Spleen e charutos

julho 28, 2010

Ode ao Canalha, daqui pra frente

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 5:18 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Muito além do aqui e agora dos showsO ano era 2007. Eu estava acomodado numa das poltronas do Teatro Lourival Baptista, aborrecido com os músicos que defendiam suas composições na primeira eliminatória do finado Sescanção, quando quatro moleques subiram no palco e, como quem não queriam nada, como quem não sabiam exatamente como se comportar entre tantos senhores respeitáveis, mandaram o primeiro acorde de “A Fila”, que se consagraria como uma das finalistas do festival. Um acorde simples, e não mais do isso, foi suficiente para me acordar. Algo diferente estava por vir. A mágica aconteceu bem na minha frente.

Em pouco tempo, os meninos da Ode ao Canalha se firmaram como uma das maiores promessas da cena sergipana. Promessa que ainda está por vingar. Depois da empolgação inicial, os caras guardaram os panos de bunda, se dispersaram pelos inferninhos da cidade, e dispensaram o público numeroso que haviam cativado, deixando a galera órfã do balanço que andava sumido por essas paragens.

Agora, os caras garantem que tomaram prumo, e prometem encarar o próprio trabalho com mais responsabilidade. Segundo Rafael Oliva, vocalista e principal compositor da Ode ao Canalha, a banda está pensando muito além do “aqui e agora” dos shows. Mas como ninguém é de ferro, contudo, esta semana a Ode divide o palco do Espaço Cultiva com as bandas Villa Carmen e Tim Maia Cover, oferecendo a desculpa que a gente precisava para conversar.

Jornal do Dia – Desde que a Ode ao Canalha surgiu na cena sergipana, a gente vem observando uma grande leva de jovens músicos locais identificados com a tradição da música brasileira. De onde nasceu essa satisfação repentina, essa alegria de se descobrir brasileiro?

Rafael Oliva – Acredito que a gente já tinha dissecado o rock até o talo. Nós temos a escola do rock em comum, mas percebemos que os gringos já fazem isso de montão, e com boa qualidade. Quando o rock, consumido incansavelmente em festinhas, jams e tal começou a ficar chato, parou de suprir nossas necessidades, procuramos algo novo pra fazer.

O samba/rock é como um rompimento mal resolvido. A gente arranjou uma garota nova, mas de vez em quando bate aquela recaída, e rola uns pegas com nossa antiga paixão.

JD – Então, pelo que entendi, essa guinada é uma questão de maturidade, certo?

Rafael – Não tem outra palavra, o nome disse é maturidade. Estamos preocupados em fazer música para muitos, com qualidade, sem forçar a barra.

JD – A Ode meio que inaugurou esse movimento aqui na terrinha. Apesar disso, parece que os filhotes da banda tomaram a responsabilidade de fazer a coisa acontecer para si. O que explica o ostracismo que se abateu sobre a Ode, justamente no momento em que o cenário prometia tanto? O que a gente pode esperar dessa nova formação e momento da banda?

Rafael – Na época da primeira formação, a gente era muito garotão. Nossa maior preocupação era curtir o “oba, oba”. Acho que existia uma confiança excessiva no som que a banda mandava, e que isso alimentava a ilusão de que a qualidade do trabalho era suficiente para garantir as oportunidades. Naquela época, essa impressão fazia sentido. O pessoal da naurÊa meio que apadrinhou a gente; a Aperipê percebeu nosso potencial e tocava nossas músicas direto; chegamos à final do Sescanção… Nós estávamos no auge. Éramos jovens, vigorosos, fazendo um som muito conciso.

Mas aí chegou o tempo das vacas magras. Ficamos quase dois anos sem lançar trabalho novo, sustentados por um EP de qualidade regular. Parecia que a qualidade dos shows seria suficiente para nos sustentar, mas isso não bastou para os músicos da banda, que desanimaram e caíram fora. Nesse meio tempo, nada parou. Bandas com trabalho similar ao nosso atenderam à expectativa do público que ajudamos a criar e ocuparam a lacuna. Essas bandas tiveram a sanidade de aproveitar a oportunidade e fizeram tudo o que a Ode deveria ter feito. Elas se produziram, souberam se vender, se articularam com a imprensa.

