Spleen e charutos

novembro 30, 2010

Lembranças embrulhadas com jornal

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:37 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Todo ano, quando os comerciantes de Aracaju penduram os adereços reluzentes que convidam o consumidor a colocar a mão na carteira, peço licença ao jornalista Elenilton Pereira e dou um descanso ao leitor do Jornal do Dia. Não tem nada a ver com a melancolia que alguns experimentam logo que avistam um Papai Noel de vermelho desbotado dobrando a esquina. Simplesmente calhou de ser assim.

A essa altura do campeonato, revirar a lixeira em busca das folhas subtraídas ao calendário, uma jornada pelas lembranças embrulhadas em papel jornal, pode render algumas surpresas. Longe de mim, portanto, a pretensão de uma retrospectiva em sentido restrito, atenta aos fatos que, objetivamente, encontraram o respaldo do humor coletivo. Como de hábito, o investimento afetivo que orientou a redação de tantas digressões (pão do escriba) se comporta como um cavalo desgovernado. Os dedos batucam o teclado. Vejamos aonde vão nos levar.

Não somos bons só porque somos sergipanos (Janeiro 01, 2010) – No primeiro dia de janeiro, o cantor e compositor Deilson Pessoa prometeu realizar o lançamento de seu segundo trabalho nos meses seguintes. O disco está quase finalizado, mas lançamento pra valer só mesmo no ano que vem. A julgar pelas canções à disposição no Myspace do cabra, contudo, a gente não perde por esperar. Se no primeiro disco uma ambição radiofônica conteve as experiências registradas em “Súbito E-Feito”, parece que agora o bicho vai pegar.

Cabedal: a grande surpresa do Verão Sergipe 2010 (Fevereiro 08, 2010) – Meia dúzia de gatos pingados, quinhentas pessoas e não mais do que isso, acompanharam aquela que talvez tenha sido a melhor apresentação do Projeto Verão 2010. Em pouco mais de uma hora, os caras provaram o que qualquer conhecedor da cena está cansado de saber. A Cabedal é a maior promessa da música sergipana em nossos dias. Com um empurrãozinho, aquela ajuda que não custa nada a ninguém, responsabilidade das esferas da administração pública criadas com o intuito de desenvolver o potencial cultural do lugar, os meninos chegam longe, podem apostar.

Fábio Sampaio coloca Caju na Rua (Março 21, 2010) – Não é qualquer artista que desafia a solidão das paredes e vence os limites das galerias. Desde que começou a militar em Aracaju, no entanto, o artista plástico Fábio Sampaio vem afirmando com muito trabalho que o seu lugar de direito é o meio da rua. Primeiro, foram as intervenções urbanas do Interacidade, reunidas em um catálogo que conta com fotografias de Marcio Garcez e texto de apresentação de Antonio da Cruz. Depois, deveriam ter sido as esculturas do projeto Caju na Rua, que a Prefeitura Municipal de Aracaju reluta em trazer à luz, apesar das reiteradas promessas do prefeito Edvaldo Nogueira.

Financiado pelo erário, o projeto foi formatado no início de março. Até agora, no entanto, as esculturas que deveriam reafirmar a identidade sergipana por meio do olhar de nossos artistas permanecem trancadas num galpão da Emsurb.

Maria Scombona no olho do furacão (Maio 06, 2010) – A Maria Scombona podia se dar ao luxo do comodismo, ceder ao conforto preguiçoso de um latifúndio cercado há muito, e viver do enorme prestígio que carrega no fundo dos bolsos, fiada no carinho alimentado por suas canções. Merecedora dos aplausos que sempre acompanham o quarteto, a banda resolveu fazer ainda mais pela nossa cena e bolou o Maria Convida, integrando os principais personagens desse universo sob os melhores pretextos do mundo – a música e a celebração.

Renantique se apresenta em Festival Internacional (Junho 08, 2010) – O conjunto de música antiga Renantique talvez seja o exemplo mais bem acabado de perseverança na seara da música em Sergipe. São doze anos de muita pesquisa dedicados a um gênero sem qualquer apelo mercadológico, apostando na educação de um público ainda incipiente, na esperança de que a beleza da música cativasse nossos corações. Felizmente, o trabalho foi recompensado. Nos últimos anos, o conjunto vem conquistando novos adeptos para seu público seleto, como demonstra um especial veiculado pela TV Aperipê, e se prepara para registrar seu trabalho num disco.

Ferraro Trio lança DVD no Lourival Baptista (Julho 13, 2010) – Como o batismo da criança deixa claro logo à primeira vista, O DVD “Ferraro Trio – Ao vivo no Verão Sergipe 2010” foi gravado durante apresentação no Palco Multicultural do evento promovido no início do ano pela Secretaria de Estado da Cultura. É imperativo lembrar que, na ocasião, nós demos voz aos pretendentes preteridos pela Secult, insatisfeitos com os critérios elencados para a ocupação do espaço. A presença de nomes pouco afeitos à labuta no underground nosso de todo dia, além do carinho dispensado a supostos privilegiados, chamou a atenção de muita gente. A preocupação era que músicos ocasionais, conhecidos por encher o bolso às custas do erário e depois sair de fininho, suplantassem os objetivos do edital, destinado a fomentar a cena.

