Spleen e charutos

outubro 19, 2010

‘Suor, sangue e raça’ da música brasileira

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:46 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Música de preto, pra ninguém botar defeito

O papel exercido por um jornalista especializado em Cultura (com C maiúsculo, por favor!) nunca esteve tão vulnerável, à mercê do julgamento alheio, como em nossos dias. Antigamente, quando o objeto de seu trabalho permanecia apartado do leitor, circunscrito ao alcance de meia dúzia de gatos pingados, bastava ao escriba formular uma tese, temperá-la com alguma graça e servir o produto de suas reflexões em letra de imprensa. Hoje, ao contrário, a experiência da fruição musical, por exemplo, está à disposição de qualquer um. Pretensos especialistas podem ser contestados por qualquer diletante curioso o suficiente para vencer a preguiça e realizar um download. É preciso, portanto, uma dose generosa de cuidado e a ciência de que as peças do jogo estão dispostas de maneira diferente. Para conquistar alguma credibilidade, o jornalista deve se esmerar na arte de separar o joio do trigo, distribuindo suas impressões de maneira original, atento à resposta provocada por elas.

Por outro lado, no entanto, hoje é mais fácil ignorar os imperativos da agenda que subordina os cadernos culturais e realizar uma recomendação extemporânea, propondo um exercício meditativo que nos obriga a resgatar capítulos esquecidos de nossa história. Normalmente, o esforço oferece recompensa à altura. É como se o jornalista questionasse o seu conhecimento a respeito das origens da música negra no Brasil, só para lembrar que no distante ano de 1971, um disco gravado pelo pianista Dom Salvador e o Grupo Abolição reuniu os elementos da cultura Black exportados pela indústria fonográfica do Tio Sam, moendo a bagaça da cana a sua própria maneira.

Som, sangue e raça – O disco é seminal, não há como se negar ao adjetivo. A gente se enche de alegria, sorvendo a mistura de influências que tomou conta da música local com o trabalho de bandas como a Cabedal e a Elvis Boamorte e os Boavidas, e esquece que eles são herdeiros de verdadeiros desbravadores, que a exemplo do sagrado Tim Maia desbundaram pré-conceitos e roeram a corda sem medo.

Tárik de Souza, que dispensa qualquer apresentação, defende que foi a ousadia do pianista Dom Salvador que permitiu a ascensão dos personagens do Beco das Garrafas, quando liderou o Copa Trio ao lado do baixista Gusmão e do batera Dom Um Romão. “O grupo serviria de suporte para as decolagens de Elis Regina e Jorge Ben (antes do Jor), entre outros”.

A verdade, no entanto, é que além de gigantesco (eram oito integrantes), o Grupo Abolição contava com músicos de primeira linha, a exemplo do saxofonista Oberdã Magalhães e do baterista Luis Carlos, que no futuro fundariam a cultuada Black in Rio.

Na fervura do caldo, um bocado de jazz, bossa nova, samba e rhythm & blues. Tem gente que chama de Samba-Jazz, há quem diga que o nome mais adequado para o resultado – originalíssimo! – responde por Samba-Soul, mas isso não importa. No fim das contas, o rótulo não diz muita coisa. É música de preto, pra ninguém botar defeito.

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1 Comentário »

  1. Tenho esse aê, originalzão!

    Comentário por Rafael Jr. — novembro 12, 2010 @ 5:15 pm


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