Spleen e charutos

novembro 8, 2011

Quando o mar não está pra peixe

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:09 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Devotados a tudo o que é raso e plácido, eles não se arriscam nunca

Ossos do ofício. É hora de ouvir um disco ruim. Um disco muito ruim. Para um cara nublado como eu, arrancar o invólucro de plástico que preservava os ouvidos inocentes de um trabalho que se apresenta sob o epíteto de “Rock Praia” exigiu um esforço descomunal, mas todo trampo possui os seus dias difíceis.

É certo que há quem se satisfaça com os riffs d’Alapada, o timbre MTV emulado pelo guitarrista Evandro Schiruder e a dedicação com que a banda reproduz os dogmas de uma indústria decadente, apostando todas as fichas na diluição da linguagem. Não é o meu caso, brodagem tem limite.

Alapada encarna o antípoda de todas as virtudes que permeiam a música produzida sob o céu azul de Aracaju. No registro lançado há poucos dias, contudo, a coerência dos valentes. Os caras não desviam nem por um segundo de seu maior propósito: se adequar a tudo o que a convenção julga mais palatável. Nas 13 faixas do disco, no trabalho gráfico e, sobretudo, nas letras das canções, a evidência de que um mergulho em águas profundas não está entre as pretensões da banda. Devotados a tudo o que é raso e plácido, eles não se arriscam nunca. Afinal, o mar não está pra peixe.

Escute uma faixa de ‘Alapada Rock Praia’. Será como ter ouvido todas as outras. A competência dos músicos Jamessom Santana (baixo), Júlio Fonseca (bateria), o já citado Schiruder e até mesmo do vocalista Escalabre (que cumpre bem o papel a que se propõe); a produção cuidadosa do disco (é preciso reconhecer) é sabotada pela ausência do que, no julgamento dos puristas, sustenta qualquer canção. Sem uma composição decente, meus amigos, não tem instrumentista que dê jeito.

Tudo certo como dois e dois são cinco. O bom é que esse rock ralinho, desenhado para abrigar um solo na hora certa, o apelo do ska no miolo da gravação, já rendeu tudo o que podia. Dose é aturar marmanjo com “atitude roqueira” – tatuagem no braço, piercing na sobrancelha e o resto – entoando versos como “Não dá pra mim/ Não vou sofrer/ Comigo é assim/ Não tem talvez/ Me ame ou me deixe ir/ Se quiser me ter/ É bom provar que é pra valer”. A Calcinha Preta já está aí pra isso…

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2 Comentários »

  1. UH… Essa foi no útero!!!

    hehehehe

    Comentário por Maicon — novembro 8, 2011 @ 3:35 pm

  2. “A Calcinha Preta já está aí pra isso…”

    ainda tem coragem de dizer que eu é que sou gente ruim, rs

    Comentário por Gilvan — novembro 8, 2011 @ 8:34 pm


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