Spleen e charutos

fevereiro 17, 2010

Uma banda que chegou pra balançar

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:08 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

*A alegria da Cabedal é a prova dos nove

Promessa é dívida. Semana passada, assumi o compromisso de conversar com os caras da Cabedal e conhecer o que pensa essa juventude rebelde que leva a vida desenhando acordes, uma felicidade imatura, como quem defendesse a longevidade de Oswald de Andrade e destruísse monumentos históricos com um sorriso. O vocalista Saulo Sandes dedicou dois minutos de atenção a esse escriba e, como em suas canções, reafirmou uma das máximas do movimento antropófago. A alegria continua sendo a prova dos nove.

Jornal do Dia – Parece que colocaram alguma coisa na água de Aracaju. Nos últimos anos, nasceu uma porrada de banda boa aqui na terrinha. Entre essas, eu posso citar pelo menos duas – a Elvis Boa Morte e os Boas Vidas, além da Vila Carmém – que parecem beber na mesma fonte que inspira a Cabedal. Em que medida esse afeto crescente pela música brasileira pode ajudar a nossa música a se livrar de um certo bairrismo, observado principalmente na geração de 80?

Saulo Sandes – Acho o que está acontecendo em Aracaju é reflexo do que está ocorrendo no Brasil do século XXI e da internet banda larga. Está havendo uma crescente valorização da cultura brasileira e da música que foi produzida décadas atrás. Isso tudo, somado com a cultura global que aspiramos dia-a-dia, resultou no surgimento dessas novas bandas. Bandas de jovens com seus vinte e poucos anos, ligados ao mundo moderno e abertos a vários estilos de música, com clara ênfase na música brasileira. Acho que a conseqüência disso tudo é uma música sergipana, ao mesmo tempo brasileira, ao mesmo tempo global, distante de bairrismos ou de qualquer barreira que possa ser imposta a ela. Podemos falar, e falamos de Sergipe nas nossas músicas de um modo meio sem pretensões, sem a obrigação que artistas da década de 80 carregavam.

JD – Embora seja uma banda nova (vocês se reuniram quando, mesmo?), a Cabedal conquistou o reconhecimento da cena muito rapidamente. Infelizmente, no entanto, parece que isso ainda não foi suficiente para estreitar a relação com o numeroso público que vocês já conquistaram, através das apresentações. Na opinião de vocês, faltam espaços ou eles precisam ser utilizados de maneira mais democrática?

Sandes – Passamos muito tempo sem tocar. Foram 6 meses produzindo nosso disco. Além disso, nesse interim, houve a saída de Edvan (baterista) e a entrada de Ravy. Voltamos a tocar agora e já temos um site no ar (myspace.com/cabedalmusica) – que adianta ao público 4 músicas do nosso disco.
Acho que a banda, definitivamente, passou a existir agora. Essas músicas estão circulando na internet e nas rádios de Aracaju, dispostas a chamar a atenção de novos ouvintes e estreitar a relação com nosso público que, felizmente, vem crescendo.
Já em relação aos espaços de show, acho que há uma falta deles aqui. Aracaju carece de um bom local de pequeno/médio porte que facilite a produção de eventos. No entanto, acho que, ainda assim, bons shows estão sendo feitos (a maioria com produção das próprias bandas). O pessoal novo está driblando o problema. Com o pouco que temos, dá sim pra estreitar os laços com nossos ouvintes, mas seria realmente muito bom se existissem lugares mais adequados para eventos pequenos em Aracaju.

JD – Na qualidade de observador do underground local, fico muito feliz quando a galera conquista alguma atenção além de nossas fronteiras. Isso ocorreu recentemente com vocês, selecionados entre mais de 400 candidatos para participar do Festival Grito. Não é meio estranho ser obrigado a sair de casa para poder participar de um evento como esse? O que aconteceu com os festivais sergipanos?

Sandes – Foi uma surpresa boa sermos convidados para tocar lá em Recife, no Festival Grito Rock, um festival ligado ao fora do eixo e que acontece em várias cidades da américa latina num mesmo período. Foi uma pena Aracaju não ter entrado na jogada esse ano, mas tomara que no próximo tenha esse festival aqui.
Hoje em dia, aqui no Brasil, estão ocorrendo festivais muito bacanas. Festivais que estão praticamente determinando os rumos da produção musical brasileira e que cada vez mais estão chamando atenção da grande mídia especializada, como o Goiania Noise (GO), Abril Pro Rock (PE), Rec Beat (PE). Ter que sair daqui do estado pra tocar em eventos como esse não nos assusta muito pois todos sabemos que Sergipe, infelizmente, não tem tradição de ser um forte pólo cultural, como é Pernambuco, por exemplo. Anos atrás, existiam bons festivais aqui em Aracaju, o Punka e o Rock-SE. É uma pena não existirem mais, mas torço e acredito no aparecimento de um festival legal por aqui.

JD – Eu acabo de (re) ler o Verdade Tropical, de Caetano Veloso, umas das influências declaradas da banda. Dessa vez, no entanto, a leitura deixou muito evidente, para mim, como a discussão cultural chega atrasada em Sergipe. Embora por razões bem diferentes (a canalização dos recursos para determinado segmento), o sectarismo observado na música brasileira nos tumultuados anos 60 parece, finalmente, ter dado as caras por aqui. Esse negócio de músico disputando espaço é muito feio, né?

Sandes – É uma coisa estranha, pra não dizer feia. Acho que muitos se preocupam demais em firmar espaço, e deixam de lado uma discussão cultural produtiva e, o pior de tudo, acabam esquecendo da verdadeira qualidade de suas obras.

JD – Durante o show no Projeto Verão, vocês prometeram lançar um disco ainda esse semestre. Como é que anda o projeto? O disco já tem nome? O que a Cabedal espera conquistar com esse registro?

Sandes – Sim, o disco tem previsão de lançamento para o final de março e não tem uma nome definitivo. Um provável nome é “O grande pastiche”. A produção do disco foi quase artesanal. Ele foi produzido com pouco recurso e com muito trabalho. Mas ficamos bem felizes com o resultado alcançado. Mérito de Leo Airplane que fez um misto de mixagem e produção do disco. A consequência que esse nosso primeiro trabalho vai trazer pra gente, ninguém sabe. Mas esperamos, com ele, atingir e dispersar nossa música entre as pessoas.

*Foto: Anderson Bruno

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