Spleen e charutos

janeiro 11, 2011

Uma artista de joelhos diante de Deus

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:05 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Com os pés no chão e a cabeça nas estrelas, Amorosa promete seguir em frente

Na próxima quinta-feira, a partir das 17 horas, a cantora e escritora Antonia Amorosa autografa Matheus em Cordel, quarto livro de uma lavoura que começou a dar frutos há exatos 26 anos, quando uma filha de Itabaiana começou a correr o mundo com o propósito de colocar a música sergipana no ouvido do povo. De lá pra cá, muita água correu por baixo da ponte, e a geração que encontrou abrigo na potência de uma voz cobiçada pelos maiores compositores em atividade na terrinha assistiu a ascensão e a queda de seus principais valores. Razões para explicar o ostracismo de alguns nomes, existem diversas, a maioria conflitante. Mas a sessão de autógrafos que a Livraria Escariz do Shopping Jardins abriga esta semana ofereceu a oportunidade necessária para que pelo menos uma versão dessa história chegasse até a gente.

Jornal do Dia – O nome de Amorosa está marcado em alto relevo na história da Cultura sergipana. Podemos afirmar, sem qualquer exagero, que você encarna um verdadeiro patrimônio, acumulado em quase três décadas de dedicação à música da terrinha. A recente empreitada no terreno da literatura pode ser entendida, portanto, como uma verdadeira aventura. Até que ponto esse impulso manifesta, contudo, alguma espécie de desilusão com o nosso cenário musical? Em outras palavras, existe alguma espécie de desencanto a explicar o seu recente envolvimento com a palavra escrita?

Amorosa – Escrevo cartas para Deus em meu diário desde os 10 anos. Lancei meu primeiro livro, Vôo Rasante, com mais de 450 pensamentos, aos 21, quando ganhava dois salários mínimos para cantar quatro vezes por semana durante quatro horas na Taberna do Tropeiro. O livro foi escrito numa mesa de bar. Eu queria ser cantora, mas não queria “aprender” a ser fumante e alcoólatra. A escrita me livrou destes caminhos.

A literatura sempre esteve presente em minha vida, desde a infância, e os livros começaram a nascer no mesmo ano em que comecei a cantar em Aracaju. Só que a literatura, a exemplo do que ocorre em outros estados, não é vista como prioridade em Sergipe. Só não contavam com um detalhe: além de cantora e escritora, nasci na serra, tenho asas de águia, olho de pantera, garras de leão, força de um cavalo, e o espírito de luta de uma simples lavadeira.

JD – Os leitores que acompanham as suas aparições como colaboradora da imprensa local (notadamente, aqui no Jornal do Dia) foram surpreendidos por uma Amorosa apaixonada, que defende seu ponto de vista com um fervor religioso e faz do exercício da escrita uma profissão de fé. Em seu trabalho como cantora, no entanto, essa paixão estava subordinada à poesia dos compositores, que possuíam, como no caso do saudoso Ismar Barreto, uma visão mundana da beleza. Existe alguma contradição entre esses dois momentos de sua trajetória como artista?

Amorosa – O segredo do amor que Jesus nos ensina é a ausência do preconceito. Cantei o côco da capsulana, uma das músicas sergipanas mais conhecidas dos sergipanos, popularizei a obra de vários compositores locais, dei minha contribuição a muitos trabalhos, mas “há tempo para tudo debaixo do céu e da terra”. No dia em que resolvi prestar um pouco mais de atenção a um Homem chamado Jesus, meu olhar mudou.

Eu mesma me considero um ser do mundo, que ama as pessoas do mundo, mas tenho a cabeça nas estrelas. Por esta razão, não credito mérito algum, em relação ao que escrevo, a mim mesmo, mas a Deus. É Ele quem me inspira, e usa meus dedos porque escrevo por amor e para dar minha contribuição a minha geração. Apenas para isto. Não sou santa e nem profana, mas admito: tenho muitos pecados para eliminar. Por isso, ando de joelhos diante de Deus.

JD – As reuniões do Fórum de Música Sergipe, do qual você faz parte, têm revelado as chagas que incomodam o segmento, reunido na esperança de encontrar remédio pra tanta ferida. Uma das mais lamentáveis, contudo, diz respeito a um conflito de gerações que coloca a molecada e a velha guarda em lados opostos da trincheira. Não seria interessante, para a cadeia produtiva da música local, atar as pontas desse círculo, superando as desavenças?

Amorosa – Não admiro e nem respeito nenhum artista que não respeita aqueles que os antecederam. Muita coisa que é feita nos dias de hoje, salvo poucas exceções, foram feitas na década de 80.

