Spleen e charutos

março 8, 2010

Cultura e informação, até quando?

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 8:27 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Indira Amaral, entre intenção e gesto

Nos últimos anos, os agentes da cultura local vêm recebendo da Fundação Aperipê um tratamento sem precedentes na história de suas emissoras. O apoio materializado na divulgação da lavoura intelectual dos sergipanos é um dos pilares da programação, e vem sendo encarado com tanta seriedade que a Aperipê é considerada uma parceira fundamental no desenvolvimento da nossa cena cultural. Prova disso, nos próximos dias, um edital destinado à gravação de um punhado de músicas inéditas e alguns videoclips deverá selecionar seis projetos para usufruir da tecnologia com que seus estúdios foram aparelhados recentemente. O prazo para concorrer ao empurrãozinho encerra na próxima sexta-feira, e ofereceu a oportunidade que a gente precisava para questionar: E se a direção da Aperipê, à mercê do humor partidário e eleitoral, fosse exonerada, de repente?

História – Em outubro de 2007, a Aperipê TV foi a primeira emissora do país a assinar o termo de adesão à TV Brasil. O feito foi comemorado com toda a pompa que a circunstância exigia. Na presença do ministro Franklin Martins, o governador Marcelo Déda parecia reafirmar o compromisso com um novo modelo de gestão, amparado numa concepção democrática do trato com a coisa pública, que acalentava os expectadores da emissora e o conjunto da sociedade. Dois anos depois daquela canetada certeira, no entanto, nada mais foi feito. O que parecia um passo decisivo em direção aos avanços necessários à política de comunicação pública em Sergipe se revelou um engodo, no sentido de que a intenção não se materializou em gesto e ignorou as mudanças estruturais que importam ao progresso.

Na ocasião, Indira Amaral, presidente da Fundação Aperipê, se manifestou publicamente, revelando a ciência do compromisso negligenciado.

“A adesão acontece porque queremos fortalecer o projeto de construção de uma rede pública com qualidade na programação. Ser membro pleno nos traz responsabilidades novas, como a criação de um conselho curador, garantias de orçamento e liberdade editorial, além de contrapartidas da TV Brasil em investimento e formação de pessoal”.

O mencionado investimento na programação local realmente foi realizado, frutificando em produtos intimamente comprometidos com a afirmação da identidade e cultura sergipanas. Programas como Cena do Som, Olha Aí, Expressão, entre tantos outros, cumprem magistralmente o papel para o qual foram criados, e obrigam detratores comprometidos com projetos eleitorais a fechar o bico.

Mudanças estruturais mais profundas, capazes de sobreviver aos revezes de projetos políticos pessoais ou de partidos, contudo, foram largados na gaveta escura do esquecimento. Isso posto, cabe a pergunta: Se estamos todos de acordo e entendemos a importância de desvincular a gestão da Fundação Aperipê das ambições do governo de plantão, por que o Conselho Curador, ao qual Indira Amaral se referiu, não atende aos parâmetros lançados pela Empresa Brasileira de Comunicação?

Formado exclusivamente por secretários de governo, o conselho curador da Aperipê TV desconhece a sociedade civil, suplantando os seus próprios objetivos. No sítio da EBC, eles estão discriminados de maneira clara.

“O Conselho Curador é o instrumento de participação da sociedade na gestão de empresas públicas de comunicação, diferenciando-os dos canais meramente estatais, controlados exclusivamente por governos ou poderes públicos (…). Os conselheiros que representam a sociedade civil são personalidades que, em seu conjunto, expressam a pluralidade de opiniões, formações e experiências profissionais, origens regionais e inclinações políticas”.

Questões mais pragmáticas, a exemplo da criação de um Plano de Cargos e Salários e da realização de concurso público para o preenchimento dos quadros da Fundação, são tratadas de maneira igualmente irresponsável, com promessas eternamente adiadas de efetivação. Ao que parece, a intenção existe, mas, até se transformar em gesto, vai precisar vencer um abismo.

O jornal do Dia procurou a Fundação Aperipê para conhecer o que tem sido feito para estancar a hemorragia. Até o momento, no entanto, a despeito da atenção de sua assessoria, que informou ter levado os questionamentos discriminados acima à presidente Indira Amaral, nenhuma satisfação nos foi dada.

Anúncios

1 Comentário »

  1. No Brasil as pessoas confundem muito governo com estado, público com privado. O governo é uma equipe eleita com um mandato para administrar o estado. O governo não é dono do estado, o dono do estado, pelo menos teoricamente, é o povo, somos todos nós. É público – e público, no Brasil, as pessoas acham que é o que não é de ninguém, outro grande equívoco. Por isso que a BBC de Londres é do caralho – é totalmente independente do governo, susentada por um imposto à parte.

    Comentário por Adelvan — março 9, 2010 @ 9:42 pm


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: