Spleen e charutos

março 9, 2011

Pra tudo se acabar na quarta-feira

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:03 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Tristeza não tem fim. Felicidade, sim*

Quem teve a idéia do Carnaval estava mancomunado com a natureza, o criador, o impulso misterioso a que muitos se dirigem na hora do aperto, em forma de prece. Durante alguns dias por ano, Ele fecha os olhos para descansar e se priva da convivência com a gente. Nessas ocasiões, como temem as mães ao fechar a porta atrás de si, a caminho do trabalho, os ratos tomam conta da casa.

O Carnaval não passa de uma suspensão. Quem se dispõe a brincar nesses dias não quer saber de mais nada. Aqui, no Rasgadinho, em Salvador ou Olinda a intenção é a mesma. Folião é menino. Amanhã é outro dia, sempre muito distante.

Tristeza não tem fim – O Rasgadinho é o maior bloco de rua de Aracaju. Esse ano, seus organizadores tinham a pretensão de arrastar 100 mil foliões por dia de farra. Pra quem estava lá, entretanto, o número não faz a menor diferença. Importava celebrar a carne, antes que o mundo se acabasse, antes que ressaca e melancolia nos assaltassem na quarta-feira de cinzas.

Só quem já pulou de alegria, uma alegria gratuita, quase um espasmo dos músculos, conhece o gosto arenoso, movediço mesmo, de tal sentimento. Dias seguidos de euforia não resultam apenas em cansaço. Os nervos em festa, incitados sem descanso, acabam fatalmente num suspiro lânguido, de quem não agüenta mais. Sem tal delírio, o carnaval seria apenas um rastro de confetes e serpentinas abandonados sem razão aparente.

Enquanto Moraes Moreira, Naurêa, Spok Frevo, e mais uma caralhada de gente boa atacava de frevos e marchinhas, em cima do trio, puxando a galera, ou no palco Coração da Cidade, um bloco diverso – sem rosto, orientação, nem raça – pulava abraçado, irmanado pela satisfação.

Em cada lata de cerveja, em todo passo, até no tropeço, a saudade antecipada. Era um tal de lambe-lambe, um chupa-chupa, um beija-beija… e nenhum pecado. Deus mantinha os olhos fechados.

Sabe aquela canção de Tom e Vinícius, gravada por Tom Zé no magistral “Estudando o Samba”? Não existe tradução mais adequada para o desalento que sucede cinco dias de Rasgadinho. Tristeza não tem fim. Felicidade, eu sinto na pele, sim.

*Fotos: Marcos Rodrigues/ASN

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