Spleen e charutos

outubro 5, 2010

Um tiro no escuro e muita paixão

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 7:25 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Para Etinger é tudo preto no branco


Arte é uma coisa complicada. Um tiro no escuro e muita paixão. Quando convidei Gabriela Etinger para dividir suas impressões a respeito do próprio trabalho, não imaginava a profundidade do buraco em que estava me metendo.

Nossa conversa foi motivada pela individual XiloAnime, que a galeria do SESC Centro abriga nos próximos dias. Eu tenho a impressão, contudo, de que a entrevista foi um pouco mais longe.

Pode ser delírio, devaneio, um capricho da imaginação. Desenhadas com a tranqüilidade dos que enxergam muito claramente, as palavras da moça esbanjam segurança e realçam um contraste magnífico. Para Etinger é tudo preto no branco.

Jornal do Dia – Demorou um bocado, mas parece que os artistas locais finalmente se libertaram do peso da tradição representada pelas escolas clássicas e começaram a realizar experiências mais ousadas. Como você observa o universo artístico sergipano de nossos dias?

Gabi Etinger – Poucas pessoas buscam o diferente, mas a coisa está começando a mudar. É o que sinto. Me considero fruto desse momento, em que estão ocorrendo tantos intercâmbios de artistas e curadores de outros estados, através de eventos realizados pela Funarte.

Tem uma galera experimentando há muito tempo. Pelo que vejo, é a galera que ousa até hoje. A coisa ainda está caminhando. Eu diria que falta mais união, mas sou suspeita, porque eu mesma não tenho tempo. É difícil correr atrás de dinheiro, produzir, cuidar da casa e conseguir bater um papo com o pessoal. Muito difícil, mesmo.

Políticas públicas ainda fazem falta. Faltam editais, licitações, acordos com empresas, algo que estimule o pessoal e facilite o trabalho do artista, porque fica complicado pensar uma exposição sem apoio. Falta uma instituição de arte de peso. Temos tantos prédios antigos abandonados! Tudo bem que teremos o instituto Banese, mas poderíamos ter muito mais.

A galera mais ousada é minha fonte de inspiração. Preferia não citar nomes, para não esquecer ninguém, mas preciso nominar pelo menos um, especial, o meu mestre Elias Santos, artista contemporâneo que apresentou esse universo para mim.

Arte, para mim, é uma coisa complicada porque envolve gostos e preferências pessoais. É tudo muito relativo, mas para o artista plástico, que se dane! É a expressão dele e ponto! Quem quiser que goste. Mas aí complica, porque artista também precisa comer, pagar conta… E se não consegue vender… É algo complicado, um tiro no escuro e muita paixão.

O público é outro fator complicado. O número de pessoas que freqüenta as exposições é reduzido. Penso que é porque ficamos muito fechados em galerias. Acho que a arte deveria ir mais para a rua. Eu até peco dizendo isso, porque até agora só expus em espaços fechados, mas acho que a arte pode distrair as pessoas através de intervenções, colocá-las pra refletir sobre algo ou simplesmente distraí-las mesmo, afastá-las um pouco do stress do dia-a-dia. Uma pessoa que admiro, falando em intervenção, é Fábio Sampaio, muito legal. Ainda vou fazer projetos do tipo.

Fechando, arte é para apaixonados. Não é fácil. O universo artístico sergipano produziu frutos identificados com a linguagem contemporânea que já estão gerando sementes, o que aconteceu comigo e Elias. Estamos caminhando. O futuro falará mais sobre isso.

JD – É possível afirmar que seu trabalho é dotado de uma dose de apelo pop? Eu tenho a impressão que você procura nos elementos da cultura de massa a vitalidade de que qualquer trabalho necessita…

GE – Elementos da cultura de massa são legais por conta da identificação das pessoas, mas no caso da minha produção, especificamente na exposição Xiloanime, não procurei usar os animes com intuito de apelo. Eu realmente gosto desse universo e senti vontade de experimentar alguma coisa com os seus elementos. Gostei muito do resultado, daí resolvi compartilhar com vocês, é isso.