Sou de uma geração em que o artista sergipano realizava shows em todo o Estado, e era em torno de 100 shows por ano. Eu lhe pergunto: qual artista local, com exceção da Calcinha Preta (que não se conta nesta conta) que tem conseguido realizar pelo menos 50 shows por ano em nossa própria terra? Quais as músicas sergipanas que são conhecidas em todo o Estado de Sergipe, de uma ponta a outra, cantada na boca do povo?

Creio que o conflito está no reconhecimento da identidade musical, que deveria estar em harmonia com a linguagem cultural do povo sergipano. O artista precisa conhecer o seu povo para se autodenominar representante deles.

JD – Falando em FMS, você acredita que ele pode contribuir de maneira positiva na elaboração de políticas públicas voltadas para o setor?

Amorosa – Acredito, e esta é uma das razões que me fazem continuar lutando e fazendo minha parte, junto com os colegas do Fórum. No entanto, o grande impasse da organização de classe não está pautada nas idéias dos projetos a serem encaminhados, mas na cirurgia dos egos que precisam ser destruídos. Este continua sendo o calcanhar de Aquiles da organização da classe musical no Estado de Sergipe. Todos têm razão, cada um está certo, mas ninguém consegue apontar o verdadeiro caminho. E por quê? Porque o caminho de um pode não ser o caminho do outro. Neste ponto, deveria entrar o respeito ao caminho de todos. Espero que isto mude o quanto antes porque já estamos atrasados na dinâmica da reserva de mercado local, imagine em qualquer outra.

JD – A cultura popular e a religiosidade são dois traços muito marcantes do povo nordestino, presentes em seu livro. De que maneira a sua formação foi influenciada por essas manifestações?

Amorosa – Um dia me disseram que Deus era o dono do mundo. Eu tinha 6 anos. Saí de casa sozinha, sem minha mãe saber, atravessei duas praças e cheguei a Igreja Santo Antônio em Itabaiana porque eu queria conhecer o Dono do Mundo. Ao chegar, vi um homem pendurado em uma cruz e perguntei a uma senhora quem era ele. “É o Filho de Deus”, foi a resposta. Com minha mentalidade de criança, pensei: “se fizeram isso com Ele, o que vão fazer comigo?”. Nunca mais me separei de Deus, mas sempre ando com um pé atrás com o povo deste mundo. São meus irmãos, mas sei do que são capazes.

JD – Já existem projetos para outros livros? Quando a gente vai ter oportunidade de ver Amorosa no palco, novamente?

Amorosa – Você dará um furo de reportagem com esta resposta. Musiquei 85 poemas de uma das maiores escritoras do Brasil. O responsável pelos direitos autorais da mesma, ao ouvir as melodias enviou um email dizendo, “se precisar de uma carta do nosso Instituto lhe daremos para qualquer lugar do Brasil. O que você fez está simplesmente maravilhoso!”.

Diria a você que se trata de algo novo, tanto no aspecto melódico quanto textual. Quando me despedi do forró, Deus viu meu desprendimento e me concedeu esta benção. Ainda este ano será gravado este CD. Para você ter uma idéia, Zeca Baleiro musicou 10 poemas dela em dois anos, e eu musiquei 85 em menos de duas horas. Eu lhe pergunto: qual compositor faria isto se ele não tivesse um Deus em sua vida? Quanto à autora destes poemas, aguardem. A informação será revelada no tempo certo.

Foto: Fillipe Araújo/Arquivo Infonet

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3 Comentários »

  1. Ela já revelou quando citou o Zeca Baleiro. A escritora em questão é Hilda Hist.

    Agora, musicar 85 poemas em duas horas? Vamos ver se vai prestar, né?

    No mais, essa visão romântica de Amorosa, do artista como alguém iluminado, que escreve sob uma espécie de possessão divina, realmente não me agrada!

    Comentário por Wedmo — janeiro 11, 2011 @ 11:57 am

  2. Pois a mim agrada… Aprendi com Jorge Amado e Caetano Veloso a ser ateu e ver milagres. Todavia, respeito muito a opinião do comentarista (que acredito que seja meu primo) e defendo de maneira contumaz seu direito de expressá-la.

    Comentário por Igor Mangueira — janeiro 11, 2011 @ 6:28 pm

  3. Eu acredito mais no suor do que na “inspiração”, mas é claro que ela existe. Porém 85 poemas musicados em duas horas é um negócio fora do normal, preciso ouvir isso, até porque gosto bastante de Hilda Hist e respeito muito o trabalho de Amorosa como intérprete (não conheço o lado compositora).

    Comentário por Rafael Jr. — fevereiro 9, 2011 @ 11:26 pm


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