Spleen e charutos

janeiro 5, 2012

O lugar de Arthur no cancioneiro sergipano

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:01 pm

Arthur finca bandeira sem negar os seus

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não é fácil abrir mão do opulento. A matrona gorda que faz as nossas vontades desde sempre nos acostumou à extravagância ainda no berço. Os ocidentais amam o exagero, a velocidade e o barulho. A introspecção necessária para virar as páginas de um livro e ouvir um disco de cabo a rabo acabou sitiada numa vila de anacrônicos pedantes, uma tribo de selvagens apegados a ídolos mortos, de barbas compridas ou cabelos brancos, que dedica seus ritos ao deleite e ao deslumbramento. Para fincar bandeira no cancioneiro local, reivindicando a parte que lhe cabe nesse latifúndio, Arthur Matos (leia-se Nantes) não precisou, contudo, negar os seus.

“Seu lugar” (2012) não é apenas o primeiro lançamento do ano. Em sua estreia solo, Arthur reafirmou a visão do exercício musical como profissão de fé, convicção já muito evidente nos trabalhos lançados pela banda que lidera. Nenhuma concessão. Nesses dois momentos de sua produção como compositor há, entretanto, uma diferença fundamental. Se o primeiro disco da Nantes, gravado aqui mesmo na terrinha, assombrou todo mundo com a parafernália e o requinte ostentado em cada segundo de reprodução, “Seu lugar” encanta pelo despojamento, pela aparente simplicidade empregada nos arranjos e pela intenção manifesta de utilizar a força inerente às próprias composições como alicerce do registro.

“Seu lugar” começa já no climão, com um Lap Steel executado pelo impecável Melcíades Filho (Máquina Blues) na introdução de “A estrada”. Outras participações de peso pontuam as 11 faixas do disco (Fabrício Rossini e Rafael Ramos atacam por todos os lados, e executam de bateria a violino), mas os convidados obedecem sempre à premissa de trabalhar para realçar as intenções do violão executado pelo próprio cantor, esteio harmônico de todo o trabalho, como fazem os músicos que se prezam.

Segundo Arthur, o processo de gravação foi muito tranquilo, literalmente caseiro, o que acabou lhe poupando muito tempo. Entre as sessões necessárias para gravar os vocais (único registro colhido em estúdio), baixos, baterias, percussão (campanella, maracas, pandeirola, tibetan singing bowl), teclas (utilizadas com muita parcimônia) e Lap Steel, não foram gastas mais do que 26 horas.

Também pudera. Arthur segura a onda quase toda nas seis cordas e no gogó. Assim, na maciota, como quem não quer nada, “Seu lugar”, que deverá ser lançado em breve (a data prevista é o próximo dia 21), demarca um quadrado muito particular no vasto território da música popular produzida em Sergipe sem dar muita bola para os apelos e expectativas do gosto médio. Como todos os que fazem alguma diferença, Arthur só dá ouvidos à própria obsessão – no seu caso, a canção.

*Foto: Marcelinho Hora

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1 Comentário »

  1. O cabra é bom!!!

    Comentário por Rafael Jr. — janeiro 6, 2012 @ 4:10 am


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