Spleen e charutos

janeiro 2, 2012

Célio Nunes, diante da porta

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:39 pm

A elegância da sobriedade

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Concisão é tudo nessa vida. Não há razão para ficar dando voltas pelo quarteirão com o endereço rasurado num pedaço de papel, o destino amassado entre cédulas de R$ 2 e maços de cigarros na Babilônia dos bolsos. Diante da porta certa, a maior parte dos autores tem duas alternativas: a campainha ou o crime. Poucos, a exemplo de Célio Nunes, chegam com as chaves na mão.

Lançados recentemente pela editora Diário Oficial, os Microcontos de Célio Nunes constituem um elogio à elegância da sobriedade. De um punhado de palavras muito bem distribuídas nasce um universo inteiro, um mundo perfeitamente reconhecível nos rangidos de uma charrete, nos calos de um coração feminino, na língua grande e maliciosa da vizinhança. Alheio a frescuras e arrodeios, Célio Nunes não precisa de mais do que uma página (frequentemente, ainda menos) para destrinchar um rosário inteiro e faz como as matriarcas sentadas nas calçadas de antigamente. Conta a história sem um pingo de deslumbramento.

Para escrever é preciso memória. Nenhum caso prescinde das gasturas do tempo. Nas miudezas de um diálogo singelo, duas moças que quebram o silêncio na praça da Matriz de uma cidade do interior, a voz segura de um narrador que já comeu a poeira de muita estrada. Antes de começar a deitar as palavras no papel numa obra mais consistente, que extrapola o aqui e agora do exercício jornalístico, Célio Nunes mergulhou os pés em muita beira de rio, gastou olhos e ouvidos para reconhecer pessoas, personagens e paisagens. É da vivência que, ao menos na aparência, a sua prosa se alimenta. Por isso o seu trabalho emociona e se impõe, urgente.

O autor – Célio Nunes trabalhou no jornal da Manhã, Gazeta de Sergipe, Jornal da Cidade e por alguns meses foi colunista do Portal Infonet. Fundou o Sindicato dos Jornalistas de Sergipe, dirigiu a Federação Nacional dos Jornalistas, foi presidente da Associação Sergipana de Imprensa, chefe da Assessoria de Comunicação da Universidade Federal de Sergipe, membro do Conselho Estadual de Cultura e Diretor Administrativo e Financeiro da Segrase, onde também exerceu a presidência na década de 90.

A obra – Microcontos reúne pequenos contos publicados por Célio Nunes na internet e em uma revista literária de São Paulo ao longo dos últimos 4 anos antes do seu falecimento, ocorrido em setembro de 2009.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: