Spleen e charutos

setembro 23, 2009

O amor insistente de Cleomar Brandi

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:28 pm
Mulheres famintas, picuinhas cotidianas, e o respeito à palavra no primeiro livro de Cleomar Brandi

Mulheres famintas, picuinhas cotidianas, e o respeito à palavra no primeiro livro de Cleomar Brandi

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Um escriba envergonhado assina essa entrevista. Cleomar Brandi, uma das figuras mais queridas do jornalismo sergipano, o melhor copo da cidade, se dispõe a falar do nascimento de seu primeiro filho, e o irresponsável diante de vossos olhos se limita e enviar meia dúzia de perguntas para o e-mail do cronista, negligenciando o conhaque e as literatices indispensáveis à ocasião. O leitor, no entanto, pode ficar despreocupado, e encarar a leitura sem receio. Autor e personagem, dono de um texto seguro, Cleomar contornou a situação do mesmo jeito que leva a vida: Na flauta, abrindo uma janela para a poesia que seu coração abriga, sonhando alto ao mesmo tempo em que observa as miudezas cotidianas do chão.
Antes que digam por aí que isso não é jornalismo, convém lembrar. “Os segredos da Loba” será lançado amanhã, a partir das 18 horas, na sede da Sociedade Semear.

Jornal do Dia – Pelo que entendi, a partir das matérias publicadas em função do lançamento de seu primeiro livro, a paixão pelo universo feminino e pelas palavras são o grande Leit Motiv, não apenas de sua pena, mas também de sua existência. Depois de tanto tempo em contato com esse bicho arisco (nos dois casos), ficou mais fácil lidar com ele?

Cleomar Brandi – Na verdade, são dois belos desafios: a palavra e o universo feminino. Os dois são cheios de filigranas, sendas, trilhas, bifurcações (?). A palavra é inquieta, cheia de esquinas, dança capoeira. A figura feminina tanto dança um frevo como um bolero, cheia de interrogações, tem fome de minotauro. E a gente gosta de tentar decifrar isso, apenas como um amador insistente.

JD – Não sei se você concorda comigo, mas sinto falta do cuidado com a palavra no trato diário do jornalismo que se faz hoje em dia. Ao longo dos anos, Sergipe revelou grandes craques do jornalismo que demosntraram, todos eles (a gente pode citar Joel Silveira, o poeta Amaral, Luciano Correia, Fernado Sávio, entre inúmeros outros) um respeito muito especial no manejo de sua maior ferramenta de trabalho. Será que isso explica a ausência da crônica em nossos periódicos?

Brandi – Realmente, essa coisa do trato com a palavra é um problema muito sério. Acredito que a raiz de tudo está na leitura de bons livros. Minha geração, por exemplo, acostumou-se a ler de Flaubert a Machado de Assis, de Tchecov a Drummond. Isso ajudou a formar uma geração de bons cronistas, como Rubem Braga e muitos outros. Hoje, se você perguntar a muitos que fazem jornalismo se já leram Rubem Fonseca, talvez nem saibam quem é. É por isso que dizem que os cronistas estão morrendo. Mas eles estão vivos.

JD – Como foi selecionar apenas 71 crônicas num universo tão vasto como o de seus escritos (falam em mais de 700 crônicas no escuro da gaveta)? Qual a importância da publicação? Dado o desprezo corrente em relação à leitura (mesmo entre colegas jornalistas) você não teme acabar alimentando as traças dos sebos?

Brandi – Não me preocupo muito com relação às gordas traças dos sebos. E quanto ao esquecimento da leitura constante, que está se tornando quase um hábito das pessoas, isso me faz ficar pesaroso com quem não quer conhecer o mistério e a cumplicidade de um bom livro. Quando você se acostuma fazer da escrita diária e da leitura constante amigas do dia a dia, percebe que o grande segredo do mundo é a palavra chamada “conhecimento”. Pra mim, a maior riqueza da minha vida.

JD– Vou tomar a liberdade de fazer mais uma provocação. Quando comecei a publicar meus garranchos aqui no Jornal do Dia, tomei para mim que escrever significava perder amigos. Você, por outro lado, é uma pessoa muito querida. Como equilibrar a virulência, por vezes necessária, de um texto, sem agredir as pessoas eventualmente envolvidas, ou mesmo o leitor?

Brandi – Tem um ditado antigo que diz que “o pau que dá em Chico também dá em
Francisco”. Eu nunca me preocupei muito com ferir essa ou aquela pessoa com minhas opiniões. Ora, se um cara é corrupto, eu tenho que chamá-lo de safado. E chamo. Por essas coisas já criei algumas arestas, mas dá pra continuar mantendo a linha e a dignidade. Afinal, quando você escreve uma crônica num jornal e assina, qualquer processo que role é você que vai responder e não a empresa na qual você trabalha. Por isso gosto de assinar tudo que escrevo.

JD – Em entrevista ao Jornal da Cidade, você afirmou que o seu trabalho depende da realidade, deve muito à labuta no jornalismo. Isso possibilitaria ao leitor mais perspicaz identificar o momento em que o texto teria nascido. A crônica também pode ser entendida como uma fotografia?

Brandi – A crônica é mais que a fotografia. Ela é também a revelação da palavra escrita. Essa coisa de ter os olhos multifacetados faz você enxergar detalhes que podem passar despercebidos a muita gente. Acho gostoso ficar ligado em tudo. É o meu natural. Às vezes, quieto, numa mesa de bar, alguém pode pensar que estou meditando e na verdade estou é ligado em alguma coisa que está acontecendo ao meu redor.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: