Spleen e charutos

setembro 22, 2009

Rosângela Rocha e os perrengues do Curta-SE

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 7:34 pm
Rosângela Rocha, diretora executiva da Casa Curta-SE

Rosângela Rocha, diretora executiva da Casa Curta-SE

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quase não saía do papel. Parece que se dependesse do financiamento local, o único festival de cinema do Estado – um dos eventos mais importantes do calendário cultural de Sergipe – teria nadado durante dez anos pra acabar morrendo na praia. A Petrobras, no entanto, abençoou a iniciativa e, semana que vem (de 29 de setembro a 03 de outubro), depois de ter sido adiado duas vezes, o Curta-SE 9 finalmente tomará conta do Cinemark Jardins.
Esperto como a gota, este escrevinhador de palavras rasteiras aproveitou a oportunidade para trocar uma idéia com a diretora executiva da Casa Curta-SE, responsável pelo festival, e fazer algumas provocações. Rosângela Rocha não se esquivou, e o resultado pode ser conferido pelo leitor logo abaixo.

Jornal do Dia – Em quase uma década de atividade, qual a maior contribuição do Curta-SE para o amadurecimento da reflexão a respeito do audiovisual em Sergipe? Qual a importância dessa reflexão?

Rosângela Rocha – Sem modéstia alguma, classificaria o cenário local em antes e depois do Curta-SE. Primeiro, pela reinserção de Sergipe no cenário nacional, incentivo à produção anual, fomentação das reflexões sobre questões antigas e contemporâneas do cinema e audiovisual brasileiro e mundial. Segundo por provocar a construção de uma política pública para o setor, ainda inexistente em Sergipe. Acreditamos que isso vá acontecer quando os realizadores se conscientizarem da importância de sua inserção no desenvolvimento de nossa cultura local, enquanto ser humano e enquanto mobilização de uma indústria criativa, formada com a participação e expressão de sua inventividade, movimentando a cadeia produtiva e o cenário econômico do setor.

JD – Ao longo desses anos, o festival passou por diversas transformações (inclusive de nomenclatura). Essas transformações podem ser entendidas como reflexos da importância adquirida pelo Curta-SE? Em que medida elas foram necessárias?

Rocha – Aprendemos com o Curta-SE a cada ano. Isso é provocado também pela movimentação do cenário do audiovisual, pelo que vamos observando, participando do cenário político do cinema e audiovisual brasileiro. Por isso, estamos sujeitos às mudanças.

JD – Conversando com alguns profissionais ligados ao maio audiovisual em Sergipe, percebi que, embora todos reconheçam a necessidade de eventos como o Curta-SE, algumas pessoas gostariam que o festival, através da Casa Curta-SE, fosse responsável por uma atividade mais continuada, que interferisse em nosso meio cultural durante todo o ano. Em sua avaliação, a crítica possui algum fundamento? Existem planos para ampliar a atuação da Casa Curta-SE?

Rocha – Embora comunguemos desse desejo, o cenário ainda não é propício porque não temos uma política pública que favoreça a continuidade de nossas ações. Toda atividade demanda de planejamento financeiro, e isso não é tão simples em se tratando de investimentos em projetos culturais em Sergipe. Como você sabe, a Lei de Incentivo à Cultura do Município não está em atividade. Também não temos o Fundo Estadual em atividade, e o incentivo privado é quase inexistente, salvo para as atividades de mega shows pagodísticos, de forró e etc… Então, fazer o Curta-SE, captar recursos para o Curta-SE já é muito difícil. Aliás, só conseguimos fazer o Curta-SE porque conseguimos nos classificar no edital da Petrobras, porque o incentivo local é difícil e quase insuficiente. Então, se mal conseguimos realizar o Curta-SE, como prever outras atividades com continuidade sem incentivo?
Mas, para aliviar um pouco nossos conterrâneos, divulgamos aqui que depois de percorrer todas as instâncias burocráticas do convênio com o Ministério da Cultura, aprovamos nosso Projeto Avenida Brasil no edital de Pontões, e teremos em breve a sua implantação, com oficinas exibições e co-produção de conteúdos para TV, o que poderá dar uma nova energia ao nosso cenário.

JD – Muitos criticam também os altos investimentos realizados recentemente pela administração pública em produções nacionais rodadas em Sergipe. De acordo com as críticas (com as quais este escriba comunga), o volume do investimento não estaria a altura dos resultados alcançados em nenhuma esfera (a estética, inclusive). Como você, na qualidade de diretora executiva do único festival de cinema realizado em Sergipe (uma militante do meio, portanto), acompanha a polêmica?

Rocha – Em parte comungo com as críticas. Ressalto que trazer produções para serem filmadas em Sergipe é importante, mas tem que ter algumas sistematizações inevitáveis, a exemplo do contrato de pessoal, por isso a movimentação sindicalista para equiparação de preços equivalentes aos praticados no eixo Rio-São Paulo é inevitável para não nos fazermos de tolos, respeitando, claro, as proporções de conhecimento e prática.
Outro ponto importante: Por que o incentivo aos filmes seria maior que os projetos incentivados localmente? Tá errado. O Curta-SE, por exemplo, não teve nem 4% dos incentivos dados às produções de fora. Ficamos sempre incentivando uma mentalidade colonialista.
Em terceiro lugar vem a falta de um edital público que fomente as produções. Já passou da hora! Cadê os realizadores adormecidos em berço esplêndido? Política se faz diariamente. O sergipano é muito acomodado, isso em outros estados dá o maior barulho. O orçamento deve ser público e de todos de fato.

JD – Pra finalizar, depois de tanto tempo em contato com a produção local, por meio das mostras realizadas pelo Curta-SE, dá pra ter esperança no audiovisual sergipano? A nossa produção evoluiu de algum modo nos últimos anos?

Rocha – Sim, evolui na mesma proporção do incentivo. É claro que o conhecimento é individual e o interesse de evoluir deva partir de cada um, mas se houver um compartilhamento geral de que o fomento deva existir com mais propriedade, isso deve crescer com mais fervor. Digo sempre que qualidade vem com quantidade. Tem que fazer muito, ler muito, trocar idéias com outras pessoas para que o crescimento seja visível. Aliás, não dá pra ser feliz sem qualidade de vida cultural.

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