Spleen e charutos

setembro 13, 2010

Otto se apresenta na abertura do Curta-SE

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:42 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Simplista como obriga a natureza da ferramenta, o release da apresentação que o pernambucano Otto realiza amanhã, na abertura do Curta-SE, certamente o aponta como herdeiro passivo das experiências propostas pelo mangue beat. Ocorre que muita água já correu por baixo dessa ponte. Se é verdade que o movimento encabeçado pela figura carismática do saudoso Chico Science lançou as premissas que definem a música produzida no Recife de nossos dias – obrigando a indústria fonográfica do sul maravilha a levantar a bunda gorda para transpirar sob o calor nordestino –, também é necessário contextualizar o trabalho mais recente de Otto dentro da própria discografia. A empresa exige fôlego, oferece riscos, mas promete recompensa à altura. Afinal, quem aprecia o conforto plácido da superfície conta com oferta generosa nos espasmos do Twitter.

Acolhido como um dos lançamentos mais importantes do ano passado, “Certa manhã acordei de sonhos intranqüilos” é tão bem acabado que ilumina os melhores momentos de uma obra irregular, reunida em discos distintos, que não se confundem mas permanecem fadados ao diálogo, como irmãos legítimos que são.

O DNA do percussionista que trabalhou nas aclamadas Nação Zumbi e Mundo Livre SA está sempre presente. Assim como na estréia, quando Otto lançou o festejado “Samba pra Burro” (1999), “Condom Black” (2001) é um disco de batuques encantados com a programação das batidas eletrônicas. Um disco complicado, de nascimento prematuro, em que o experimento adquire uma importância exagerada, em comparação com o cuidado dispensado às harmonias e melodias – em última instância, a essência das canções.

“Pelo engarrafamento” está lá, contudo, anunciando o compositor adormecido que daria a cara a tapa na faixa “Por que”. A primeira é um rockzim de estrutura básica. A segunda, uma balada. Isso pode depor contra o ouvido do escriba, que sem nenhuma razão aparente imita Narciso e condena à feiúra o que não é espelho. “Cuba” e “Retratista”, além de “Dias de Janeiro”, no entanto, me reconciliam com os moderninhos e celebram o casamento da ousadia com a canção.

O casamento parece ter dado rumo ao compositor. “Sem gravidade” (2003), lançado em seguida, alcança certo equilíbrio entre a insistência percussiva, canções dignas da alcunha e os ruídos eletrônicos que pontuam o trabalho de Otto. Orgânico, o disco conta com a participação infeliz de Alessandra Negrini, que apesar da inconveniência merece nosso perdão. Foi o fim do relacionamento atribulado que a atriz mantinha com Otto que o inspirou no ápice de sua carreira. “Certa manhã acordei de sonhos intranqüilos”, o seu melhor trabalho (para muitos, o único digno de nota), acabou entendido como um registro especial, dolorido e bem sucedido como poucos.

Sonhos intranqüilos – A dor de um compositor não poderia ser mais contemporânea. Se eu fosse obrigado a apontar um único disco, guardião de tendências, agulha voltada para o norte, não pensaria duas vezes. Além de contar com os músicos mais importantes da atual geração (Fernando Catatau, Kassin e Pupilo não metem o dedo em qualquer buraco), “Certa manhã…” invoca a inteligência que prolifera nos subterrâneos musicais da cena brasileira e, aos poucos, começa a determinar os rumos do nosso maior produto de exportação.

Otto nunca teve tanto a nos dizer. Mesmo as composições de terceiros ganham aqui um tratamento autoral, que presta um testemunho cristalino de suas angústias. Uma atmosfera de densidade inédita perpassa as dez faixas do disco, como uma anágua enlutada que revela mais do que preserva.

Macumba, batucada, guitarras espaciais, timbres envenenados… Tudo o que Otto já havia feito, valendo. A impressão que esse apanhado de composições sustenta é que Otto sangrou para finalmente dar sentido a um trabalho que parecia perdido entre batidas eletrônicas e referências aleatórias. Parece que o sal das lágrimas guardava a liga de que seu trabalho carecia. Que no futuro ele não precise apanhar tanto para nos oferecer a verdade que nutre uma canção.

Abertura Oficial do Curta-SE

Local: Teatro Tobias Barreto
Data: 14 de setembro
Hora: A partir das 19 horas

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