Spleen e charutos

fevereiro 22, 2011

Reação – Na força da palavra e da fé

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:32 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Homenagens póstumas carregam, invariavelmente, um odor desagradável, como se as paredes do túmulo emprestassem um travo amargo à memória. Quando elas ganham forma em letra de imprensa, entretanto, atestam a fragilidade de uma instituição que se orgulha de sua função social, mas a negligencia diariamente. Não me atrevo a estudar a natureza da irresponsabilidade que afastou a banda Reação de nossos cadernos culturais (recordo uma única matéria digna de registro, assinada por Nino Karva, publicada há um bom par de anos em um semanário local). Lamento, no entanto, que tenha protelado a redação dessas linhas até o assalto criminoso de uma tragédia.

Eu recebi a notícia por telefone, mas o susto impediu a compreensão do fato. Como assim, mataram o guitarrista da Reação? Quem disse isso? Ao longo do domingo, entre uma cerveja e outra, sentado às mesas (uma verdadeira procissão, até as últimas horas da madrugada), o fantasma assombrava a conversa e se materializava nos silêncios que alternavam comentários abatidos. Como assim, mataram o guitarrista da Reação?

No dia seguinte, além de uma ressaca completamente previsível, a confirmação em dois parágrafos de um portal de notícias. Dois parágrafos, cerca de quinhentos caracteres, que mancharam um trabalho carregado de verdade sob o enunciando impassível de uma manchete policial – Assassinado a facadas por um traficante.

E pensar que eu perdi o show mais recente da banda, encerrando a programação do Projeto Verão na Rua da Cultura, vencido pela preguiça…

Na força da fé – O único registro oficial da Reação, lançado em meados de 2004, não faz justiça à reunião ecumênica de suas apresentações (todo mundo gosta da banda). O disco é uma pedrada de 13 faixas que não realiza qualquer concessão. Reggae Roots, versando sobre a importância da fé num cotidiano pontuado por carências de todas as ordens, realidade que os seus músicos conhecem muito bem.

A música da Reação é militante. Moziah não canta, ele manda recado. O respeito e a devoção pela força da palavra ficam evidentes em cada verso proferido, em cada refrão. Não é fácil viver essa vida, mas o reggae da Reação extrai da luta das comunidades negras, dos obstáculos da pobreza e do embate diário entre as sombras do crime e a brutalidade cega da lei a força necessária para enfrentar os percalços do desamparo.

Há pouco mais de um ano, pautado pela Agência Voz para divulgar a primeira edição do Zumbi Vive, no único contato que mantive com os integrantes da banda, Moziah e o baixista Ras Lau admitiram a consciência da peleja, mas se negaram ao papel de vítimas heróicas, normalmente atribuído aos que possuem a coragem de levantar a voz para anunciar alguma verdade.

Segundo eles, a banda só ganhou corpo porque ainda existe muita gente sufocada. Se fosse pra colocar a galera pra pular (e a Reação se comunica com o público como nenhuma outra banda), eles garantem que ficariam de bico fechado. Nem um pio.

*Foto: Lízia Martins

Anúncios

4 Comentários »

  1. Bela (e justa) homenagem. Eu sou mais um dos que não são aficcionados por reggae mas curtem a Reação. Os caras compõem muito bem, e transmitem uma verdade contagiante em suas perfomances.

    Comentário por Adelvan — fevereiro 23, 2011 @ 5:53 pm

  2. Sou outro admirador da banda, já cheguei a me emocionar de verdade em um show da banda. Os caras são muito simples e gente boníssima, ótimos comunicadores e músicos admiráveis. Salve Reação!

    Comentário por Rafael Jr. — março 4, 2011 @ 3:49 am

  3. reação é a banda que grita o que a sufoca, faz pedidos de socorros constantes. Para eles e para os que representam. Nem sempre é fácil acreditar na contradição entre força artística e vulnerabilidade social que vivem… na verdade, a questão não é nem de crença, é de deglutição. Difícil entender quando não se vive, e só supõe como é tal realidade. A periferia vive no limite. E André, infelizmente, foi conduzido ao outro lado. Tristeza e medo pelos que ficam.

    Comentário por Ludmila — março 12, 2011 @ 3:45 pm

  4. Muita positividade e luz aos que ficam, sou muito fã de voces, tenho 59 anos e a jornalista tem toda razão, todo mundo gosta da banda, particulamente disse a meu filho que levou para minha casa que estes jovem tinha que ser conhecido em todo todo o brasil e me sentia muito orgulhoso de ser Sergipano.

    Comentário por david — maio 17, 2011 @ 2:19 am


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: