Spleen e charutos

outubro 29, 2009

Cara feia pra mim é fome

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:40 pm

Bandas arregaçam as mangas e financiam viagem sem fazer cara de fome

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não tenho nada contra conversa de bar. Muito ao contrário. Devo ao ambiente inspirador, e à leitura do saudoso Pasquim, a redação de minhas melhores entrevistas. Talvez o hábito incomode alguns poucos, leitores engessados por uma concepção burocrática de notícia, mas o fato é que seria impossível comparar, com a seriedade adequada, dois trabalhos fundamentais na compreensão do atual momento da música sergipana fazendo concessões ao nervosismo de uma redação.

Tendo isso em mente, na noite da última quarta-feira me juntei aos músicos Plástico Jr (Plástico Lunar) e Julico Andrade (The Baggios) para entornar algumas brejas e conversar sobre as expectativas de mais uma apresentação além de nossas fronteiras. Convidados para se apresentar no renomado Festival Do Sol, os caras corriam o risco de perder o bonde, mas arregaçaram as mangas e organizaram a festa Help!, que a Casa do Rock abriga hoje à noite, se recusando ao hábito preguiçoso de bater na porta dos outros fazendo cara de fome.

Jornal do Dia – A The Baggios já comeu a poeira de muita estrada.

Julico – Rapaz, conte aí. Só esse ano, a gente visitou Recife (PE), João Pessoa (PB), Natal (RN), Poções (BA), Salvador (BA), Feira de Santana (BA) e Vitória da Conquista (BA).

Jornal do Dia – É muita estrada pra uma banda nova.

Julico – A banda vai completar seis anos, agora em março. Mas as coisas começaram a funcionar de verdade a partir de 2007, quando a gente lançou o primeiro EP. Foi quando começamos a fazer shows e participar mais ativamente do cenário local.

Jornal do Dia – Já a Plástico tem quantos anos? Me lembro de assistir a Plástico, ainda moleque, na ATPN.

Plástico Jr – Esses caras precisam tomar vergonha!

Jornal do Dia – Tenha calma que nós vamos chegar aí.

Plástico Jr – A Plástico Lunar, com a atual formação, nasceu em 2001, quando Odara (bateria) entrou na banda. A gente começou tocando no Punka, num palco pequeno, com a Lili Junkie e outros nomes que batalhavam no underground da época.

Jornal do Dia – Mas na verdade o núcleo da banda é bem mais antigo.

Plástico Jr – Como Plástico Solar, a banda existe desde dezembro de 1998. No ano seguinte, a Plástico tocou pra caralho, mas ainda não existia um circuito independente ou alternativo na cidade. A gente só conseguia se apresentar por que Tiaguinho, nosso baterista, fazia parte do meio pop rock.
Nos apresentamos muito no Tequila, em uns lugares nada a ver. Tocamos com a Mosaico, a Sibbéria, uns nomes nada a ver.

Jornal do Dia – Quando foi que isso mudou?

Plástico Jr – Quando Odara entrou na banda. Antes, o nosso trabalho era muito ingênuo. A transformação em Plástico Lunar foi uma tentativa de encarar o trabalho de maneira diferente, a gente precisava ficar mais malicioso.

Jornal do Dia – Em que sentido? Às vezes eu tenho a impressão de que o trabalho da Plástico podia ganhar uma dimensão muito maior.

Plástico Jr – Nós ficamos muito tempo na garagem. A gente só tocava o que queria. Com o tempo, mesmo defendendo uma personalidade musical, acrescentamos muito à nossa visão inicial do que significa fazer música. A gente percebeu que uma banda não é só composição. Ter uma banda é mais do que fazer músicas boas, com arranjos legais e gravações cuidadosas. Depois de apanhar um bocado, finalmente aprendemos o significado da palavra produção. Hoje nós temos ciência de que fazer a produção da banda é tão importante quanto compor uma música.

Jornal do Dia – Apesar disso, a Plástico tem apenas um CD lançado, depois de mais de dez anos de carreira.

Plástico Jr – Um jornalista de Brasília já cobrou isso da gente. Ele nos conheceu através de uma coletânea do selo Baratos & Afins lançada em 2001, e esperava que o disco não tivesse demorado tanto pra sair. Ele nos perguntou se tinha valido a pena esperar tanto tempo pra lançar o disco. Eu já me martirizei muito tentando responder a esse pergunta, mas talvez tenha sido melhor assim. Se o Coleção de Viagens Espaciais tivesse saído antes, a gente provavelmente não ia saber o que fazer com as respostas que conquistamos. A gente não tinha nada na cabeça, só queria saber de tocar bêbado, de encher a cara até de manhã cedo. Hoje, a gente pode lidar com isso um pouco melhor.

Jornal do Dia – Vocês estão se preparando pra pegar a estrada mais uma vez. Em que medida isso é importante para o amadurecimento das bandas?

Julico – Viajar mudou minha cabeça pra caralho. Eu era um cara que reclamava muito. Hoje eu percebo que é preciso botar a cara, batalhar pro trabalho ganhar corpo, pra depois cobrar alguma coisa do governo ou de quem quer que seja.
A viagem que faremos agora, por exemplo, será praticamente custeada por nossa conta. A gente podia ficar se lamentando, e desperdiçar a oportunidade de se apresentar em um dos maiores festivais do nordeste, mas preferimos organizar um show pra arrecadar a grana que falta.
É preciso ter uma visão profissional da banda. Todo artista independente quer ocupar o palco desses festivais, mas isso não cai do céu. A gente só conseguiu cavar esses espaços por causa de um investimento pessoal, motivados pela fé que a gente leva no trabalho das duas bandas.

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