Spleen e charutos

dezembro 31, 2010

Alex Sant’anna cheio de gás

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 8:33 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Os primeiros acordes do recém-lançado “Cansado” (2010) não deixam dúvida. Alex Sant’anna arregimentou um núcleo de músicos bastante coeso, competente o bastante para moldar o barro de sua poesia com uma assinatura distintiva, que pode ser reconhecida no tratamento orgânico dispensado aos diferentes projetos apoiados em suas canções. Ocorre que depois da rápida digressão circense – perfeitamente adaptável ao repertório da Banda dos Corações Partidos, por exemplo –, a voz áspera do compositor reclama nossa atenção e revela o seu maior trunfo. Alex tem o que dizer pra gente.

Em terra de cego quem tem olho é rei. Pode perguntar à molecada responsável pela nova feição da música produzida aqui na terrinha quanto tempo ela gasta para acabar rimando amor com dor. Notáveis, as exceções confirmam a regra. Infelizmente, a maior parte de nossos músicos mais jovens não atribui importância significativa ao que enuncia e concentra energia na força com que expulsa o ar dos pulmões.

Está certo que não é todo dia que nasce um Bob Dylan, mas um pouco de pretensão não faz mal a ninguém. Alex não apenas toma cuidado com o que lhe sai da boca (foi o que admitiu, certa vez, num desses encontros proporcionados pelas biritas da vida), como encontrou na força da palavra um recurso indispensável à criação.

No início era o verbo – Nas seis faixas do EP, nenhuma novidade. A maior parte das músicas já é conhecida do público cativo que, de uma maneira ou de outra, deu um jeito de encurtar o longo hiato que se interpôs entre esse registro e a última aventura do compositor.

Lá se vão quatro anos, desde o inspirado debut que recebeu o sugestivo batizado de “Aplausos mudos, vaias amplificadas” (2006). As premissas que orientam o trabalho de Alex, contudo, permanecem intactas. Melodias simples, sustentadas por frases curtas que partem de um vocabulário ordinário para conciliar as intenções do verbo com a poética do compositor.

Formada por músicos de primeira grandeza, a banda do cabra sobra. Em que pese a maturidade inquestionável de Alemão (baixo), Aragão (cavaquinho e bandolim) e Abraão Gonzaga (guitarra), é preciso destacar, ainda, a atuação de Léo Airplane. Além de assinar a produção do disco, o músico executa nada menos do que bateria, samples, melotron e, sobretudo, os teclados.

Teclados no plural! Embora sirvam às canções de maneira devotada, eles pontuam o disco com progressões oportunas e imprimem a personalidade de Airplane no trabalho, conferindo uma atmosfera especial a cada uma das faixas. “Aprendendo a mentir” está lá, na qualidade de bônus, para mostrar aos incrédulos que até mesmo o formato decantado no alto do morro pode ser conjugado aos chiados espaciais que fazem a alegria dos moderninhos.

Entre as participações afetivas, indispensáveis a um trabalho querido por tanta gente, Pedro Yuri (Elisa), Jamesson Santana (Alapada) e o guitarrista Allen Alencar (Elvis Boamorte e os Boavidas), além do festejado Wado, que dá o ar da graça em “Engolindo Sapo”.

“Cansado” é Alex Sant’anna cheio de gás, atualizando um método de pedra, sem frescura, que se serve do inesgotável embate entre o eu lírico e o inferno dos outros para alcançar a todos nós.

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