Spleen e charutos

agosto 15, 2009

Homem ao mar*

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:26 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quando um amigo vai embora, rangidos de embarcação me aquecem o sangue. É como se eu nunca tivesse mirado o mar, íntimo das fantasias que assombraram os primeiros navegantes. Meus dias não carecem de amplidão, cabem inteiros entre a avenida Ivo do Prado e a Rua Propriá. Um pouco além, pra mim, já é distante. Não sei como chamar essa preguiça, que nome dar à raiz funda que me prende. Trago viva, no entanto, uma simpatia invejosa, dedicada aos caminhos que levam longe.

Rita Brasileiro desafiou o oceano. Deu de ombros e mergulhou, simplesmente. Devem ter lhe falado dos monstros de três cabeças que moram no coração do azul profundo, histórias de abismos famintos e nuvens carregadas de fúria. Mas ela mergulhou assim mesmo. Nascida nos cafundós do Ceará, minha amiga certamente teve uma infância plena de horizontes. Enquanto eu me entediava com duzentos metros de calçada, na porta de casa, ela corria campos imensos, irmã de todo tipo de bicho, rainha do milho que renuncia ao resto do mundo, apaixonada pelo brilho do celofane grudado na coroa de cartolina. Pelo menos até o momento em que o brinquedo pesa em suas mãos.

Talvez tenha sido a régua de costura de minha mãe – uma peça de madeira com cerca de trinta centímetros de suplícios, conselheira pedagógica muito presente na educação de quatro meninos –, mas lá em casa somos todos estacionários. Lembro de minha irmã mais nova, ainda um bruguelo ameaçando tornar-se gente, embevecida na beira da praia. Ela ouvia a palpitação do universo, as ondas quebrando, mas não tinha coragem para afundar nem mesmo um dedo na água. Mara, a nossa caçula, nunca aprendeu a nadar.

Rita foi embora. Como não tenho coragem pra tanto, queria ser aquele marinheiro na proa do barco, o primeiro a perceber algum perigo no tumulto de seus braços agitados. “Homem ao mar!”, eu gritaria com toda a força de meus pulmões. Rita se riria de meu desespero. Estava apenas acenando, em despedida.

*Em tributo à memória de Célio Nunes

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