Spleen e charutos

fevereiro 28, 2011

Baggios e Café Pequeno conquistam Arpub

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:25 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

The Baggios toca fogo na aldeia, bem debaixo do nosso nariz*

Eu lembro como se fosse hoje. Um entre os seis amigos que tive a sorte de conquistar ao longo da vida resolveu batizar a filha em São Cristóvão. Não me restava nada a fazer, portanto, além de engolir preguiça e asfalto para chegar à cidade histórica, bem a tempo de perder a missa e entornar cerveja até a festa acabar.

O jornalista Diego Oliveira, nosso anfitrião, estava às voltas com as filmagens do documentário Baggio Sedado e fez questão de me apresentar a Julico, músico que se inspirou na história do outsider mais popular da terrinha para dar vazão à energia guardada nos nervos. Nervos exasperados pelo horizonte tacanho de um cotidiano sem perspectivas, é bom que se diga entre dois parênteses. Julico pegou um violão vagabundo, um Kashima com seis cordas enferrujadas, e tirou tanto sentimento daquele pedaço de madeira que ficou fácil adivinhar. Com o queixo caído, profetizei no ouvido de minha esposa. A Baggios iria dar o que falar…

Dito e feito. Depois da crônica inspirada pelo primeiro EP da banda (se não me engano, referência até então inédita nos anais de nossa imprensa), eu voltaria a redigir diversas resenhas, matérias e artigos motivados pelas conquistas da Baggios. Nesse meio tempo, amparado pela segurança de Perninha (definitivamente, o cara certo para compor o duo de guitarra e bateria), que assumiu as baquetas da banda depois de algumas formações, Julico amealhou um patrimônio afetivo impressionante, até ser coroado Rei do Blues nos subterrâneos de Aracaju.

Mas o Capitão Cook, convenhamos, não é lá muito longe. Depois de passar o rodo no underground local, a Baggios vem ensaiando vôos mais altos. Turnês e apresentações em outros estados, em diferentes regiões do país, já não são novidade para os caras. Nenhuma conquista, entretanto, tem significado tão expressivo quanto a que lhes aguardava na curva inevitável de uma determinada esquina. Na última sexta-feira, The Baggios e o terceto instrumental Café Pequeno foram consagrados como os grandes vencedores da segunda edição da etapa nacional do Festival das Rádios Públicas do Brasil (Arpub).

Não custa lembrar que, ano passado, Patrícia Polayne realizou a mesma façanha. A sucessão de vitórias acumuladas por nossos músicos é sintomática e justifica a atenção reiterada todos os dias por essa página, assustando os incautos que enchem a boca para mencionar os medalhões do mercado fonográfico ao mesmo tempo em que ignoram a revolução que ocorre bem debaixo do nosso nariz.

Impossível negar. As “bandinhas” sobre as quais eu escrevo estão mostrando serviço, impressionando muita gente que vive de intermediar a relação entre público e artistas, a exemplo de críticos musicais e produtores responsáveis pelos maiores festivais do país. A excelente música instrumental do Café Pequeno, a MPB modernosa de Polayne e o rock garageiro da Baggios são apenas os estampidos mais altos a nos avisar da sublevação.

É mais ou menos o que afirma Indira Amaral, presidente da Fundação Aperipê, responsável pela etapa sergipana do Festival da Arpub, no blog do jornalista Adolfo Sá. “Somos o menor estado do país. Orgulho por vencermos um muro imposto por um mercado míope e colonizado. Mas também pelo que significa aqui, em nossas fronteiras. Fomos acostumados a achar que bom é o que vem de fora, e isso não se sustenta mais.”

*Foto: Snapic e Marcelo Hora

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7 Comentários »

  1. perguntar não ofende (assim espero): Rola alguma grana nesse premio ou é só simbólico mesmo ?

    Comentário por Adelvan — março 1, 2011 @ 8:27 pm

  2. Rola, sim, e é uma graninha boa! Quinze pilas, se não me engano…

    Comentário por spleencharutos — março 1, 2011 @ 8:35 pm

  3. Então, até onde estou sabendo sobre o prêmio em dinheiro ainda não foi definido.
    Até onde sei iremos para Brasilia receber um trofeu.

    Comentário por Julio Andrade — março 1, 2011 @ 10:41 pm

  4. Massa. Porque de “valor simbólico” acho que os artistas “alternativos” já estão cheios, né …

    Comentário por Adelvan — março 1, 2011 @ 11:21 pm

  5. Eu ACHO queli em algum lugar a respeito dos quinze pilas. PROVAVELMENTE, no site da própria Arpub.

    Comentário por spleencharutos — março 1, 2011 @ 11:31 pm

  6. eu li no Blog de Adolfo, Viva la Brasa, sobre os 15 pilas.

    Comentário por Adelvan — março 2, 2011 @ 12:04 am

  7. Reconhecimento nacional e maior divulgação do trabalho é uma maravilha, mas com 15 pilas fica melhor ainda! Cabras que merecem muito mais!

    Comentário por Rafael Jr. — março 4, 2011 @ 4:01 am


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