Spleen e charutos

outubro 17, 2011

Numa esquina do Conjunto do Carmo

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:56 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Dois escritores aventureiros compartilham sua experiência literária com o público da Flica*

Como qualquer cidadezinha, Cachoeira (BA) não precisaria de mais do que quatro ruas. A margem do rio, uma igreja secular (pela austeridade respeitosa da fachada, presumo) e um monte de paralelepípedos para distribuir ao longo do resto.

Um jornalista insone foi hospedado no Convento do Carmo. Depois de se livrar da remela das madrugadas perdidas e recuperar um descanso impossível em sua própria casa, a vontade das pernas o obrigou à correnteza do passeio. A tarde livre, a pulsação pressentida no coração do lugar, o maço de Hollywood no fundo do bolso, tudo recomendava cerveja numa calçada. Foi numa esquina a dois passos da clausura de outros tempos, um gole depois do outro, que o jornalista acordou. Remédios e doutrinas se encontram em qualquer canto; o sorriso rebolado, cheio de promessas, no cume de uma ladeira ensolarada é motivação ordinária; o essencial se debate no íntimo, às voltas com a trama áspera do sentimento.

A linha pontilhada no mapa – A epifania sugerida pelo calor da tarde seria reiterada um pouco mais tarde, durante a mesa “Linguagens e geografias”, abrigada pela primeira edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica 2011) – razão pela qual a Oi, patrocinadora do evento, convidou o escriba para flanar pelo recôncavo.

Houveram mesas mais concorridas, mais aplaudidas, mais comentadas (a Flica teve convidados de peso, a exemplo de Reinaldo Moraes, Marcelino Freire, Fernando Morais e Miguel Sanches Neto). Foi na conversa travada entre o português Pedro Mexia e Hélio Pólvora, entretanto, que as expectativas que motivaram as curvas da estrada ficaram, finalmente, justificadas. Ao contrário do que ocorreu em outras oportunidades, contaminadas por uma urgência política que tem mais a ver com ideologia do que com qualquer expressão artística, ali a preocupação era mesmo a palavra.

Há, em grande parte das páginas empilhadas nas bibliotecas, uma variável espacial que remete à angústia de pertencer a um lugar. Entre escritores aventureiros e estacionários, entretanto, uma relação umbilical com determinado canto do mundo é comum. Seja na determinação de ir cada vez mais longe, para afastar-se; seja na sensação de que o quadrado da janela resume as possibilidades da experiência, tornando a viagem inútil, todo escritor é filho de um lugar. Quando a redação nega esse fato, o faz ostensivamente. É o que faz Mexia, que se confessa inclinado à peregrinação ao mesmo tempo em que lembra autores fundamentais, que além de se plantarem no quintal, moldaram cidades inteiras a uma percepção particular.

“Há escritores que construíram cidades literárias, que viveram com tal intensidade as cidades que são partes essenciais delas”, defende, resgatando a Lisboa situada no imaginário da poesia de Fernando Pessoa, a Buenos Aires de Borges e até mesmo a Bahia de Jorge Amado.

Para Hélio Pólvora, contudo, o regresso é temerário. “Não aconselho a ninguém. As paisagens que a gente procura quando quer voltar não estão mais lá. As pessoas também sofreram as ações do tempo, não são as mesmas pessoas. Elas não estão mais onde nós as supomos. A volta sempre é decepcionante e dolorosa”.

Ainda que pense assim, resumindo a mesa, sua literatura é marcada pelo berço, como argumenta Aurélio Schommer, curador da Flica. “Jorge Amado é natural de Ferradas; Adonias Filho, de Itajuípe; Hélio Pólvora, de Itabuna. Para quem conhece um pouco do sul da Bahia, se traçarmos linhas entre as três localidades, teremos um triângulo. Se traçarmos uma linha entre os três autores, teremos outro triângulo, equilátero, lados iguais, representando a tradução do regional ao universal. Assim como Jorge e Adonias, Hélio faz isso muito bem. E faz mais: em “Inúteis Luas Obscenas”, romance de grande escritor, extrapola a longa e meritória carreira como ensaísta, contista, tradutor, cronista e jornalista para nos brindar com obra prima”.

A Flica 2011 ocorreu entre os dias 11 e 16 de outubro, em Cachoeira (BA), com patrocínio da empresa de telefonia Oi. Segundo os organizadores da festa, ano que vem tem mais.

*Foto: Vinícius Xavier

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1 Comentário »

  1. Voltando a visitar os amigos… Muito bom texto…

    Comentário por Pollyana — outubro 17, 2011 @ 8:38 pm


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