Se fato semelhante ocorreu, os instrumentistas do Ferraro não têm nada com isso. A maior parte do cachê recebido pela apresentação foi investida na gravação do DVD, dando exemplo da mobilização necessária para que as engrenagens de nossa cadeia cultural funcionem a contento.

Toda a sorte do mundo para os Baggios (Julho 19, 2010) – Quando os moleques da banda The Baggios realizaram o lançamento do single “O azar me consome”, eu dei um saque no disquinho. O assombro é garantido. A julgar pelo que ouvi, os meninos podem deitar a cabeça no travesseiro sem qualquer apreensão. Eles merecem o sono dos justos. Formado por três canções que ficaram de fora do primeiro disco cheio da banda (que deve ser lançado no início do ano que vem), “O azar me consome” é, paradoxalmente, o registro mais apurado da Baggios, e também o que traduz de maneira mais visceral a energia da banda.

Curta-SE comemora dez anos de ousadia (Setembro 09, 2010) – Quando nasceu, há exatos dez anos, o Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe (Curta-SE) alimentava a pretensão de inserir o menor estado da federação no mapa do audiovisual brasileiro. Hoje, com o olhar educado pela perspectiva, é fácil perceber que Rosângela Rocha, à frente da empreitada, não se intimidou diante do desafio. A reflexão e o fomento da produção local, preocupações originais do Festival, permanecem intactas. As pegadas desenhadas ao longo do caminho, no entanto, prestam testemunho de uma conquista ainda mais importante. Em dez anos de atividades, o Curta-SE cristalizou as principais angústias do audiovisual, como uma fotografia, no lapso do momento.

Os Mamutes lançam single no Cook (Setembro 22, 2010) – Um rock de verdade deve causar o mesmo efeito dos cafés amargos. Quando a madrugada atropela os seus filhos insones, o hálito de cerveja e cigarro impregnando o pensamento, um riff bem executado nos ajuda a despertar e organizar as idéias. É essa energia redentora que encontramos no single que os Mamutes lançaram aquela semana. Hard-Rock, Proto-Punk e ecos setentistas, reconciliando os tropeços noturnos com a enfadonha claridade cotidiana.

Alvorada da nova música sergipana (Setembro 28, 2010) – Quem ainda não percebeu os indícios de claridade no horizonte da música sergipana tem excelente oportunidade de apreciar o espetáculo nas 13 canções reunidas no primeiro disco da Nantes, batizado com o sugestivo nome de “Alvorada”. O projeto é ambicioso, não foi concebido para animar multidões. A satisfação guardada nas composições de Arthur Matos é de uma natureza um pouco mais reservada, que pretende o deleite antes da alegria. Com “Alvorada”, a Nantes reivindica nosso deslumbramento.

The Baggios e Café Pequeno conquistam Festival (Outubro 26, 2010) – Mais tarde, Julico confessaria que subiu no palco do Lourival Baptista de cara limpa, sem uma gota de álcool no sangue. Ao contrário do hábito adotado nas madrugadas do Capitão Cook, quando o guitarrista da Baggios acorda os demônios de suas canções com os eflúvios amargos do Pisa Macio, a performance furiosa que surpreendeu jurados e acordou a platéia do Teatro foi embalada exclusivamente pelo veneno guardado no coração blueseiro do cabra. Depois de tamanha explosão de energia, o resultado não poderia ser diferente. Ao lado do quarteto instrumental Café Pequeno, a banda The Baggios foi consagrada como a grande vencedora do Festival Aperipê de Música.

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5 Comentários »

  1. Muito massa esse registro.
    Retrospectiva! uhu!

    Comentário por Julio Andrade — novembro 30, 2010 @ 3:13 pm

  2. Me dá esse jornal da foto aqui que eu quero ver melhor!

    Comentário por D Pessoa — dezembro 2, 2010 @ 9:33 am

  3. E as galinhas do vizinho sumindo…

    Comentário por spleencharutos — dezembro 2, 2010 @ 2:37 pm

  4. Bom retrospecto, mas acho que faltou citar a massiva participação de sergipanos na Feira Música Brasil em Belo Horizonte/MG. Além de Patrícia Polayne e Ferraro Trio no palco, cerca de 20 sergipanos nos bastidores da cadeia produtiva da música, se informando, divulgando seus trabalhos, fazendo contatos, etc…
    Bom 2011 pra esse blog e pra coluna!!!

    Comentário por Rafael Jr. — dezembro 22, 2010 @ 3:38 pm

  5. A vantagem do blog é que vocês também podem dar pitaco! hehe

    Comentário por spleencharutos — dezembro 24, 2010 @ 12:58 pm


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