Spleen e charutos

agosto 3, 2011

“Nature” – As flores e os espinhos

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:11 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Perfume e cortes na pele para guardar

Eu não ouvi “Nature” no Parque da Sementeira, ao ar livre, como é recomendado pela banda Road to Joy. Foi encarando uma parede nua que experimentei náusea e satisfação, numa sucessão de sentimentos tão confusa que precisou da superfície do papel para se aquietar. Antes da redação, as impressões eram arrastadas de um lado pra outro, feito criança, doidas por colo ou cadeira pra descansar. É curioso, mas apesar da serenidade sugerida pelo restante das composições, o sossego só chegou mesmo com a faixa mais assanhadinha do disco, Senõr Ariza. E olhe que nem sou esse roqueiro todo.

“Nature” é composto por apenas cinco canções e chama atenção pelo cuidado dispensado a cada uma delas. Num cenário que vem se destacando por trabalhos muito bem produzidos – e a alvorada da Nantes não me deixa mentir – a informação não chega a ser assim tão relevante, mas vale lembrar que essa é a estreia do trio formado por Gustavo Machado (que assina as composições), Ítalo Nascimento e Sabrina Porto. Eles chegaram na maciota, sem muita pretensão nem barulho, e a julgar pelo que apresentam nesse trabalho, prometem não decepcionar.

Outro destaque – essa sim, uma fofura! – é a derradeira The other side of the river. Gravada com o que parece um ukelele, que sucedeu a escaleta e se transformou no feitiche da hora entre os moderninhos, a canção possui uma melodia doce e grudenta, que realçada pela interferência dos teclados e o backing de Sabrina, belisca nossos nervos onde eles mais doem. Seria preciso um coração de pedra para sobreviver incólume. Aqui, a indiferença não tem lugar.

Mas nem tudo são flores em “Nature”. Se é verdade que o álbum é executado de maneira impecável, com arranjos inteligentes e toda a sorte de recursos à disposição de qualquer um com um pouco de curiosidade e paciência para fuçar a infinidade de programas que dão sopa na internet, também é preciso admitir que alguma melodias soam forçadas, incongruentes ou, simplesmente, óbvias demais. Summer Sonnet, por exemplo, só se salva pela palhetada segura que ataca as cordas da viola (apesar da parafernalha, os caras são folk, com muito orgulho), e pelo solo que pontua os intervalos entre as estrofes da canção. É impossível imaginar, contudo, alguém assobiando a música. Ela não é elaborada. Ela simplesmente não funciona, é ruim.

No fim das contas, depois da verdadeira prova dos nove submetida por horas a fio pelo player de meu notebook, o trabalho de estréia da Road to Joy justifica o lamento dos que reclamam a ausência da banda nos Cooks da vida. Perfume e cortes na pele, “Nature” se revela uma surpresa agradável, daquelas que a gente faz questão de guardar.

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2 Comentários »

  1. Boas alfinetadas no texto, e concordo com muito do que foi dito. Acredito que o charme de The Other Side of The River está justamente na simplicidade que falta às demais faixas recheadas de efeitos oriundos da “infinidade de programas que dão sopa na internet”. O mais curioso no entanto, está no site da própria banda ao chamar este de “nosso primeiro trabalho” quando a dois anos já rolava na internet o Single Virtual “Couple Fighting Song” que foi bastante ouvido em Aracaju, trazendo também outras duas faixas – todas disponiveis no extinto myspace da banda – e que embalou os raros shows que a Road fez no Cap. Cook, virada cinematográfica do cinecult, etc. Ora, um novo lançamento virtual não deveria desconsiderar o antigo. Gosto muito deste novo EP, e tendo acompanhado a banda desde sua idealização, é muito legal ver as coisas se materializando em tão alto nível. 😉

    Comentário por Leonardo Bandeira — agosto 3, 2011 @ 6:55 pm

  2. Eu curti o disquinho e foi um prazer ter gravado as faixas!
    Acho o Gus um compositor talentoso, mas ainda tem muita estrada pra amadurecer – e nesse ponto concordo um pouco com o Calango Doido, o escriba número um do underground sergipano!
    Abraços,
    Rafael Jr.

    Comentário por Rafael Jr — agosto 4, 2011 @ 11:38 pm


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