Spleen e charutos

março 20, 2011

Marcílio Medeiros, um poeta sergipano

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:38 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Nenhuma palavra deve sobrar no poema

Recentemente, o nome de Sergipe apareceu em dois prêmios nacionais de poesia pelas mãos do poeta Marcilio Medeiros: Histórias do Trabalho e TOC140.

O primeiro é promovido anualmente pela Prefeitura de Porto Alegre e visa divulgar textos e imagens sobre o mundo do trabalho, incluindo as categorias de histórias verdadeiras, estórias, poesias, monografias e fotografias. Ao invés de estabelecer primeiro, segundo e terceiro lugares, o concurso premiou Marcilio, com o texto Curriculum Vitae, e mais doze poetas.

O livro com o trabalho dos artistas premiados foi lançado no Memorial do Rio Grande do Sul, dentro da programação da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre.

O segundo concurso, promovido pela Festa Literária Internacional de Pernambuco – FLIPORTO, selecionou, em duas eliminatórias, cem poetas que publicaram seus textos pelo Twitter, obedecendo ao limite de 140 toques e o poeta de Sergipe foi um deles. Para escolher os dez melhores, votaram cerca de 1,3 milhão de pessoas.

Vale lembrar que Marcilio Medeiros foi um dos dez selecionados, na categoria poesia, no Prêmio Banese de Literatura, realizado em 2004 e que também virou livro.

Jornal do Dia – Antes de mais nada, qual a importância dos prêmios conquistados pelo poeta Marcílio? Eu acho essa história de premiação meio engraçada. É como se o poeta fosse um atleta, que precisasse se destacar numa espécie de competição para finalmente ganhar mais atenção.

Marcílio Medeiros – No Brasil, alguns poucos prêmios, tem valores pecuniários expressivos. Então, na maioria dos casos, o retorno é mais simbólico. Nesse sentido, essas premiações recentes são importantes, primeiramente, por eu acreditar na proposta que ambas colocam: uma com um enfoque social, que permite refletir sobre o mundo do trabalho, e a outra oferecendo a possibilidade de que seja usada uma nova mídia, o Twitter, para se produzir literatura. Além disso, prêmios literários costumam dar ao escritor algum espaço na mídia, como o que estou tendo neste bate papo com você. O artista precisa de visibilidade. É inerente ao seu ofício.

Em uma sociedade dominada por uma visão economicista e utilitária da vida, todos parecem atletas em competição. O escritor, mesmo que não concorde com isso, está sujeito a essas mesmas pressões.

JD – De que trata o texto Curriculum Vitae, premiado recentemente pela Prefeitura de Porto Alegre?

Marcílio – O poema contrapõe duas dimensões, dois mundos: o das coisas práticas, das obrigações cotidianas, e outro da satisfação e da plenitude do ser. O primeiro está representado pelo trabalho, o acúmulo de experiência profissional e de títulos acadêmicos, tudo o que poderia fazer um currículo destacado, conduzir ao êxito na carreira e, possivelmente, financeiro. Mas a que preço? O contraponto é a doença, a falta de vitalidade, que pode levar à decrepitude física e humana. Para o poeta, cada dia de vida burocrática é um poema subtraído, menos beleza na existência. O poema fala dessas questões com uma boa dose de ironia e se vale, em termos da forma, de recursos sonoros e espaciais (da disposição das palavras no papel) para se constituir.

JD – Saramago tem uma frase maravilhosa, a respeito do Twitter, segundo a qual de degrau em degrau descemos ao grunhido. Quais as maiores virtudes que você vislumbra na ferramenta, e de que maneira elas podem ser úteis à poesia?

Marcílio – Eu gosto de tecnologia, das facilidades que ela pode proporcionar. A tecnologia não nos torna melhores ou piores. Não é o Twitter, por exemplo, que contribui para nos tornar mais monossilábicos, menos expressivos. O ser humano já está assim. Já está hiperconectado nas redes sociais e alheio às relações profundas de afetividade e ao comprometimento consciente nas questões da coletividade.

O Twitter tem algo em comum com a poesia: a concisão. Ezra Pound chamou a atenção para o fato de a poesia ser a forma mais condensada de expressão verbal, onde a língua atinge níveis mais elevados de expressividade por força dessa tensão de dizer mais com menos. Nenhuma palavra deve sobrar no poema. O Twitter, pela limitação que a própria ferramenta impõe, não nos deixa esquecer que a poesia é linguagem condensada, mas carregada de significado.

JD – Em sua opinião, o poder público local presta a devida atenção a seus intelectuais? Você se sente amparado para se dedicar ao trabalho aqui em Sergipe?

Marcílio – Não, mas essa lacuna é nacional. Não há políticas públicas plenamente institucionalizadas para a literatura. As ações são isoladas, pontuais. As discussões que existem, nesse sentido, giram muito em torno do livro, o livro como produto, a indústria editorial. Como pensar no livro sem considerar os escritores e os leitores, ou seja, quem produz e consome, as duas pontas da ‘cadeia criativa’ da literatura? A literatura, mais que qualquer outra expressão artística, vem sofrendo, diretamente, o impacto do empobrecimento intelectual gradativo da população brasileira, uma vez que ela depende da capacidade leitora da população. Essa capacidade vem sendo negligenciada, ao longo de décadas, pela educação brasileira.

As políticas públicas na área devem considerar todos os elos dessa cadeia. Precisamos, por exemplo, criar iniciativas duradouras para que os escritores possam exercer a criação literária. Aprofundar essa discussão e construir iniciativas sólidas para a área é o grande desafio que temos pela frente.

JD – Entre os autores locais, quem você recomendaria para um leitor cuja curiosidade estivesse voltada para as cores da terrinha? Literatura tem naturalidade?

Marcílio – Dos nomes importantes da tradição literária de Sergipe, destaco Tobias Barreto, Silvio Romero e João Ribeiro. Entre os autores contemporâneos, Francisco Dantas e Antonio Carlos Viana, na prosa, e Araripe Coutinho, Mario Jorge e Maria Lucia dal Farra – paulista que vive e produz aqui -, na poesia.

JD – É possível mencionar uma poética marciliana? Existem traços gerais que orientam a sua poesia?

Marcílio – Existem alguns aspectos recorrentes na minha poesia. Como princípio básico, tento criar uma poesia em que nada esteja colocado por acaso, isto é, na qual cada palavra ocupe seu lugar exato e singular no poema, o que exige um trabalho racional sobre a emoção e intencionalidade na construção poética.

Deste modo, há uma grande preocupação formal no sentido de fazer poemas em que a língua seja explorada no máximo grau de possibilidade de criação estética e capacidade polissêmica. Exploro também aspectos sonoros e rítmicos, tais como assonâncias, aliterações e rimas internas, o que permite ressaltar certa musicalidade, mas com efeitos menos artificiais que a rima e a metrificação tradicionais. Embora com menos freqüência, uso a distribuição espacial do texto na página como recurso estilístico. Por fim, escrevo uma poesia que exige uma participação ativa do leitor na construção de sentidos, o que implica fugir da obviedade e da linguagem referencial, denotativa.

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1 Comentário »

  1. Olá, peço que divulguem.

    Concurso Nacional de Poesias
    1º Concurso Nacional Novos Poetas
    Prêmio Augusto dos Anjos
    Inscrições Gratuitas
    Até 12 de Julho
    Pelo site:
    http://www.concursonovospoetas.com.br
    Realização Videira Editora

    Obrigado
    Isaac Almeida

    Comentário por Isaac Almeida — junho 24, 2011 @ 6:21 pm


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