Spleen e charutos

maio 11, 2011

Quando o rock invade o sertão

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:36 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O slogan do festival diz tudo. A partir de hoje, Nossa Senhora da glória se transforma na capital sergipana do rock e abriga a nona edição do maior festival de música do Estado. No palco do Rock Sertão, os maiores valores de nossa música independente, além de bandas ainda pouco conhecidas e convidados de outras paragens – tem até banda gringa na parada! Para celebrar a ousadia, o Jornal do Dia conversou com um dos organizadores do evento, na tentativa temerária de entender como alguém se presta a um trabalho desses. É muito rock na veia e amor no coração!

Jornal do Dia – Antes de mais nada, qual a importância de um festival como o Rock Sertão? Num estado onde existem tão poucos festivais desse porte, é possível vislumbrar um ambiente musical produtivo e satisfatório?

Danilo Santana – O Rock Sertão é importante porque foi o que restou de festivais deste porte no estado. Podemos colocar nesta soma a Rua da Cultura, que também sobreviveu a todos estes anos. Estes dois espaços são as vitrines da música de sergipana independente. Não falo isso com orgulho, mas com uma certa tristeza de achar que dá pra fazer mais. De uns dois anos para cá (eu acho), vejo alguns coletivos se organizando, alguma movimentação, mas falta tempo para maturar. Até porque muita coisa começa e termina e a gente nem percebe. O Rock Sertão e a Rua da Cultura são, em suas especificidades, eventos consolidados dentro e fora do estado, e isso é importante.

Fechando mais na nossa realidade, acho que o Rock Sertão é importante por ser um Festival, ser gratuito e ainda por cima no interior, ou pior, no sertão. E sabemos que boa parte do público se concentra na capital. Ao mesmo tempo, quando somado, o público do interior faz muito volume no festival. O Rock Sertão nasce em Glória, mas já enraizado em outros municípios do estado, o que dá um caráter de unidade da cena sergipana. Isso em termos significativos.

Não gostamos de ser exemplo de nada, porque meio entramos como os “bons moços”. Mas acho que o Rock Sertão pode ser uma boa experiência para o nascimento de outros festivais. Se o espaço não é o ideal, então deve ser criado, reinventado. É preciso ter coragem, agir com os pés no chão e gostar do que faz. Ou então não dá certo. Temos muitas bandas boas no estado. Pra mim, isso já é garantia de uma ambiente musical produtivo e satisfatório. Infelizmente, a verdade é que não temos uma cena tão consolidada como em Recife e João Pessoa, por exemplo. Ainda não há esse feedback do público, principalmente em Aracaju. É um processo lento, estamos desde 2001 na luta, alternamos muitos altos e baixos pra garantir tudo que temos hoje.

Jornal do Dia – Como vocês chegaram às bandas selecionadas pela programação? É possível afirmar que elas reproduzem as feições da música da terrinha, em nosso dias?

Danilo – Abrimos um site especialmente para que as bandas pudessem se cadastrar. Queremos sempre conhecer novas bandas. A surpresa foi o aparecimento bandas de outros estados. Não sabíamos do alcance do Rock Sertão, até então.

Pra selecionar estas bandas, convidamos uma curadoria formada por 6 pessoas, entre jornalistas, músicos, produtores, enfim, pessoas ligadas à cena. Essa curadoria tentou se equilibrar entre os diversos estilos musicais, entre bandas novas e bandas mais conhecias e entre bandas da capital e do interior. Também queríamos evitar que o festival fosse visto como uma “panelinha”, como alguns afirmam. O Rock Sertão é um festival aberto, muitas bandas que vão tocar a gente nem conhece. Nosso compromisso é com a música, com a cena independente. Os nossos critérios para seleção de bandas vislumbra um pouco disso, tentar apresentar um mosaico, um recorte da música produzida no estado dentro de um determinado seguimento, afinal não temos a pretensão de abarcar tudo.

Jornal do Dia – É no mínimo inusitado ver um evento como o Rock Sertão durar tanto tempo, com tantas respostas positivas, longe das capitais. Como vocês venceram as limitações impostas pela geografia? Onde foi que o Rock Sertão acertou, e outros eventos, a exemplo do Punka, só pra citar outro festival que faz parte da história da cena local, errou?

