Spleen e charutos

abril 12, 2011

Um compositor entre as incertezas do escriba

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:52 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Disco pra quê? Hoje, com qualquer conexão de merda e um farrapo de paciência, é possível matar a curiosidade guardada em relação ao trabalho de qualquer maluco. Sem porrete, nem porrada, a bichinha passa dessa pra melhor com a naturalidade de uma mosca. Não foi por falta de oportunidade, portanto, que demorei a rabiscar algumas palavras a respeito da aventura solo de Werden. Egresso da banda Os Verdes, o músico reuniu algumas composições num EP desafiador, de assimilação demorada, impondo meses de reflexão até se acomodar entre as incertezas do escriba.

O disco começa muito bem. Um riff com cores de Enio Morrricone, poderoso, daqueles de derreter a cera nos ouvidos. O medo, faixa de abertura, sugere o volume de informações musicais que viria a seguir e ainda protela o encontro com os maiores problemas da música de Werden. Letras francamente imaturas, impostadas em tons incompatíveis com a voz fraca do compositor, que não soube explorar as próprias limitações de maneira a subvertê-las. Da maneira como foram gravadas, algumas canções denunciam intervalos entre as possibilidades e as pretensões. É preciso medir o passo antes de submeter as pernas ao açoite.

Ressalvas realizadas, é imperativo reconhecer, ao mesmo tempo, as virtudes de um trabalho que demonstra intimidade e sintonia com os rumos da produção independente e autoral que vem renovando a música brasileira. Muito bem produzido, o disco possui uma leveza gostosa. Mesmo as faixas mais problemáticas conseguem respirar e nos alcançam num passo calmo, apropriado para quem tem a ciência de algo a oferecer.

Um bom momento, que precisa ser destacado, é proporcionado pela faixa Estranho. Aqui, sem muita firula, Werden manda o recado e contem a voz, colocando-a pra trabalhar a seu favor. A canção possui uma levada envolvente, flertando com o Britpop assumido como influência no material de divulgação do cantor, e mais uma vez oferece pretexto para a execução de um solo de guitarra matador. O exato oposto da constrangedora La, la, la. E mais não é preciso dizer.

Eu penso que os releases dos quais os jornalistas lançam mão no cotidiano apressado das redações revelam mais quando pecam. É o que ocorre no caso de Werden. De acordo com a ferramenta, o músico teria se tornado um artista solo em plena maturidade. Levando em consideração as promessas contidas em seu primeiro EP, espera-se que o texto esteja equivocado. Com um pouco mais de apuro – calos nas pontas dos dedos e sopapos no coração – o compositor pode, sim, chegar a nos apresentar um trabalho mais do que competente. Por hora, suas canções se sustentam exclusivamente nos arranjos inteligentes e na execução impecável dos músicos reunidos no projeto de seu primeiro registro.

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3 Comentários »

  1. Perfeito, Werden me pediu um release na época mas eu acabei não fazendo justamente por não ter assimilado a tempo todos os prós e contras – além do fato de que os elementos ” do contra ” são gritantes e, convenhamos, não cairiam bem num release. Mas há potencial, como você diagnostica com precisão. E o grande destaque é, realmente, a faixa “estranho” – não por acaso foi com ela que o trabalho teve sua estreia no rádio, via programa de rock.

    Comentário por Adelvan — abril 12, 2011 @ 2:53 pm

  2. Eu ainda quero ver como Werden se comporta no palco. Só pretendia escrever depois de conferir uma apresentação, mas depois de duas oportunidades desperdiçadas (uma na Cultiva, outra na Rua da Cultura) percebi o óbvio. Cachaça e preguiça me vencem sempre.

    Comentário por spleencharutos — abril 12, 2011 @ 4:38 pm

  3. Excelente texto, crítico e sensato (me parece), e me deixou afim de ouvir o disco. Saiu em cd-r? Gostaria de tê-lo na minha coleção de música-rock sergipana!

    Comentário por Rafael Jr. — abril 27, 2011 @ 5:17 pm


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