A Xiloanime tem o intuito de apresentar a xilogravura para o pessoal que curte o anime, e o anime para os que curtem xilogravura. Para quem não curte nem um dos dois, apresento ambos. É um momento de conhecer três formas de expressão originadas no oriente (fato que chamou minha atenção e também me estimulou a fazer essa contraposição) e, quem sabe, se identificar com elas.

JD – Em que medida o trabalho com o design gráfico orienta suas experiências plásticas? É possível determinar a fronteira onde a artista Etinger começa e a designer termina?

GE – O design gráfico me auxilia em processos mais técnicos. Ele me oferece o conhecimento necessário para manipular os materiais de impressão e softwares que utilizo em alguns trabalhos, como no caso das plotagens que apresentei na exposição Tramas (2010).

Com certeza, dá para determinar essa fronteira. No design existe o limite do cliente. Nas artes plásticas há liberdade, o artista se entende somente com sua expressão. Vejo o design como algo que é feito para alguém (de fora para dentro) e a arte como algo feito para você (sua expressão, de dentro para fora).

JD – Como nasceu essa tara pela Xilogravura?

GE – Nasceu em 2007, no projeto Gravura de Inverno. Conheci a xilo e me encantei pelo processo, que envolve força e concentração (algo bem oriental). Eu considero o emprego da força um verdadeiro descarrego! No momento em que se talha a madeira com as goivas e na hora da impressão manual (com a colher de pau), você deve ter o máximo de cuidado para não perder a cópia que está fazendo. Com qualquer descuido, o papel “samba” e sua impressão já era. Por fim, tem a surpresa do resultado da impressão.

Sempre é uma surpresa, porque você fica talhando a madeira, imaginando o que pretende, e quando imprime a gravura ela pode sair como você pensou ou até melhor, ou pior, daí você limpa a matriz e talha mais um pouco até chegar ao resultado esperado.

Percebeu? É isso que me encanta na xilogravura: o processo, o resultado. Adoro o contraste branco e preto. Outra coisa que sinto de vontade de expressar sobre xilo diz respeito à impressão. Existe a prensa, que facilitaria bastante essa parte do processo, porém não gosto muito dela porque acho que a máquina tira um pouco da identidade do artista. Acho interessante a história que a impressão manual, com colher de pau e força nos braços, proporciona. Tem a cópia que sai extremamente legal, aquela que não lhe agrada tanto, aquela que foi derrubada pela gata justamente no momento em que você ia imprimir a matriz. Nenhuma prensa pode proporcionar a satisfação desse processo.

JD – Pra terminar lhe oferecendo a oportunidade de declarar o que vier na cabeça, o que o trabalho de Etinger comunica?

GE – Eu diria que sentimentos através de linhas e traços, o confuso dia-a-dia, as relações, tudo colocado em uma forma de coração, vida pulsante. Muitas das minhas xilos apresentam a forma de um coração com “tentáculos-óvulos”, que simboliza a origem, através do feminino que proporciona a vida, vida contemporânea, imersa em tramas, relações, pai, mãe, mulher, filho, emprego, curso, TV, corre-corre, telefone, outro curso, outro trabalho… Me aflige a vida que vivemos. Sinto isso na pele, 24 horas está pouco… Enfim, explodo tudo isso em minhas tramas da xilogravura.

Mas, agora para arejar um pouquinho, apresento animes em xilogravura. Adorei o efeito da xilo impressa sobre as folhas de mangá, gostei tanto que depois da Xiloanime vou desenvolver trabalhos de vários outros animes (o máximo que puder) e formar uma série.

O trabalho de Etinger comunica gritos de angústia e de alegria, depende do dia.

Gabi Etinger expõe XiloAnime

Local: SESC Centro
Data: 07 de outubro
Hora: 19 horas

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