Danilo – Por incrível que pareça, temos a clareza de que o Rock Sertão deu certo por ter nascido em Glória, ou melhor, no interior. Isso chama a atenção e soubemos usar isso a nosso favor. A distância de Aracaju fui suprida com a presença do público e bandas do interior do estado. O Festival começa através de contatos que foram feitos pela Fator RH (banda de Nossa Senhora da Glória, na qual eu e Binho tocamos, e atua como anfitriã do festival). A gente tocou muito pelo interior e isso foi agregando parcerias e contatos que duram até hoje. O Rock Sertão é um esforço coletivo, da gente que organiza, do pessoal que dá apoio e das bandas que tocam. No início, muitas bandas buscavam seu próprio patrocínio pra poder vir tocar, pra garantir pelo menos o transporte. Não é o ideal, mas foi o que aconteceu. Persistimos, principalmente Binho, na busca de apoio para o festival. Não foi fácil. Mas a concepção do festival e a divulgação que fomos alcançando possibilitou novas parcerias.

Quanto ao Punka, fica difícil dizer o que aconteceu. Existem muitas questões internas que fazem com que um festival como esses termine. Isso vai desde
divergências internas a questões financeiras. Não sei se foi o caso deles, não dá para ficar especulando. Só nos resta lamentar.

Jornal do Dia – Além das bandas locais, o festival ofereceu espaço na programação para bandas de outros estados. Qual a importância desse diálogo?

Danilo – Primeiro, é bom para o público, que pode ter contato com bandas de outros estados, principalmente no interior, onde essas bandas não chegam. Levar uma atração internacional para Nossa Senhora da Glória é, no mínimo, uma ousadia nossa. A presença destas bandas acrescenta em muito em termos de divulgação, dá um caráter para além da música sergipana, mas sem perder esta de vista. Faz com que a gente conheça outras realidades. Faz parte da própria dinâmica da música independente, hoje, esse movimento de troca.

Jornal do Dia – Ao longo das nove edições de Rock Sertão, parece que vocês conseguiram sensibilizar os órgãos públicos e a iniciativa privada, que chegaram junto e compraram a idéia. Como vocês conseguiram essa façanha? O empresário sergipano é mesmo burro como todo mundo comenta?

Danilo – Antes de mais nada, acho que é um espaço conquistado, de anos de luta, mas claro que também tem que haver o interesse. O Festival está consolidado. Este ano completamos nove edições. Fazemos “barulho” e isso deve ter chamado a atenção. Pegue o Brasil e veja quantos festivais conseguem viabilizar esse fluxo de bandas da capital pro interior. São pouquíssimos. Se você levar somente os festivais gratuitos em consideração, o número é mais reduzido ainda. O Rock Sertão é feito com seriedade e com um projeto que acreditamos ser bem construído e coerente. Gastamos até o último centavo, tiramos do próprio bolso, como várias vezes foi necessário, tudo para que dê certo. Como disse antes, foi preciso alguma perseverança, antes de conseguir estes apoios. Mas pode ser que um dia não os tenhamos mais e mesmo assim o festival não vai deixar de existir. Tenho certeza disso!

Não sei se a questão é só o empresário sergipano, acho que é uma questão mais profunda. É difícil conseguir alguma coisa na música. A lógica de mercado é perversa! Por trás de uma banda de axé que faz sucesso, quantas outras estão ralando pra conseguir alguma coisa, para sobreviver? O problema não é só do rock, é preciso vencer preconceitos. A música, os festivais não estão fora de uma análise social mais profunda.

Jornal do Dia – Qual a expectativa dos organizadores em relação ao Rock Sertão 2011?

Danilo – Queremos ter um bom retorno do público. Esperamos que o público do se divirta, conheça a música sergipana, a música independente, saiba apreciar a música que não é veiculada na grande mídia. Queremos mais um ano sem briga. Para quem já curte a música independente, fica o convite. Ver diferentes estilos agregados num único festival. A programação está diversificada e tem pra todos os gostos. É pegar a mochila, não esquecer o casaco e ir para Nossa Senhora da Glória, para o Rock Sertão 2011.

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1 Comentário »

  1. Maravilha de entrevista, de atitude em prol da cena independente e exemplo de perseverança, por um ideal. Tenho acompanhado o crescimento deles há um bom tempo, e estou subindo no palco pela quarta vez no festival, com o Ferraro trio (foram duas vezes com a Maria Scombona e uma com a Snooze). Vai ser massa! Vida longa ao Rock Sertão!!!

    Comentário por Rafael Jr. — maio 13, 2011 @ 4:47 am


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