Spleen e charutos

abril 28, 2010

Na rua é que me sinto bem

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 8:36 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Para tratar os machucados da arte contemporânea, band-aids no diretor

Não é de hoje que nós acompanhamos a vocação urbana do trabalho de Fábio Sampaio. Dedicado como poucos a desafiar as fronteiras cada vez mais diluídas da arte contemporânea, ele é figura cativa desse espaço. É bem verdade que o esforço desprendido para negar o conforto emoldurado das galerias e se aproximar de uma interação mais efetiva com a cidade nem sempre é recompensado. O projeto Caju na Rua, por exemplo, adotado e bancado pela Funcaju para tomar parte na Virada Cultural, até hoje não conheceu a luz do sol. De qualquer modo, o rapaz segue trabalhando, e acaba de lançar um catálogo com o conjunto das intervenções urbanas que formam o Projeto Interacidade.

Com registros fotográficos de Márcio Garcez e texto de apresentação de Antônio da Cruz, o catálogo é testemunha da ousadia e inquietação do artista. São dez anos de uma relação de amor e ódio com a cidade, documentados de maneira bastante peculiar. Se Sampaio tropeça em um buraco no caminho, a ele não basta praguejar. É preciso ir além e usar o acidente do passeio como suporte, chamando a atenção dos transeuntes para o risco da topada. É preciso, além disso, fazê-lo de modo que o alerta deslumbre e incomode, machucando as consciências de maneira insistente.

Com isso, concorda Cruz, no belíssimo texto de apresentação do catálogo (o superlativo não foi usado por desleixo). “Não será a arte o âmago do fazer das coisas? E, sob esta óptica não estaria contemplado certo conceito tradicional? Sim, claro. Acontece que as interferências artísticas se revestem dos seus significados e não almejam ter, como objetivo maior, resgatar meros aspectos da etiqueta social, mas ativar a sensibilidade nas suas particularidades individuais e propor questões engajadas com a vida ao coletivo”.

É o que o Interacidade tem feito por Aracaju. Se a intervenção Farol-aid captou um sentimento íntimo de todos os que lamentavam o abandono do Farol do conjunto Augusto Franco, e traduziu o incômodo com fitas curativas de seis metros de cumprimento, ainda insignificantes, comparadas ao tamanho do descaso; Em Band-aids para o diretor, a iniciativa não foi bem acolhida. As fitas adesivas fixadas nas vidraças da Galeria de Artes Álvaros Santos, pouco afeita aos arroubos inventivos de artistas menos convencionais, não foram toleradas de maneira pacífica por Antonio Cajueiro, então diretor do espaço. De qualquer maneira, estampado em muitas cores, estava lançado o protesto pelo incentivo à produção da arte contemporânea.

Eu tenho certeza de que Fábio Sampaio vai continuar incomodando muita gente. Minha esperança é de que outros artistas percebam a importância do sacerdócio ingrato de incomodar.

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