Spleen e charutos

agosto 8, 2011

Uma fresta transbordante de azul

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:36 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Doce como a chuva*

O pior é que agora chove. Do alto desse terceiro andar, altura a que estou preso mesmo quando meus pés encontram o calor do asfalto, as pedras e os desconhecidos na rua, procuro vestígio dos quadros que gostaria de pendurar aqui dentro. Eu queria pinceladas escandalosas, o berro de cores violentas, mas só tenho os panos encardidos no varal, um lençol cansado que nunca mais será branco. O meu universo, o universo de todos os homens, ao menos segundo o texto de Tennessee Willians no qual o espetáculo Pela Janela é inspirado, está encarcerado num cômodo estreito, entre paredes desbotadas, no silêncio das relações atormentadas pela vontade frustrada e as ansiedades do corpo.

Quando a personagem de Diane Veloso finalmente fala – plantado na própria agonia, um amigo (Thiago Marques) promete escutar –, tudo é projeção. O verbo liberta os seus fantasmas como a luz nublada que toma conta do cenário: Um azul suave, impregnado pela melancolia da goteira cantando no telhado, contraponto para a trilha incidental assinada por Alex Sant’anna, Alisson Couto e Léo Airplane. Perto daquela fresta iluminada, uma fenda rasgada no áspero do aqui e agora, o sorriso das crianças, passeios intermináveis, biscoitos, tardes ao acaso, livros e filmes. Tudo o que podia ser, facilmente seria, mas não vinga.

Montado pelo Grupo Caixa Cênica, que assume a direção do espetáculo em parceira com Maicyra Leão, Pela Janela é sucinto e econômico como somente as incertezas no peito dos grandes podem ousar. Para além da inteligência e juventude daqueles diretamente envolvidos na produção, contudo, a peça atesta ainda o momento especial vivido pelo teatro sergipano. Sediado na Casa Rua da Cultura, Pela Janela é um entre tantos espetáculos carregados de frescor e ambição que o Ponto de Cultura abriga na segunda edição do Projeto temporadas. Aos que ainda não tiveram oportunidade de se apertar nas cadeiras enfileiradas pela Cia de Teatro Stultífera Navis, pode parecer exagero, mas sem fazer muito alarde, numa empresa discreta e obstinada como a ensinada pelas formigas, o projeto se esforça na criação de um público para o verdadeiro teatro, e faz mais pela cena local do que tantos a quem já coube tal responsabilidade. Agora, só não tem pano de boca pra quem não quer.

Pela Janela fica em cartaz na casa Rua da Cultura, sempre às 20 horas, até o dia 01 de outubro.

*Crédito da foto:Zak Moreira

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