Spleen e charutos

maio 27, 2011

Elvis Boamorte – Vamos que vamos!

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:46 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Depois da infinidade de shows que já assisti, sempre penso duas vezes antes de despencar para o pico onde a banda mais promissora da ainda incipiente cena sergipana justifica o entusiasmo reiterado nessa página. Nunca me arrependo. Embora conheça o repertório de cor e salteado, as canções da Elvis Boamorte e os Boavidas me surpreendem e emocionam como se estivessem acabando de nascer. Um parto natural, sem choro nem sangue, movido pelo impulso demasiado humano de se expressar. Aparece lá no Capitão Cook, amanhã à noite, quando eles dividem o palco com a NaurÊa e a Banda de Moça Só, e diz se estou exagerando.

Embora a voz do vocalista Elvis Boamorte (sim, o rapaz foi batizado assim mesmo!) nem sempre alcance a galera com a nitidez necessária, quem se coloca diante do palco não reserva qualquer dúvida. Ali no alto, se contorcendo como um doido, está alguém que não possui outra alternativa. A música de Elvis é um relato; nasce da angústia que o impele a se comunicar.

Eu já vi show da Elvis debaixo de chuva, abraçado, solto, embriagado, de cara limpa, sozinho… Em todas as situações, a música dos caras me embala e enleva, deixando claro que tudo é efêmero e dura apenas o instante guardado na intensidade da vivência.

Pegue a canção “Pés pequenos”. Além da introdução magistral que ganha corpo com a sanfona de Big John – tecladista atinado, que emprestou outra sonoridade à banda ao dialogar com as guitarras mais certeiras da cidade, obra e graça do menino bom que atende por Allen Alencar –, a canção transmite com muita propriedade o tanto de confusão implicado na aventura temerária do amor e do desejo. É também nessa canção que fica mais clara uma das maiores virtudes da banda. Na ponte estabelecida entre a novíssima música sergipana e a valorosa tradição representada pela composição do cantor Irmão, a inteligência de músicos jovens (e aqui é preciso lembrar a competência da cozinha formada pelo baixo de Findans e as baquetas de Furiba), cientes de que não se planta nada sobre terra arrasada.

Há pouco mais de um ano, antes mesmo da estréia da banda, eu acompanhei um ensaio e redigi um artigo no qual deixava registrado o contentamento com a reunião daqueles músicos. Na ocasião, escrevi que o clima descontraído observado entre os caras fazia justiça ao trabalho apresentado. Acordes cheios de suingue, nitidamente inspirados pelo que existe de melhor na tradição brasileira, flertavam descaradamente com toda a diversidade de gêneros que pontuam a música contemporânea.

Às ressalvas que sempre me assaltam quando vejo um projeto nascendo – a profissionalização da música local enfrenta obstáculos inumeráveis, a maior parte deles ancorados no peito de nossos próprios músicos – sucedeu a convicção de que tanto talento não vai ser desperdiçado. Do já distante samba-rock, que remete à origem da banda, ao ska, passando por efeitos viajantes para alcançar, no outro extremo, a alegria simplória do axé, Elvis Boamorte e os Boavidas mandam muito bem e provam com harmonias dominadas na unha que, a despeito da juventude ostentada, são músicos seguros, merecedores dos espaços que esperam conquistar.

Arte: Julio Andrade
Balaiada (Diretório: Rian)
Cook abriga a diversidade de gêneros que pontuam a música contemporânea

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