Spleen e charutos

novembro 4, 2010

Os tabaréus do Sítio Saracura

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:25 am

Rian Santos
Riansantos@jornaldodiase.com.br

O mundo inteiro entre a Terra Vermelha e as Flechas de ItabaianaLer, comentar, divulgar, recomendar. Os imperativos redigidos de próprio punho, com a caligrafia torta das urgências, na primeira página do livro “Os tabaréus do Sítio Saracura” não deixam dúvida a respeito do jornalista que Antonio Francisco de Jesus foi. A gentileza do volume confiado tinha um preço, aliás muito justo. Este escriba deveria arranjar tempo entre os seus afazeres cotidianos para dedicar dois minutos de atenção ao pedaço de terra resgatado pela memória do autor. A mim, a ignorância nunca impediu nada. Pedi licença a Norman Mailer, coloquei sua “Marcha sobre o Pentágono” de lado, e comecei a passear pelas reminiscências do tabaréu/escritor.

Em matéria de mulher e literatura, melhor evitar muita comparação. A prosa monumental de Chico Dantas é tão merecedora do aconchego de uma biblioteca bem organizada quanto os tropeços embriagados de Newman Sucupira. Dotado da honestidade intelectual que costuma evitar os debates políticos, qualquer trabalho, independente de pretensões e estilo, tem o direito de pleitear a concentração do leitor com a mesma naturalidade que as pernas torneadas da moça seqüestram nossa visão.

Os escritos de Antônio Saracura, no entanto, vão um pouco adiante e colocam a salvo, nem que seja na poeira de uma estante, um jeito de ser muito sergipano, tristemente ameaçado por um desinteresse generalizado para o qual contribuem os apelos de uma classe média entorpecida pelo conforto da própria burrice, além de uma educação mesquinha, que reduz os impulsos de nossa juventude à rebeldia sem propósito que acaba em briga no estacionamento do Shopping Center. No palmo de mundo onde Antonio Saracura cresceu, a começar pela presença da enxada no lugar da escola, as coisas eram bem diferentes.

Pouco importa investigar onde os aspectos históricos e biográficos do livro cedem pasto à fantasia. A verdade fundamental por trás da família criada nos povoados perdidos nas brenhas de Itabaiana, esteio da narrativa, diz respeito à descoberta do tabaréu disfarçado nos modos civilizados do próprio leitor. Nas palavras do escritor, o trabalho fala a todo roceiro, todo saquarema e mandioqueiro escondido na cortesia daqueles que “criaram filhos como se nunca tivessem comido a terra mãe, esquecendo as raízes rústicas, apagando seus rastros”.

Antonio Saracura toma o caminho inverso e recorre às distâncias cobertas de barro invocadas pela voz mansa de sua mãe, Dona Florita, nascida nos anos idos de 1920, para tatear a própria infância. Como todos os grandes, no entanto, acaba fazendo mais. Antonio Saracura coloca o mundo inteiro entre a Terra Vermelha e as Flechas de Itabaiana.

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1 Comentário »

  1. Li também. Maravilhoso. Apesar de não ser sergipano, sou de outro sítio Saracura no interior do Ceará, me senti revivendo minha própria infância. Só mudam os nomes…

    Comentário por Ramiro Pereira — novembro 24, 2010 @ 11:44 pm


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