Spleen e charutos

setembro 9, 2010

Curta-SE comemora dez anos de ousadia

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:17 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quando nasceu, há exatos dez anos, o Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe (Curta-SE) alimentava a pretensão de inserir o menor estado da federação no mapa do audiovisual brasileiro. Hoje, com o olhar educado pela perspectiva, é fácil perceber que Rosângela Rocha, à frente da empreitada, não se intimidou diante do desafio. A reflexão e o fomento da produção local, preocupações originais do Festival, permanecem intactas. As pegadas desenhadas ao longo do caminho, no entanto, prestam testemunho de uma conquista ainda mais importante. Em dez anos de atividades, o Curta-SE cristalizou as principais angústias do audiovisual, como uma fotografia, no lapso do momento.

Este ano, por exemplo, o tema do Festival se apropria de uma canção presente no repertório da cantora Patrícia Polayne para questionar o uso adequado da tecnologia. Para Rosângela, que fez a gentileza de ceder alguns minutos de seu tempo para ser interpelada por este escriba, não basta reivindicar uma “Lente de Contato”. É preciso ter ciência de que suas dimensões devem obediência à realidade de cada projeto. Ela se confessa seduzida pela exuberância das produções realizadas em 3D, mas argumenta que isso não serve pra todo mundo.

“Essa discussão a respeito do cinema digital, a tecnologia 3D, essa coisa toda, estão muito presentes no nosso cotidiano. A gente precisa perceber, contudo, como essas lentes refletem nossa realidade e até onde queremos chegar com tudo isso. Qual é, afinal, o tamanho da lente que a gente precisa?”.

Cria do Cineclube Fantomas, a percepção forjada no contato com o cinema dos grandes, Rosângela defende a criação de uma política pública voltada para o setor. Segundo ela, as dificuldades enfrentadas anualmente pelo Curta-SE são um reflexo da ausência de organização da classe, que permanece em berço esplêndido, adormecida. Não por acaso, o vocábulo “continuidade” foi articulado com uma insistência desconcertante durante nossa conversa, como se as conquistas acumuladas durante uma década inteira de trabalho estivessem sujeitas ao humor do governante de plantão.

“Sem editais de fomento à produção, sem uma política pública que garanta o investimento na formação e a realização de filmes, ficaremos dependentes de esforços e talentos individuais. Um cenário como o de Recife, que se transformou num verdadeiro pólo do cinema nacional, não se constrói da noite para o dia. Agora mesmo, aqui do lado, na Bahia, o governo estadual lançou um edital para a realização de filmes. Sem isso, sem uma ação continuada, não há como fazer nada no campo do audiovisual”.

Enquanto os homens lá de cima não acolhem o investimento em Cultura como uma prioridade, reduzindo as ações nesse campo ao calendário de praxe, a gente vai ter que se contentar com a determinação de Rosângela Rocha, que admite a necessidade de expandir as ações do Festival e da Casa Curta-SE, mas é obrigada a administrar suas aspirações num espaço claustrofóbico, aprisionada entre o muito que gostaria de fazer e o pouquinho que pode. Pra nossa sorte, a moça dá seus pulos.

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1 Comentário »

  1. parabéns p/ a rosângela pelos 10 anos do festival que colocou segipe no mapa do audiovisual

    Comentário por adolfo — setembro 11, 2010 @ 7:17 pm


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