Spleen e charutos

dezembro 31, 2009

‘Não somos bons só porque somos sergipanos’

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:41 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Nada de previsões. Em 2010, vamos continuar fazendo tudo errado, insultando as autoridades e o próprio leitor, que é pra ver se alguém nessa terra acorda. Começando o ano como pretendia desde o início de minhas férias – cobrando os projetos que os principais personagens da cultura sergipana prometeram levar a cabo – eu conversei com o cantor e compositor Deilson Pessoa para saber como anda a gestação de seu segundo trabalho. Ele não foi, contudo, o único que me prometeu resultados concretos. Meio mundo de banda jurou que lançaria seus discos agora no início do ano; o meu amigo Fábio Sampaio anunciou um catálogo com um resumo de seu trabalho para depois do carnaval; Graziele Andrade, diretora do NPDOV, garantiu que colocaria o elefante branco para andar, e por aí vai…
A julgar por tantas promessas, 2010 vai ser bastante profícuo. Quem viver verá!

Jornal do Dia – Eu acompanhei o processo de gravação de seu primeiro disco com alguma intimidade, e percebi que ele exigiu muito tempo e dedicação. Poucos meses depois de Súbito e-Feito chegar ao mercado, no entanto, você demonstrava certa ansiedade de se livrar desse primeiro trabalho, arregaçar as mangas e partir pra outra. O que poderia explicar essa inquietação?

Deilson Pessoa – A verdade é que eu e Alex Sant’Anna estamos disputando pra ver quem lança primeiro o segundo (rindo). Falando sério, acho que ter passado 14 anos na gaveta já me foi suficiente. Pretendo gravar o máximo de idéias boas que eu puder. Isso me dá fôlego. Daí, talvez, essa ansiedade em ter logo um novo trabalho.

Jornal do Dia – Parece que o segundo (se puder adiantar algum nome pra gente, eu agradeço), embora carregue algumas semelhanças com o disco de estréia, uma vez que o trabalho autoral sempre carrega uma marca distintiva, caminha em outra direção. A que pode ser atribuída essa mudança de rumos? O que mudou na cabeça do compositor Deilson Pessoa em tão pouco tempo?

Pessoa – Possivelmente o nome será ‘Eu Quem’. O próprio título já dá um tom de resposta pra essa pergunta. Não em relação à indefinição do modo, mas na diversidade de possibilidades. Quero fazer um trabalho livre de amarras, porém consistente. Talvez por isso minha opção seja a MPB. Ela te dá mais liberdade, é universal no diálogo. Mas tem um lance que também é importante: No primeiro álbum a coisa soou mais radiofônica, vamos dizer assim. Nesse novo a intenção é aproximar a sonoridade mais pro tipo de público e espaços que encontrei disponíveis aqui.

Jornal do Dia – Eu não sei se você concorda comigo, mas quando se fala em um trabalho ligado ao universo da MPB em Aracaju, nossas maiores referências estão ligadas aos 80’s. Alguns poucos nomes – a exemplo de Nino Karva, Alex Sant’Anna e Patrícia Polayne –, apresentaram trabalhos consistentes depois desse período. Em que medida isso dificulta a divulgação de seu trabalho? Há como reverter esse quadro?

Pessoa – Sim, concordo. Esse pessoal dos anos 80 foi quem fez a música sergipana acontecer internamente por um tempo, criou inclusive o conceito de ‘artista da terra’. Depois veio o limbo em que passeou a música sergipana há alguns anos. Eles não souberam andar com o tempo, e alguns ótimos artistas que temos não conseguem se livrar da marca dessa época até hoje.
O ufanismo que antes cantava a sergipanidade se transformou em ostracismo. Deixamos de evoluir musicalmente, em vários aspectos, aí vieram os baianos e mostraram que não existe vácuo de poder. Mas coisas muito boas vêm acontecendo, estamos criando uma identidade sem querer ser de outro planeta. Além disso, acredito que há uma dimensão maior nessa dificuldade de chegar ao público que você diz aí. Que envolve mais a parte adjacente que o artista propriamente dito. Há uma deficiência de produtores, técnicos, promotores de eventos, imprensa comprometida com a causa cultural, e tudo isso influi muito pra se chegar ao público. Acredito que a reversão desse quadro é um processo longo, com efeitos também de médio e curto prazo, que já vem se desenhando.

Jornal do Dia – Quando converso com a molecada do rock, defendo meu ponto de vista afirmando que a composição e a gravação são apenas a parte mais divertida do trabalho. Eu sei que você ainda está nessa etapa inicial do trampo, mas a preocupação com as apresentações, com a ocupação dos espaços já está sendo pensada? Como você pretende trabalhar isso?

Pessoa – Muita gente me reclama disso, toquei pouco desde que lancei o álbum. É preciso observar que o trabalho solo é mais difícil de conduzir. Pra turma do rock e afins é moleza, porque eles trabalham em grupo. No meu caso, é preciso contratar músicos, ou encontrar quem vá na “brodagem”, o que é muito difícil. Aqui não há lugar que te dê um ganho por tocada, a gente encara a parada por que gosta do que faz.
No primeiro álbum eu cheguei de súbito (rindo), mas agora já estou mais escolado. Pretendo afinar a banda também por esse lado. Essa minha preocupação vem desde a concepção do disco novo. A intenção é que e em 2010 a coisa seja bem diferente.

Jornal do Dia – Outro dia, Amorosa se retou com as declarações de Léo Levi, diretor da Rádio Aperipê, aqui nesse espaço. Em meu entendimento, o aborrecimento da cantora, um dos maiores valores de nossa música, se deve a uma percepção preguiçosa da realidade. É como se esse pessoal das antigas não tivesse percebido que o tempo passou na janela. Eu sei que você é um cara atento ao que ocorre em nosso universo musical. Como você acompanhou a discussão?

Pessoa – A declaração de Léo Levi, eu assino embaixo. A revolta foi por conta dessa postura que seguiu o ufanismo histórico de que falei: “Somos bons porque somos sergipanos, não porque somos bons”. Isso enraizou no pensamento de alguns artistas de tal maneira que, qualquer coisa que não fosse por eles, seria contra eles. Pior que, estando um saciado, se esquece imediatamente da necessidade dos demais. Dessa maneira não existe cena que possa ser construída, a não ser da ruína e miséria. Não concordo que governo tem que fazer show a vida toda pra sustentar artista. Ouvi falar em algum lugar sobre um projeto ou idéia de um fundo tipo auxílio-moradia para artistas que seria responsabilidade do estado. Idéia maluca e ridícula! Porque só os artistas? Por que não os padeiros, garçons? Pela primeira vez estou vendo tentativas de implantar resultados com ações coletivas, através de um canal que foi criado entre a secretaria de cultura e artistas pelo Fórum de Música. Não tenho conhecimento de outras ações no passado. Acho que a coisa flui por aí, com o pessoal conhecendo as dificuldades uns dos outros, fazendo de fato por onde resolver questões de um todo, e não de uma panela ou grupo.

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1 Comentário »

  1. A maior expressão da música sergipana, entre outras.

    Comentário por galvao — janeiro 26, 2010 @ 2:43 pm


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