O que se pode esperar da nova formação é uma banda preocupadíssima em retomar a essência do que sempre foi a Ode, com um som mais redondo (estamos tocando com Tunico de Ogun, um dos melhores percussionistas do estado, uma necessidade desde sempre, mas que somente agora foi observada), preocupada em gravar um disco com todas as músicas que só existiam no “aqui e agora” do show.

JD – Você mencionou o Sescanção (aliás, foi quando eu conheci a Ode). Parece que existe um descompasso entre a vitalidade esbanjada pela cena e a existência de eventos de grande porte, que dêem visibilidade à revolução que está ocorrendo nos subterrâneos da cidade.

Rafael – Muito bem observado. As bandas novas precisam se alertar para a necessidade de procurar ouvintes pelo país afora. A gente precisa se espalhar nos caras da Baggios, que são cosmopolitas, como sempre cantaram. Não posso afirmar com certeza que Sergipe vai entender a avalanche musical que está recebendo. Um indício muito forte de que as coisas não são tão simples é a escassez de palcos disponíveis pra galera se apresentar. Nós só temos duas casas de shows dispostas a abrigar a produção local.

Um festival ajudaria muito. Quando uma banda toca em um festival, todos os músicos se animam, dá vontade de ensaiar, aprimorar as músicas e gravar. Todo mundo procura se superar para tocar no próximo ano. Sem festival, sem música.

JD – Essa semana nós teremos três shows promovidos por personagens importantes da cena. Parece que a galera está se movimentando, levantando palcos coisa e tal. O público está acompanhando a evolução? A gente tem público pra isso tudo?

Rafael – Não acho que esse público sustente mais, a oferta é bem maior. Bandas como a Nantes, Mamutes, Elisa, que estão sempre se movimentando, precisam de um público maior. Alex Sant’anna, Deilson Pessoa, a Banda dos Corações Partidos… Tem muita gente fazendo música boa! O público da UFS não vai sustentar uma movimentação tão grande. A gente precisa tocar na 103!

JD – Tem esse problema das rádios. Nós já falamos das bandas, do público… E os veículos de comunicação, já acordaram para o que está acontecendo bem embaixo do nariz de todo mundo? O apoio da Fundação Aperipê é suficiente pra dar conta da ebulição?

Rafael – Os meios de comunicação estão acordando. Como a gente conversou em outra oportunidade, o sergipano nunca esteve tão interessado em si mesmo. O público quer ler sobre o que está ocorrendo na aldeia. Prova disso, é a discussão a respeito de sergipanidade levantada pela Aperipê. Em questão de cultura, de preencher o ser sergipano, eles se interessam muito por nós, valorizam mais o sergipano que o resto do mundo, e é assim que deve ser, sobretudo quando temos dois monstros culturais por perto, como a Bahia e Pernambuco, que ameaçam engolir tudo.

Ode ao Canalha, Villa Carmen e Tim Maia Cover:

Local: Cultiva (Rodovia José Sarney, em frente ao Oca Bar)
Data: 30 de julho (sexta-feira)
Hora: 23 horas

*Foto: Marcelo Hora

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3 Comentários »

  1. ode é demaaais e o tim cover tb!!!!!!! já o resto deixa dúvidas.

    Comentário por rafa — agosto 3, 2010 @ 3:00 pm

  2. Sabe do que me lembro daquela eliminatória do Sescanção? Quando o Rafael estava a se preparar e a guitarra nao tinha som. Quando percebemos que ela tava desplugada foi uma gargalhada geral!

    Comentário por Gusmao — agosto 4, 2010 @ 3:06 pm

  3. Má rapá… essas coisas não se lembram rapá… huahauhua

    Comentário por Rafael Oliva — agosto 10, 2010 @ 3:51 pm


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