Spleen e charutos

agosto 22, 2009

O filho que ainda não veio

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:54 pm

No escuro de sua intimidade, a calcinha manchada entoava cânticos de esperança embebidos em alfazema. Era a certeza pela qual ansiava, esperma derramado sobre ventre infecundo, a manutenção do egoísmo que Maria exercitava desde que se entendia por gente

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Desde então, começou a sonhar com sangue. Bastava fechar os olhos para imaginar o líquido quente e viscoso, vermelho como um assassinato, escorrendo de sua fenda pelas pernas grossas, irrigando uma expressão safada que lhe nascia no canto da boca e aumentava o contorno de seus lábios num sorriso de puta. No escuro de sua intimidade, a calcinha manchada entoava cânticos de esperança embebidos em alfazema. Era a certeza pela qual ansiava, esperma derramado sobre ventre infecundo, a manutenção do egoísmo que Maria exercitava desde que se entendia por gente.

Enquanto sangrasse, haveria tempo para tudo o que ela mais queria. Uma passagem só de ida para o velho mundo, cafés apinhados, orgias palacianas. Tudo o que não alcançava com as mãos era apalpado no futuro, com os dedos enfiados no grelo e espasmos lascivos de ansiedade. Sabe o poema incompleto no fundo da gaveta, o livro abandonado na terceira página, o curso de pintura eternamente adiado para o ano que vêm? Haveria tempo para tudo. Seu nome não era Pedro, mas ela vivia esperando o trem.

Ainda menina, imaculada como as santas do catecismo, rezava todas as noites com o perfume do paraíso enterrado no focinho. Era assim que se preparava para a lama que pressentia. A sua carne preta desabrochava com uma fome de flagelado e fazia súplicas com a voz chorosa de um pedinte profissional. Pelo amor de Deus, uma carícia!

Quando aprendeu a beber, virou o copo num gole. Ela queria amar por todos os buracos, a pele coberta de mordidas e hematomas. Virou um bicho. À noite, miava como os gatos do telhado. Pela manhã ronronava, mastigando a lembrança. Ela era de quem chegasse primeiro, o primeiro macho que encontrasse, o primeiro “psiu” na frente da obra. Amava desinteressadamente, explorando a vocação de satisfazer a qualquer impulso.

Era preciso sangrar, expulsar a culpa coagulada pela xoxota e lavar os pentelhos em água corrente, com sabão em abundância. Sem feto, sem filho, sem compromissos firmados além do próprio umbigo, ainda haveria tempo para orgias de cavalos desembestados, viagens sem roteiro e reuniões barulhentas até o nascimento de outro dia. Era a única coisa que ela pedia.

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