Spleen e charutos

outubro 8, 2009

Meu querido viciado em crack

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:34 pm

Quando redigi a crônica reproduzida abaixo, tinha em mente a luta encampada pelo Sintese. Na ocasião, fui provocado pela condenação da imprensa, que insistia na politização da campanha pelo efetivo pagamento pelo Piso. Infelizmente, como demonstra o protesto realizado ontem pelo Sindipema, o texto continua oportuno.

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Os desejos paridos não caminham sozinhos. Carecem de bússola, setas e mapas, um guia treinado e o tempo estio. Existem sementes agrestes, que resistem a quase tudo. Mas os sonhos são feitos de matéria diversa. Dois dedos a menos de água, um pouco mais de estrume, e as noites perdidas em fecundação desvairada redundam em criança natimorta, um bote perdido no meio do mar bravio.

Tenho um amigo, professor do Estado, que ingressou na Universidade Federal de Sergipe determinado a virar gente. Depois de muita penúria e alguma beberagem, Derley concluiu a graduação. Quase sem roupa, sem calçado e sem emprego, meu amigo viajou pra Curitiba com apenas dois putos no bolso. Uma dissertação de título pomposo lhe conferiu o mestrado, mas dois anos de fome não lhe renderam mais que isso – o coração dividido entre duas cidades, e um pedaço de papel superestimado.

Desde que o presidente Luis Inácio sancionou a lei que determina o pagamento do piso nacional de R$ 950 para os professores da Rede Pública, os profissionais da educação guardam no ventre uma esperança venenosa. Aqui em Sergipe, por exemplo, a Secretaria da Educação gritou aos quatro ventos que obedecerá rigorosamente à determinação legal. Ao mesmo tempo se recusa, no entanto, a por termo nas dúvidas que assombram a categoria. Afinal de contas, como será realizado o pagamento do piso? A regência de classe será afetada? Como fica o plano de carreira do magistério? Essas, entre outras perguntas, continuam aguardando resposta.

Versado no tratado da natureza humana de Hume, meu amigo teme que os seus sonhos dobrem alguma esquina perigosa. O sono interrompido por pesadelos de casa vazia, as panelas e cuecas trocadas por uma pedra pequena de crack. A vontade secando, esquálida, famélica. O dinheiro pouco trancado à chave. O que deu nesse menino, que agora anda assim esfarrapado? Dizem que vagava perdido, sem mão amiga ou endereço, órfão de pai zeloso que lhe mostrasse a direção.

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