Spleen e charutos

julho 20, 2011

Por um bocadinho de autenticidade

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 8:05 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Nem investigação, nem impulso transformador da realidade

Basta viver pra machucar. O achado é de Márcio de Dona Litinha, dono da pérola que ornamenta o repertório da Naruêa, mas esse bostinha aqui assina embaixo.

Outro dia, por exemplo, despenquei de três andares de preguiça para deitar a vista nas paredes de uma galeria. Fui aconselhado pelo amigo Fábio Sampaio – artista de mão cheia, que insiste em folozar os parâmetros estéticos da província junto a valentes da estirpe de Elias Santos, Marcos Suruba, Madureira e Antônio da Cruz. Fui e quebrei a cara! Não fosse tanta lorota, a conversa proporcionada pelo encontro com pessoas muito queridas, o sacrifício teria sido realizado à toa.

Ainda não vai ser dessa vez, contudo, que publicarei o elogio à rede que venho ensaiando no balanço carinhoso daquele emaranhado de cordas. Se as cores que manchavam a Jenner Augusto não me disseram nada, um exemplar perdido da última edição d’O Capital, que acaba de completar vinte e um anos de resistência ao ordinário, justificou as duas quadras do cansaço imposto às minhas pernas.

Dezesseis páginas de aventura foram suficientes para me dar a certeza de que eu estava no caminho certo quando matava a aula de matemática e pulava o muro do Colégio Nobel para roubar livros numa biblioteca próxima. Foi numa dessas manhãs de liberdade criminosa que conheci o jornal de Ilma Fontes. Ainda tenho guardado em alguma gaveta o recorte de um poema de Olga Savary, que marcou esse primeiro encontro, e o eco dos nomes mais importantes da cultura local nos ouvidos, eternizados no preto e branco parido pela gráfica. Ao contrário do que ocorre em nossos periódicos convencionais, sempre tão ansiosos para estender tapetes desmedidos a forasteiros, n’O Capital a prata da casa é reverenciada com o devido respeito, na medida exata do talento ostentado.

É justamente por ter aprendido que não se deve a César um milímetro além do que lhe é de direito que sou obrigado a discordar de Sampaio quando ele enxerga no trabalho dos artistas reunidos na exposição Juntos e separados (vá conferir, por sua conta e risco) “um relato visual da individualidade apurada como sujeitos criadores, que a partir de suas investigações particulares do dia-dia, transformam a realidade do seu tempo e finalmente podem ser chamados de mestres”.

Honestamente, não vi nada disso. Não há um pingo de individualidade em nenhuma das telas ali penduradas, nenhum traço capaz de realçar a personalidade de um “sujeito criador”; não há investigação nem impulso transformador da realidade. Em que pese o meu entusiasmo pelo amálgama disforme aglomerado sob a colcha de retalhos do que chamamos arte contemporânea, não há como considerar seriamente trabalhos tão tímidos quantos os que nascem das mãos de senhoras desocupadas. A leitura de O Capital (cuja capa da edição comemorativa, por ironia do destino, é ilustrada por uma xilogravura de Kalvero, um dos artistas que compõem a tal coletiva) me lembra que qualquer exercício criativo – uma tela, ou um arremedo de crítica de arte – exige além de transpiração uma boa dose de autenticidade.

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3 Comentários »

  1. O cenário local das artes plásticas, como eu discutia ainda ontem com o amigo Joel Dantas, anda num marasmo só. Talvez o pior momento nos últimos 10 anos.

    Comentário por Suyene — julho 23, 2011 @ 5:53 pm

  2. faz tempo que não leio – ou sequer vejo – O Capital.
    onde encontro essa edição comemorativa do jornal da Ilma Fontes?
    bem que podia ter uma versão na internet né…
    ou a internet é ordinária?

    Comentário por VxLxBx — julho 25, 2011 @ 11:14 pm

  3. O Capital na Internet seria lindo! Vamos botar pilha em nosso querido André Teixeira, que é colaborador do alternativo.

    Comentário por spleencharutos — julho 25, 2011 @ 11:30 pm


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