Spleen e charutos

janeiro 4, 2011

Tron e o resgate da vulgaridade na Sétima Arte

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:28 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Como encher uma sala de cinema enfrentando a concorrência desleal da pirataria? O desafio que tirava o sono dos exibidores já não assusta executivos ocupados com a vastidão de suas reservas. A indústria que parecia exaurida, indisposta com as possibilidades que conquistaram a simpatia do teórico italiano Ricciotto Canudo (que em 1911 redigiu o Manifesto das Sete Artes), invocou Santa Tecnologia e varreu a poeira pra debaixo do tapete, garantindo a sobrevida de um modelo de produção que teima em ignorar o necessário questionamento de suas verdades. Até que a novidade tenha fatigado a gurizada, anunciando outra crise, o 3D vai garantir o descanso milionário dessa gente.

Um dos testemunhos mais esclarecedores a respeito da natureza vulgar do Cinema pode ser encontrado nas memórias de Jean-Paul Sartre. No clássico “As Palavras”, o escritor registra a impressão corrente a respeito do passatempo, então considerado uma distração para desocupados. A citação é longa, mas além de precisa, muito saborosa.

“Os burgueses do século passado jamais esqueceram sua primeira noite no teatro, e seu escritores se incumbiram de relatar as circunstâncias. Quando a cortina se abriu, as crianças acreditaram estar na corte. O ouro e a púrpura, as luzes, os uniformes, a ênfase e os artifícios punham o sagrado até no crime; em cena, viram ressuscitar a nobreza que seus avós haviam assassinado. Nos entreatos, o escalonamento das galerias oferecia-lhes a imagem da sociedade; mostrava-lhes, nos camarotes, espáduas nuas e nobres em carne e osso. Eles voltaram às suas casas, estupefatos, amolentados, insidiosamente preparados a destinos cerimoniosos, a tornarem-se Jules Frave, Jules Ferry, Jules Grévy. Desafio meus contemporâneos a citar a data de seu primeiro encontro com o cinema. Entramos às cegas em um século sem tradições que havia de sobressair sobre os outros por seus maus modos, e a nova arte, a arte plebéia, prefigurava nossa barbárie. Nascida em um covil de ladrões, incluída por portaria administrativa entre os divertimentos de feira, apresentava costumes popularescos que escandalizavam as pessoas sérias; era a diversão das mulheres e das crianças; nós a adorávamos, minha mãe e eu, mas quase não pensávamos nela e nunca falávamos dela: fala-se do pão, se este não falta? Quando nos demos conta de sua existência, havia muito que se tornara nossa principal necessidade”.

O legado – Corta para os nossos dias. Críticos comprometidos com os parâmetros estéticos que podem orientar a realização de um filme torcem o nariz para a projeção em três dimensões. Eisenstein, Godard e Hitchcock não precisavam disso, eles argumentam. Utilizando a mesma lógica, contudo, ainda estaríamos dando risada à custa dos tropeços e caretas de Chaplin. O cinema é vulgar desde o berço. Ele é divertido, ao menos em parte, justamente por isso.

Quem ainda não conhece a projeção 3D tem excelente oportunidade de tomar partido. Demorou um bocado, mas o Cinemark finalmente atendeu aos apelos do mercado local e, já faz alguns meses, equipou uma sala no Riomar com a tecnologia. O filme em cartaz se presta como poucos a essa discussão.

De acordo com a sinopse de “Tron – O legado”, Sam Flynn, jovem herdeiro de um gigante da computação, procura por informações que o levem até seu pai, Kevin Flynn. Quando Sam menos espera, contudo, ele se vê dentro do mesmo mundo de ferozes programas e jogos de gladiadores em que seu pai tem vivido há 25 anos. Juntos, pai e filho embarcam em uma aventura de vida ou morte ambientada num mundo cibernético deslumbrante que se tornou muito mais avançado do que o mundo real, embora também seja extremamente perigoso.

O filme está inteiro nas palavras acima. Não há o que tirar nem por. Os defeitos identificados depois da projeção não dizem respeito ao 3D, mas a escolhas infelizes do diretor estreante Joseph Kosinsk, cuja experiência restrita se limitava a um punhado de curtas e comerciais. A tecnologia (usada com muita parcimônia, diga-se de passagem) não salva o filme, mas deixa a tarefa de alcançar os créditos finais muito menos penosa.

Trocando em miúdos, para quem não sabe ler: Se o Cinema sofre uma crise criativa (e a atual produção argentina oferece as ferramentas para sepultar a sentença), a tecnologia 3D não tem nada com isso.

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