Spleen e charutos

abril 15, 2010

Amanhã tem música no beco

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:34 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Elvis Boamorte e o boa vida Allen Alencar brindam a vida com música brasileira da melhor qualidade

Tudo depende São Pedro, o santo menos confiável que eu conheço (como é que alguém tem coragem de entregar a chave do céu a um cabra desses?). Se tudo der certo, e as divindades da chuva permitirem, amanhã à noite tem música no Beco dos Cocos.

Como todo mundo está cansado de saber, a viela pestilenta localizada entre a Praça General Valadão e os mercados centrais foi revitalizada pela prefeitura. Desde então, o espaço abriga o projeto Sexta no Beco, uma iniciativa do Coletivo do Beco, formado por artistas, entre outros agentes culturais – grupos folclóricos, profissionais da música, do circo e do audiovisual – que não dispensam oportunidade para celebrar a vida.

Na programação de amanhã, a música sergipana mostra sua face mais nova, com a estréia da banda Villa Carmen e apresentação de Elvis Boamorte e os Boa Vidas. Eu conversei com Elvis e o boa vida Allen Alencar (guitarras) para saber como eles estão vivenciando esse momento particular da música sergipana. Na opinião dos caras, a maior responsável pela energia estranha que os mais atentos conseguem captar é a música brasileira, fonte inesgotável de criatividade, à disposiução de quem quiser provar.

Jornal do Dia – É impressão minha ou a apresentação dessa noite reúne uma espécie de clube? Em outras palavras, vocês percebem alguma afinidade na safra mais recente da música sergipana representada pela Villa Carmen e Cabedal, além da própria Elvis Boamorte?

Elvis Boamorte – Surgimos da mesma roda de viola, dos bares e reuniões de amigos. Não tem como dizer que a gente não tem afinidade com a Cabedal, a Ode ao Canalha, a Villa Carmen, a The Baggios, os caras da Mamutes, da Química Sonora, da Oganjah, da Dream Zion, e por aí vai…

Nascemos e participamos da mesma linhagem da música sergipana. Aqui em Aracaju, pelo menos, apesar de ainda existir um pouco de “rivalidade” entre os artistas e tal, todo mundo se conhece e acaba criando uma ligação. Eu diria que hoje, aqui, não existe mais aquele lance de banda grande e banda pequena. Na minha visão, essa geração, além de chegar com uma produção autoral de muita qualidade, está chegando pra somar, está cada vez mais se misturando com os ditos consagrados. To gostando de ver esse caldo da música sergipana ferver! Isso acaba sendo bom pra todo mundo!

JD – A que pode ser atribuída a (re) descoberta da música brasileira que marca o trabalho de vocês? Impressionante como a “pólvora” (não me peçam pra explicar a piada, por favor!) continua fazendo estragos em nossos dias…

Allen Alencar – Não sei bem ao que se deve essa redescoberta, mas creio que é um fenômeno nacional. Artistas como Curumin, Céu, Wado, Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta, Lucas Santanna, só pra tomarmos estes como exemplos, estão fazendo isso e de uma forma espontânea, o que é mais legal, sem ser algo forçado, sem parecer falso.

Mas aqui em terras sergipanas, eu acredito que nestes últimos anos, a Ode ao Canalha teve um papel importante pra que esse olhar sobre a música brasileira começasse a vingar e a se disseminar por aqui. Já não se pode cravar por exemplo, o som da Cabedal de “rock”, isso serve tanto pra gente, quanto pra Villa Carmen e na minha opinião a Ode ao Canalha, quando veio com sambas em seu repertório, teve seu papel nisso.

A gente procura a música brasileira como forma de acrescentar, acho que – pode parecer pretensão demais – essa é uma geração diferenciada por conta disso, por não estar preocupada apenas em guitarras distorcidas, mas em olhar também para a parte rítmica e harmônica da canção, e nisso a música brasileira é genial. Beber dessa fonte é imprescindível.

JD – O cenário musical contemporâneo vem impondo um investimento filho da puta aos aventureiros que pretendem se firmar nesse terreno movediço. Ao contrário do que ocorreu no passado, quando a bênção das gravadoras resolvia tudo, o artista de hoje não pode mais se enclausurar na torre fantasiosa da criação e delegar o trabalho sujo aos lacaios. Noves fora o resto, vocês consideram isso bom ou ruim?

Alencar – Pois é, esse é outro aspecto da música brasileira contemporânea. O cara tem que se virar e se mexer quase sozinho. Tem que produzir sua música, mas também tem que produzir e administrar a carreira, correr atrás de show, gravar com a cara e a coragem, fazer a propaganda, etc. Acho que isso pode ser ruim por um lado, por não lhe deixar mais tempo pra bulinar sua arte, mas ao mesmo tempo lhe dá mais autonomia. Acho que é um processo que já está ai, evidenciado, e o lance é surfar nessas ondas.

JD – Na opinião de vocês, em que patamar se encontra a cena sergipana? Qual o papel do Poder Público em seu desenvolvimento? Como ele vem desempenhando esse papel?

Alencar – É um momento muito bom, artisticamente falando. Tem muita gente fazendo som de qualidade por aqui. Impossível não citar a The Baggios, a Naurêa, a Banda dos Corações Partidos, a própria Cabedal e a Villa Carmen, além de outras, claro. O Poder Público tem feito uma parte de seu papel, dando espaço pras bandas daqui nos grandes eventos promovidos pelo governo e tal, criando e efetivando o Forúm da Música, mas acho que ainda é pouco, deve haver um olhar mais preocupado e atento pro cenário. Ao mesmo tempo, acho que não se deve esperar apenas do poder público algum tipo de iniciativa, como Léo Levi falou uma vez, tem gente que precisa trabalhar mais também, se dedicar mais e não ficar apenas sentado esperando a mão do governo.

A gente volta àquela questão anterior. Hoje em dia, neguinho tem que se produzir, bicho, se focar também nessa parte que fica por trás da música, se é que podemos dizer assim.

JD – Eu costumo dizer que lugar de banda é em cima do palco, perto do público, fazendo zuada. Isso não siginifica, contudo, que a galaera possa se dar ao luxo de dispensar algum registro do seu repertório. Como andam os planos pra o primeiro disco da Elvis Boamorte?

Boamorte – Não se trata de um disco, propriamente dito. Estamos lançando cinco músicas nesse EP, apesar de já existirem doze músicas próprias em nosso repertório, além de uma porrada de composições, suficientes pra encher três álbuns. O disco propriamente dito deve sair no início do ano que vem.

De qualquer modo, o EP está chegando com um pouco de tudo. Daqui pro final de maio, quando realizaremos uma tuor pélo nordeste, passando por Fortaleza, Natal e Campina Grande, acredito que ele esteja pronto. Ele vem com muito sentimento e energia positiva.

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1 Comentário »

  1. caralho,esqueci de creditar a foto! É de Raone Beltrão

    Comentário por Allen — abril 16, 2010 @ 1:37 am


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