Spleen e charutos

agosto 8, 2009

Eu não sei dançar tão devagar

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:54 pm

Seria cômico, se não fosse trágico. O gogó do governador foi o principal assunto discutido em uma semana inteira de trabalho na Assembléia Legislativa de Sergipe

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Uma ladainha morosa, arrastada em tom monocórdio por um bando de velhos gordos fantasiados de palhaço. A julgar pelo que ganha espaço nas páginas cúmplices de nossa imprensa, é assim que pode ser definida a voz política de Sergipe.

O leitor não precisa se fiar na letra enfastiada do cronista. Uma consulta apressada aos arquivos empoeirados de sua própria memória revelará os personagens mais atuantes na vida pública do Estado. Pra cima e pra baixo nas vielas do noticiário, estes senhores nunca foram fotografados com um projeto de lei embaixo do braço. Aboletados nos tamboretes midiáticos, eles trocam acusações, contam piadas e desfiam causos.

Na semana em que a Assembléia Legislativa retomou suas atividades, nada mais oportuno do que lembrar as atribuições daquela casa. Se nenhum golpe de estado foi aplicado sob o azul escandaloso do céu de Aracaju, caberia ao Poder Legislativo a elaboração das leis e a observação do seu cumprimento, além da fiscalização dos atos do Executivo. Depois de tanto tempo com as pernas pra cima, no entanto, nossos parlamentares preferiram cavoucar o lodo guardado em seus umbigos entediados.

O deputado Francisco Gualberto (PT) tomou ares de regente e sinalizou a entrada do coral. Reproduzindo o comportamento que tanto o incomodou, acusou o ex-governador João Alves Filho (DEM) de antecipar o debate eleitoral e, na base de muita ironia, rendeu graças e aleluias à lira do governador. “Desejamos que Marcelo Déda continue cantando, até para aliviar a alma e enfrentar os inúmeros problemas de Sergipe”.

Venâncio Fonseca (PP) não perdeu a chance de animar a platéia e, como farianum circo, retrucou com a retórica piadeira que caracteriza suas intervenções na tribuna. “Eu prefiro Marcelo Déda cantando do que administrando. Cantando ele faz menos mal a Sergipe”.

Seria cômico, se não fosse trágico. O gogó do governador foi o principal assunto discutido em uma semana inteira de trabalho na Assembléia Legislativa de Sergipe.

Eu não sei cantar. Apaixonado pela voz negra de Billie Holiday, não me atreveria a nominar de tal modo o ruído esganiçado que escapa de minha garganta embaixo do chuveiro. De olhos fechados, posso até arriscar uns passos, desde que a melodia me arraste a paragens distantes. Pode ser implicância, ingenuidade, ou romantismo, mas não consigo me acostumar com a maneira preguiçosa que a banda toca por aqui.

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