Spleen e charutos

junho 10, 2011

Danny Boyle e a educação pela pedra

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 7:11 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O mundo é rumor e barulho

Ao contrário do que consta nos livros da escola, um copo de água gelada não tem nada de insípido. Dois meses sem geladeira – eu e os latidos de uma cachorra doida num apartamento vazio – me ensinaram isso. A privação educa, meus amigos.

Por trás do formalismo ostensivo de Danny Boyle (para o diretor, a estilização parece um pressuposto do exercício cinematográfico), “127 horas”, filme que se encontra em exibição no Cinemark, obra e graça do projeto Cine Cult, transpira uma angústia contemporânea, relacionada ao excesso de oferta que pontua o cotidiano das cidades, que cria a empatia necessária para que o culto da forma não nos absorva completamente. Quando Boyle nos permite respirar entre grafismos e telas tripartidas, a experiência do protagonista pode, finalmente, alcançar a gente.

Um poeta adivinhou. O mundo é rumor e barulho. Para o homem médio, o escuro, o silêncio, é quase um lapso no devaneio coletivo do tudo. Talvez por isso, a relação distanciada que mantemos com a realidade, captada e mediada o tempo inteiro por visores de LCD, nos pareça tão natural. Por isso, também, o filme de Boyle não resultou estéril, como querem os críticos mais cabeçudos. Se em projetos anteriores os maneirismos do diretor sabotam os seus objetivos, em “127 horas” eles refletem com muita propriedade um modus vivendu que transborda e extrapola a narrativa confinada entre as quatro paredes do cinema.

A Sinopse do filme, como sempre, não diz muito. Segundo ela, “127 horas” se resume à história do alpinista Aron Ralston, que teve o seu antebraço direito preso por quase cinco dias sob uma pedra, durante uma escalada em Utah, em maio de 2003. Ralston teve que usar uma faca para amputar o próprio membro e continuar a jornada, até conseguir a ajuda de uma família que lhe deu água e comida. Simples assim.

O material de divulgação não explica, contudo, que tudo demais é sobra. Imobilizado, sem sol, sem comida, sem água, Ralston, senhor de si mesmo, auto-suficiente e independente até o último fio do cabelo, recebe os sopapos da carência. Dói na memória, na carne, nos nervos de nosso herói, que só conhece as delícias da satisfação quando não tem mais nada. Se isso não o impede de continuar vendo o mundo pelas lentes da máquina fotográfica, paciência. A vida anda mesmo frívola como um comercial de Gatorade.

Serviço:

Local: Cinemark Jardins
Data: até 16 de junho
Hora: 14 horas

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1 Comentário »

  1. Cara, assino o Spleen há algum tempo e sempre esqueço de dizer que gosto bastante do jeito que você escreve.

    Mas aí está. hehehe.

    Abraço.

    Comentário por Manoel — junho 11, 2011 @ 4:07 am


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