Spleen e charutos

fevereiro 15, 2011

Um presente para Marina

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:56 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Marina é o nome de minha única sobrinha. Não se sabe de onde ela veio, mas a criança mais bonita que eu já vi chegou com os olhos apertados e uma curiosidade de quem anseia aprender tudo. Eu, que não conheço nada, além dos sustos que bombeiam o sangue em meu coração, peguei o projeto de gente no colo e lembrei que minha infância não teria a mesma graça sem os discos do Balão Mágico. O que as crianças insistem em fazer nesse mundo?

Nunca imaginei que diria isso tão cedo, mas os tempos são outros. Os discos voltados para o público infantil disponíveis no mercado prezam um didatismo imbecil, que lobotomiza o cérebro da gurizada sob o pretexto de ensinar que o azul não é vermelho. Pensando nisso, eu já tinha varrido a rede à procura dos meus primeiros LPs quando, convidado para integrar a curadoria da Arena Multicultural do Verão Sergipe, me deparei com o disco Maria Anita, primeiro registro do conjunto A Casa do Zé.

Movido pelo senso de oportunidade que somente jornalistas e gatunos apuram no exercício da profissão, surrupiei o disquinho sob os protestos de Dudu Prudente, que na qualidade de coordenador da banca ficou preocupado com as palavras que usaria para justificar o sumiço. Como esse artigo demonstra, entretanto, às vezes o gesto mais desprezível possui uma motivação nobre. Marina, minha sobrinha, agradece.

Maria Anita – A primeira coisa que chama atenção em Maria Anita é o projeto gráfico cuidadoso, que parece corroborar com as minhas angústias de tio e remete a uma espécie de nostalgia, evocada pelo encarte colorido, de apelo irresistível, sobretudo para as crianças acostumadas a jogar bola de gude no tapete da sala. Brinquedo de verdade é pipa, peão, boneca de pano e balão. Pena que pouca gente ainda se lembre disso.

O repertório da banda, formado quase que exclusivamente por canções populares, oferece o pretexto necessário para que os músicos Ítalo José (voz), João Ricardo Trindade (violão), Emerson Olivier (contrabaixo), Marcelo Ribeiro (bandolim) e Igor Côrtes (gaita e flauta transversal), além dos percussionistas Almeida Júnior, Brisa e Papi, reafirmem a intenção documental do projeto (aqui adivinhada), que apela para a memória afetiva dos mais velhos enquanto se encarrega de apresentar um universo de inocência, que parece ter sido banido para os cafundós de Judas, aos desavisados.

Diversas participações especiais – Henrique Teles, Rafael Jr, Sena, Ton Toy, Armandinho Macedo e Luiz Caldas, que assina uma das canções, entre outros – pontuam as 11 faixas de Maria Anita, atestando o respaldo conquistado pelo trabalho entre os músicos locais, além da relevância de um projeto que tinha tudo para resvalar na chatice, mas se sustenta na competência de instrumentistas calejados e arranjos capazes de renovar clássicos da estirpe de Andar com Fé, do baiano Gilberto Gil.

Outra canção consagrada que ganha um tratamento especial, apoiado na simplicidade e beleza inerentes à composição, é Bola de Meia, da dupla Milton Nascimento e Fernando Brant, mas o disco ainda traz muitas surpresas.

Eu poderia me perder descrevendo as virtudes de cada uma das faixas, mas esse artigo não se propõe a tanto. Basta lembrar o que já foi dito. Maria Anita é um presente para a minha sobrinha, colocada a salvo de um mundo bruto, que não parece disposto a um mísero pingo de fantasia, por obra e graça da Casa do Zé. Marina, mais uma vez, agradece.

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5 Comentários »

  1. Foi um grande prazer gravar e tocar ao vivo com esse grupo, e meus filhos sempre estão presentes nos shows!
    Recomendo a todos esse belo CD! Bela análise, Rian!

    Comentário por Rafael Jr. — fevereiro 16, 2011 @ 1:23 am

  2. Parabéns pelo texto. Belíssimo. Li hoje cedo no JD e não via a hora de entrar aqui para comentar.
    Quanto a Casa do Zé, sou apaixonada por eles. Um dos mais belos trabalhos que já vi por aqui. Músicos excelentes, repertório muito bem escolhido, arranjos perfeitos. Da vontade de entrar e não sair mais dessa Casa.

    Comentário por Aline Aragão — fevereiro 16, 2011 @ 3:02 pm

  3. Rian,

    Agradecemos o carinho e as palavras que nos incentivam a continuar trabalhando.
    As crianças (de todas aas idades) merecem nosso carinho e respeito.

    Super abraço e esperamos você no próximo Show.

    Ítalo e de todos que fazem A CASA DO ZÉ.

    Comentário por Ítalo José — fevereiro 17, 2011 @ 11:40 am

  4. A alma linda desse grupo nos faz acreditar na vida.
    Com a Casa do Zé Marina irá brincar de viver.

    Comentário por Laudice Rocha — fevereiro 17, 2011 @ 12:31 pm

  5. Tá mais que justo e justificado, Rian, hehe.
    abração

    Comentário por Dudu — fevereiro 21, 2011 @ 11:14 am


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