em alguns dos principais veículos dedicados à música país afora, apesar da miopia escandalosa da imprensa local.Isso tudo sem um tostão de dinheiro público. O tio garante.

Programação – No dia 19 (quinta-feira), abrindo os trabalhos da casa, Júlio Andrade (leia-se The Baggios) executa um repertório de classic rock e blues. Numa relax, numa tranqüila, numa boa.

No dia 20 (sexta-feira), é hora de revirar o baú de memórias. Quem foi adolescente na Aracaju dos anos 90 com certeza ainda guarda aquela fita k7 da banda Snooze. Quem não conhece, não pode perder esta oportunidade. Com influências de Sonic Youth, Weezer, Yo La Tengo, entre outros, a Snooze faz um som atemporal.

Já no dia, 21 (sábado), Plástico Lunar, pela primeira vez no boteco. É isso mesmo, as canções que fizeram a cabeça do público do Psicodálica (SC), a exemplo de ‘Formato cereja’, ‘Sua casa seu paletó’, e muitos outros sucessos, regados a cerveja gelada, no conforto do boteco mais esperto da cidade.

Verão, três dias, e uma rota de fuga. Isso tudo, não custa repetir, sem um tostão de dinheiro público. O tio garante.

Foto: Cássio Abreu

janeiro 12, 2012

Cala a boca já morreu!

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:47 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Nem mesmo o principal provedor da festa reconhece a capital sergipana como destino turístico

A Associação Sergipana de Blocos e Trios (ASBT) está na mira dos artistas sergipanos. O destempero do empresário Fabiano Oliveira – que deu um tiro no pé e interpelou um estudante judicialmente, constrangendo o rapaz a comparecer diante de um magistrado para explicar porque teve a ousadia de compartilhar matéria publicada pelo Correio Braziliense numa rede social – saiu pela culatra e finalmente tirou a classe da letargia.

O coletivo de músicos Serigy All-Stars está recolhendo as assinaturas dos alforriados para devolver a chicotada do sinhozinho. Eles pretendem apresentar denúncia no Ministério Público Federal questionando a ASBT a respeito da utilização de recursos públicos repassados para a Associação. A suspeita de irregularidades foi levantada por relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), mas a insatisfação com a prévia carnavalesca realizada todos os anos com a bênção da Prefeitura de Aracaju e Governo do Estado de Sergipe vem crescendo há muito tempo, independente de eventuais conflitos com a letra da lei.

Cala a boca já morreu! – A matéria mencionada, causa e catalizador da indignação dos músicos sergipanos, foi publicada em 16 de dezembro de 2010, sem que qualquer ação judicial tenha sido imposta ao diário. Nela, o jornalista Lucio Vaz explica como a ASBT, uma associação sem fins lucrativos, consegue financiar uma festa privada com um montante milionário, retirado dos cofres do Ministério do Turismo por meio de emendas parlamentares.

De acordo com o Correio Braziliense, Albano Franco (PSDB), Jackson Barreto (PMDB), Jerônimo Reis (DEM), José Carlos Machado (DEM) e Valadares Filho (PSB), além do baiano Emiliano José (PT), então deputados federais, julgaram proveitoso destinar quase R$ 16 milhões para que a ASBT promovesse três edições de uma prévia carnavalesca que afronta claramente uma série de direitos dos cidadãos sergipanos, impedidos de trafegar livremente pelas principais vias da cidade nos dias em que a festa é realizada.

No entanto, a boa vontade dos entes públicos com as empresas que formam o grupo não para por aí. O Pré-Caju foi incluído no calendário turístico e cultural da capital por lei municipal em 1993. Três anos depois, outra lei reconheceu a ASBT como entidade gestora e organizadora do evento. Depois, ela foi agraciada com o certificado de utilidade pública estadual. Hoje, a micareta é reconhecida pelas autoridades como um evento estratégico, uma das principais cartadas para promover o turismo local. Nossos gestores não explicam, contudo, porque depois do investimento vultoso, realizado durante anos a fio, nem mesmo o principal provedor da festa reconhece a capital sergipana como destino apropriado para os visitantes.

Há menos de uma semana, o Ministério do Turismo indicou os 184 destinos para turistas durante a Copa do Mundo de 2014. No Nordeste, só foram contempladas cidades do Maranhão, Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Bahia e Ceará. O objetivo é aumentar o fluxo turístico e a geração de renda e emprego. Entre os nove estados nordestinos, Sergipe foi o único que ficou de fora.

Para o cantor e compositor Deilson Pessoa, que também integra a direção do Fórum de Música de Sergipe, a iniciativa do Serigy All-Stars já pode ser considerada bem sucedida. Para o coletivo de músicos, importa o exercício da cidadania, o devido respeito à coisa pública, a saúde de nossa democracia. “O espírito do Cacique Serigy com certeza agradece a todos que subscreveram a denúncia que vamos apresentar ao MPF contra a ASBT e a má utilização de dinheiro público na realização dessa festa privada. O que nós, artistas sergipanos, estamos reivindicando é um olhar mais atencioso com a nossa gente e cultura. Só você muda a maneira como é visto”.

É como se os músicos respondessem à tentativa de cerceamento da informação, manifesta na ação movida pelo empresário Fabiano Oliveira, respondendo em alto e bom som: Quem manda em mim sou eu!

janeiro 5, 2012

O lugar de Arthur no cancioneiro sergipano

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:01 pm

Arthur finca bandeira sem negar os seus

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não é fácil abrir mão do opulento. A matrona gorda que faz as nossas vontades desde sempre nos acostumou à extravagância ainda no berço. Os ocidentais amam o exagero, a velocidade e o barulho. A introspecção necessária para virar as páginas de um livro e ouvir um disco de cabo a rabo acabou sitiada numa vila de anacrônicos pedantes, uma tribo de selvagens apegados a ídolos mortos, de barbas compridas ou cabelos brancos, que dedica seus ritos ao deleite e ao deslumbramento. Para fincar bandeira no cancioneiro local, reivindicando a parte que lhe cabe nesse latifúndio, Arthur Matos (leia-se Nantes) não precisou, contudo, negar os seus.

“Seu lugar” (2012) não é apenas o primeiro lançamento do ano. Em sua estreia solo, Arthur reafirmou a visão do exercício musical como profissão de fé, convicção já muito evidente nos trabalhos lançados pela banda que lidera. Nenhuma concessão. Nesses dois momentos de sua produção como compositor há, entretanto, uma diferença fundamental. Se o primeiro disco da Nantes, gravado aqui mesmo na terrinha, assombrou todo mundo com a parafernália e o requinte ostentado em cada segundo de reprodução, “Seu lugar” encanta pelo despojamento, pela aparente simplicidade empregada nos arranjos e pela intenção manifesta de utilizar a força inerente às próprias composições como alicerce do registro.

“Seu lugar” começa já no climão, com um Lap Steel executado pelo impecável Melcíades Filho (Máquina Blues) na introdução de “A estrada”. Outras participações de peso pontuam as 11 faixas do disco (Fabrício Rossini e Rafael Ramos atacam por todos os lados, e executam de bateria a violino), mas os convidados obedecem sempre à premissa de trabalhar para realçar as intenções do violão executado pelo próprio cantor, esteio harmônico de todo o trabalho, como fazem os músicos que se prezam.

Segundo Arthur, o processo de gravação foi muito tranquilo, literalmente caseiro, o que acabou lhe poupando muito tempo. Entre as sessões necessárias para gravar os vocais (único registro colhido em estúdio), baixos, baterias, percussão (campanella, maracas, pandeirola, tibetan singing bowl), teclas (utilizadas com muita parcimônia) e Lap Steel, não foram gastas mais do que 26 horas.

Também pudera. Arthur segura a onda quase toda nas seis cordas e no gogó. Assim, na maciota, como quem não quer nada, “Seu lugar”, que deverá ser lançado em breve (a data prevista é o próximo dia 21), demarca um quadrado muito particular no vasto território da música popular produzida em Sergipe sem dar muita bola para os apelos e expectativas do gosto médio. Como todos os que fazem alguma diferença, Arthur só dá ouvidos à própria obsessão – no seu caso, a canção.

*Foto: Marcelinho Hora

janeiro 2, 2012

Célio Nunes, diante da porta

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:39 pm

A elegância da sobriedade

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Concisão é tudo nessa vida. Não há razão para ficar dando voltas pelo quarteirão com o endereço rasurado num pedaço de papel, o destino amassado entre cédulas de R$ 2 e maços de cigarros na Babilônia dos bolsos. Diante da porta certa, a maior parte dos autores tem duas alternativas: a campainha ou o crime. Poucos, a exemplo de Célio Nunes, chegam com as chaves na mão.

Lançados recentemente pela editora Diário Oficial, os Microcontos de Célio Nunes constituem um elogio à elegância da sobriedade. De um punhado de palavras muito bem distribuídas nasce um universo inteiro, um mundo perfeitamente reconhecível nos rangidos de uma charrete, nos calos de um coração feminino, na língua grande e maliciosa da vizinhança. Alheio a frescuras e arrodeios, Célio Nunes não precisa de mais do que uma página (frequentemente, ainda menos) para destrinchar um rosário inteiro e faz como as matriarcas sentadas nas calçadas de antigamente. Conta a história sem um pingo de deslumbramento.

Para escrever é preciso memória. Nenhum caso prescinde das gasturas do tempo. Nas miudezas de um diálogo singelo, duas moças que quebram o silêncio na praça da Matriz de uma cidade do interior, a voz segura de um narrador que já comeu a poeira de muita estrada. Antes de começar a deitar as palavras no papel numa obra mais consistente, que extrapola o aqui e agora do exercício jornalístico, Célio Nunes mergulhou os pés em muita beira de rio, gastou olhos e ouvidos para reconhecer pessoas, personagens e paisagens. É da vivência que, ao menos na aparência, a sua prosa se alimenta. Por isso o seu trabalho emociona e se impõe, urgente.

O autor – Célio Nunes trabalhou no jornal da Manhã, Gazeta de Sergipe, Jornal da Cidade e por alguns meses foi colunista do Portal Infonet. Fundou o Sindicato dos Jornalistas de Sergipe, dirigiu a Federação Nacional dos Jornalistas, foi presidente da Associação Sergipana de Imprensa, chefe da Assessoria de Comunicação da Universidade Federal de Sergipe, membro do Conselho Estadual de Cultura e Diretor Administrativo e Financeiro da Segrase, onde também exerceu a presidência na década de 90.

A obra – Microcontos reúne pequenos contos publicados por Célio Nunes na internet e em uma revista literária de São Paulo ao longo dos últimos 4 anos antes do seu falecimento, ocorrido em setembro de 2009.

« Página anteriorPróxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.