Spleen e charutos

julho 23, 2010

A cultura sergipana entalhada na madeira

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:33 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O desafio continua de pé. Quem tiver dedo sobrando que se dê ao trabalho de contar quantos municípios o projeto Gravura de Inverno já visitou, estimulando os participantes a fuçar o próprio umbigo, descobrindo sua cultura e seus costumes, através da xilogravura. Criação do artista visual Elias Santos e da arte educadora Silvane Santos, o projeto Gravura de Inverno completa cinco anos de atividade em 2010, resgatando a cultura popular sergipana ao tempo em que difunde uma das manifestações culturais mais autênticas do nordeste, sempre com o apoio do Banco do Nordeste e das secretarias de cultura dos municípios, que apostam na idéia.

No próximo dia 26, a exposição dos trabalhos produzidos durante a oficina realizada em Nossa Senhora das Dores marca o encerramento de uma nova etapa do projeto. De acordo com Elias, os 40 jovens que participaram das oficinas foram muito receptivos em relação à proposta do Gravura de Inverno, e revelaram seu olhar sobre a cidade, retratando os penitentes que visitam Dores, a padroeira, os vaqueiros, entre outros personagens que fazem parte da cultura local.

Jornal do Dia – Muitos artistas atribuem a seu trabalho a responsabilidade de ter modernizado a linguagem das artes plásticas em Sergipe, com as experiências abrigadas pelo Ateliê que você mantinha no início dos anos 90, o Espaço 455. Admitindo a firmação como verdadeira, você assumiria uma puta responsabilidade sobre os ombros. A dedicação a projetos como Gravura de Inverno prejudica, de alguma forma, o trabalho como artista propriamente dito?

Elias Santos – Primeiramente não me vejo como referencial em nenhuma época. O trabalho pode ecoar ou não. É uma conseqüência natural. O Gravura de Inverno, na verdade, complementa o trabalho do artista. É o momento em que eu estudo e multiplico meu conhecimento, possibilitando a descoberta de muita gente para as artes visuais.

JD – Eu posso estar enganado, mas observo certa apatia no cenário das artes plásticas em Sergipe. Claro que existem iniciativas muito felizes, como as intervenções de Fábio Sampaio e os grafites de André Chagas, mas parece que está faltando injeção de energia nesse cenário. Você concorda comigo?

Elias – Eu penso que, nas artes visuais, Sergipe sempre foi mais memorialista que experimental, mais regionalista do que universal. A falta de potência energética do cenário é um reflexo da ausência do estímulo que deveria nascer em diversos “frontes” – seja no poder público, na universidade (existe um curso de artes) ou nos próprios artistas. Talvez esse último seja o principal responsável pela apatia, já que deveria tomar a iniciativa do diálogo e assumir a responsabilidade pela constância de atividades, permitindo o fortalecimento e união para uma ação coletiva dos artistas.

JD – Ao observar o trabalho de Gabi Etinger, pensei com meus botões que o Gravura de Inverno começava a colher frutos. Existem outros exemplos da contribuição do projeto para a cena local?

Elias – Isso mesmo. Mas é preciso lembrar que ela faz parte de um grupo. Temos a Marly Freitas, Raquel Lima, Ana Denise e Cris Assunção que também são artistas com uma poética alicerçada na xilogravura. Todas elas fazem parte do Gravura de Inverno, cada uma buscando soluções a partir dessa técnica milenar e propondo investigações.

Creio que o Gravura de Inverno tem contribuído significativamente para a cena local. Primeiramente por ter resgatado a xilogravura no Estado. Desde 2005 temos em Aracaju uma oficina permanente de xilo, gerando um grupo, um coletivo, espaço de interação e experimentação sobre essa técnica. O Gravura possibilitou levar o nome de Sergipe para outros estados como São Paulo, Fortaleza, e em breve Salvador e Pernambuco. Também promovemos palestras com especialistas de outras regiões, para troca de vivências, além de ampliarmos ações a partir de outros projetos como o Gravura em Circuito, com proposta do diálogo da gravura com o graffiti, entre outros, sem falar nas ações no interior do estado.

JD – De que maneira o Gravura de Inverno interfere na realidade dos municípios visitados pelo projeto?

Elias – De forma extremamente positiva. O que acho incrível é trabalhar com um jovem do interior que nunca teve acesso a xilogravura, nunca fez um corte na madeira, e observá-lo produzindo gravuras fantásticas em um curto período de oficina. É fascinante!
Além disso, trabalhamos a valorização da cultura local, estimulando os participantes a olharem, observarem sua cidade, seus costumes, sua cultura, através da xilogravura, apropriando-se do que na verdade já é seu.

JD – Quais os planos do artista Elias Santos pro futuro?

Elias – Estou expondo em Salvador no CIRCUITO DAS ARTE 2010 até o dia 25, neste próximo domingo, como artista convidado. Enviei duas obras de minha atual pesquisa, “Infiltrados” e estão expostas na Galeria ACBEU.
Para este ano estou com agenda, ainda não tenho o mês definido, para uma individual de xilos, no Museu da Casa da Xilogravura em Campos do Jordão/SP.
Para 2011 quero lançar um livro, catálogo, não sei bem. Mas estamos estudando o projeto para captação de recursos.

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