Spleen e charutos

agosto 3, 2010

As diversas facetas da Cia Cobras e Lagartos

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 8:06 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Fôlego novo para a produção teatral do estado

Embora ainda careça de uma atenção maior das grandes platéias, o nosso teatro vai muito bem, obrigado. Solta, sem cordão para amarrar tanto otimismo, a afirmação dá a impressão de flertar com a imprudência. Quando inserida em determinado contexto, no entanto, levando em consideração a grande movimentação dos grupos locais, ansiosos para recompensar a ousadia necessária para pisar num palco com o aplauso, teremos uma noção aproximada do compromisso de nossos atores com o próprio trabalho.

Os mais céticos podem protestar o quanto quiserem, mas é aconselhável que antes de saírem esperneando dispensem dois minutos de atenção ao festival que o pessoal da Cia Cobras e Lagartos promove nos próximos dias.

A iniciativa é corajosa. A partir de amanhã, as cidades de Lagarto, Estância e Aracaju abrigam o I Festival de Cenas Curtas do Teatro Sergipano (Facetas). Nos primeiros dias de festival, os municípios do interior abrigam a modalidade não competitiva da mostra. Já nos dias 12, 13 e 14 de agosto, o Teatro Lourival Baptista acolhe a encenação de mais de 20 cenas, e assiste a premiação dos primeiros colocados, além do encerramento do festival.

De acordo com Ivilmar Gonçalves, diretor da Cia Cobras e Lagartos, o I Facetas promete surpreender os incautos com o alto nível do teatro produzido em Sergipe.

Jornal do Dia – Pelo que entendi, o I Facetas pretende dar uma agitada no cenário teatral sergipano. Em que pé se encontra nossa produção teatral? O que é necessário pra que essa produção encontre uma platéia mais expressiva?

Ivilmar Gonçalves – Acompanho a cena desde 2003, quando fundamos o Cobras e Lagartos. De lá, participei – e participo – de um longo processo de maturação da produção teatral em nosso estado. Os grupos se encontram mais consistentes e o mercado ensaia uma abertura mais tolerante. Isso também é resultado da retomada do Ministério da Cultura, nos últimos anos, e os avanços das políticas públicas culturais e seus editais de financiamento. Mas ainda nos falta identidade, reconhecimento próprio. Sergipe não reconhece Sergipe. Nosso teatro ainda balbucia quando o assunto é identidade.

JD – Qual o papel da Cia Cobras e Lagartos nesse cenário? É possível mencionar a existência de teatro profissional em Sergipe, ou a experiência do Imbuaça é uma exceção?

Ivilmar – Nós representamos, junto com outros grupos, o teatro feito fora da capital sergipana. Um teatro ainda instintivo, mas com argumentos suficientes para compor um cenário mais equilibrado. Garantimos fôlego novo para a produção do estado. Não há disputa entre o interior e a capital. Não temos tempo pra isso. Fazemos parte do mesmo conceito: Teatro Sergipano. O Imbuaça – talvez o maior símbolo do nosso teatro – é exemplo seguido de perto por outros grupos de semelhante importância, como O Oxente, a Stultifera Navis e a Cia Estanciana de Artes Cênicas.

JD – Se a gente pegar a pauta do Tobias Barreto nos últimos meses, observaremos que a programação da maior casa de espetáculos do Estado foi dominada por comédias rasteiras, trazidas de fora, com a presença de algum rostinho famoso no elenco. Aquilo é teatro de verdade, ou pura bobagem? Existe alguma dificuldade de acesso à pauta do Teatro, ou os grupos locais não possuem expectativa de atrair público suficiente para justificar a ocupação do espaço?

Ivilmar – Esse é um assunto polêmico. Conheço o brilho hipnótoco que envolve o TTB, mas para o Cobras e Lagartos, que trabalha com espaços alternativos, esse Teatro não é interessante. Acredito que não há má vontade de seu gestor, mas pequenos equívicos de informação. O TTB é um alto investimento contínuo do estado e muitas vezes parece distante dos grupos locais, com toda sua pompa. As produções de fora, com atores televisivos, ficam mais a vontade naquele espaço, confirmando ainda o provincianismo do público sergipano. Por outro lado, poucos são os que se aventuram sob seu teto. Cito dois grupos recorrentes: O Oxente e o Grupo Êxtase. A Secult poderia formular políticas de ocupação dos espaços públicos, como o TTB. Fica a sugestão.

JD – O I Facetas possui patrocínio da FUNARTE. Como anda a relação dos grupos locais com o poder público? A Secretaria de Estado da Cultura e a Funcaju têm dispensado a atenção necessária para o fortalecimento do teatro em Sergipe?

Ivilmar – Sim. A Funcaju, nos últimos anos tem procurado incluir o artefato teatral em seus projetos, como o “Arte em Toda Parte” e mais recentemente na I Virada Cultural de Aracaju, quando tivemos uma verdadeira explosão artística e cultural. Mas faltam ainda políticas mais objetivas e eficientes.

Já a atual Secult, passou por um difícil período de reajuste antes de promover suas ações para a área. Hoje, podemos ver mais claramente os esforços de Dona Eloisa Galdino e sua equipe em atender as demandas da classe. As perspectivas são interessantes.

JD – Ao final dessa entrevista, eu imagino que suas declarações tenham flertado com uma verdadeira montanha de dificuldades, inerentes à atividade artística em um estado pequeno como o nosso. O que justifica a insistência em uma atividade tão ingrata, que exige tanto dos malucos que se apaixonam por ela?

Ivilmar – Isso mesmo: paixão! Mas sem delírios. Há de ter razão para esse romance dê certo. Encaro o trabalho teatral como outros afazeres profissionais – mas é claro que poucas coisas são tão mágicas quanto estar no palco. Quebre a perna!

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1 Comentário »

  1. Isso mesmo, respeitável público, não perca o FACETAS. 15 minutos para dar um espetáculo!

    Comentário por Ivilmar Gonçalves — agosto 4, 2010 @ 11:07 pm


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