Spleen e charutos

setembro 9, 2009

Maria Scombona nua e crua

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 7:48 pm
O instinto, o sotaque e a naturalidade de Henrique Teles registrados em novo trabalho da Maria Scombona

O instinto, o sotaque e a naturalidade de Henrique Teles registrados em novo trabalho da Maria Scombona

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Tava pior do que couro de pica. Foi preciso mais de uma semana para encontrar uma brecha na agenda da rapaziada. Os integrantes da Maria Scombona são músicos requisitados, que se desdobram em diferentes bandas para pagar as contas, e transpiram sobre os instrumentos para garantir o pão de cada dia. Na noite da última terça-feira, no entanto, Rafael Jr (bateria), Henrique Teles (vocal) e Robson Souza (baixo) conseguiram arrumar um tempinho e dispensaram duas horas de atenção a este cronista, agradecido pela oportunidade rara de fazer jornalismo de verdade.

O terceiro disco da Maria, não é novidade pra ninguém, deve ser lançado nos próximos meses. Com o título provisório de “Um nu”, o novo registro de uma das bandas mais relevantes no atual cenário da música sergipana vai contar com onze faixas que, no entendimento de Rafael Jr, perseguem uma sonoridade mais crua.

De acordo com Henrique Teles, que assina todas as canções da banda, a observação faz sentido. Ele acredita que o músico não pode ficar entronado no conformismo, governando com enfado as fronteiras delimitadas pelas próprias pegadas. “Vale a pena se surpreender. A cada novo trabalho, tomamos o cuidado necessário para não nos repetir”.

Quem conhece a discografia da Maria, sabe que a observação não é retórica. Embora conserve certa coerência, preservando alguns elementos fundamentais, os dois discos já lançados pela banda registram formações e escolhas diferentes. Se em “Grão”, o primeiro trabalho da banda, os caras atiram em várias direções – dos aboios ao blues, do coco de embolada à soul music, do forró ao jazz –, em “Mais de um nós” o contorno das canções é desenhado quase sempre pela guitarra jazzy de Saulo Ferreira (um verdadeiro monstro das seis cordas). Henrique Teles observa, contudo, que a Maria nunca foi carregada nas costas por nenhum músico em especial.

“Não vejo nada em nosso trabalho que não seja totalmente indispensável, nem qualquer elemento que se destaque mais do que outro. A Maria veio em função de meu trabalho de compositor. Como não tenho noção instrumental, no entanto, sempre fiquei muito confortável para dividir essa responsabilidade, mas a composição é maior do que tudo”.

Henrique acredita, inclusive, que essa divisão de responsabilidades deve ficar ainda mais fácil nesse último trabalho, em função do aperfeiçoamento procurado pelos músicos, alunos do curso de música oferecido pela Universidade Federal de Sergipe. “Para mim, que estou de fora, é mais fácil perceber que Rafael, por exemplo, naturalmente responsável pela parte rítmica, agora consegue dialogar com o resto da banda e entender o que eles estão propondo. O nível de diálogo cresceu muito”.

Outro mito combatido por Henrique Teles diz respeito às supostas bandeiras levantadas pela Maria. Ele explica que nunca se propôs a defender o regionalismo como o caminho mais viável para a música sergipana, ainda que combinado a elementos universais. Dono de um sotaque carregado, o compositor entende que o seu processo de composição é natural e intuitivo, e que se, por vezes, a Maria percorre os caminhos áridos da música nordestina, isso ocorre sem nenhuma preocupação, além da música.

“O que eu defendo é não ter vergonha de ser como sou, de falar como realmente falo. Não sabemos quem somos, não nos reconhecemos. A destruição de nossa cultura é a destruição de nossa auto-estima. Essa história é muito característica de Aracaju. É nosso perfil de importador, que reflete uma cultura de povo colonizado. Na minha escola, era proibido falar ‘oitcho’, diziam que era errado. Errado um cacete!”.

Henrique Teles continua, encerrando a questão e a entrevista com a elegância costumeira. “Uma das coisas que mais me agradam no nosso trabalho é que a gente conseguiu fugir da caricatura. Não nos vemos obrigados a usar um tambor, se ele não for necessário, nem a falar ‘cabrunco’ se isso não for indispensável ao que a gente está propondo. O local está presente somente quando é necessário, e o bom é que todo mundo percebe isso”.

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4 Comentários »

  1. Muito bem resumido o encontro e o bom papo!
    Parabéns!

    Comentário por Rafael Jr. — setembro 9, 2009 @ 11:14 pm

  2. Normalmente te leio mais pelo jornal do que por aqui… mas sempre gostei do seu jeito de fazer jornalismo bem fora do convencional. Ah! e gostei do seu adjetivo pro Saulo – “um verdadeiro monstro das seis cordas”. Eu conheço ele desde pequena e, além disso, ele é sobrinho de consideração da minha avó 🙂

    Comentário por Lara — setembro 11, 2009 @ 1:20 pm

  3. O bom do blog é que vocês podem alimentar o monstro adormecido em meu ego! #)

    Comentário por spleencharutos — setembro 11, 2009 @ 5:42 pm

  4. […] nos chamou, e quis saber do terceiro. Tá lá no Jornal O Dia e no blog do fidapé – Spleen e charutos. Falamos tanto, que tem horas que dá uma doidiça pra o cara anotar no […]

    Pingback por Maria Scombona » Blog Archive » Entrevista Maria Scombona — setembro 12, 2009 @ 5:45 pm


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