Spleen e charutos

julho 31, 2009

Eu, rábula

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:22 pm

Que os profissionais falem claramente em reserva de mercado ou comecem a trabalhar direito. Como atesta a recente campanha de criminalização dos movimentos sociais a função social da notícia não tem nada com isso

Rian Santos
Riansantos@jornaldodiase.com.br

Rábula é uma palavra mais bonita do que jornalista. Por favor, ao me encontrar na rua, me aponte com o dedo e, tomando o cuidado de preservar as crianças, cuspa o adjetivo que tanto terror lhe inspira. Rábula!

Eu estudei Comunicação Social, aturei professores que nunca pisaram numa redação enchendo a boca de ética, arrotando manuais de deontologia. Como não tenho vocação para lamber a bota suja das autoridades, contudo, não serei nunca reconhecido como o que de fato sou – um esfomeado que deu um passo em falso e acabou jornalista.

Por uma questão de honestidade intelectual, é preciso esclarecer que nunca fui um aluno aplicado. Não gosto de cumprir prazos e dificilmente me dedico a uma tarefa por obrigação. Talvez por isso, a literatura foi sempre o único domínio no qual já me senti á vontade. Mesmo na época da Universidade, não foram poucas as vezes em que fingi acompanhar uma aula tateando os versos de Fernando Pessoa. Não perdi nada. Dessa paixão clandestina, ao contrário, nasceu a modesta biblioteca para a qual eu sempre recorria na tentativa de tornar os trabalhos acadêmicos interessantes.

Foi por força desse hábito que o meu desprezo pelo saber institucionalizado encontrou sua justificativa mais escandalosa. Entre estatísticas enfadonhas e filósofos que não gostavam de mulher, encontrei a brecha que precisava pra meter Baudelaire na brincadeira. Sapequei, com o devido crédito, logo na primeira página: “Deus protege aqueles a quem ama das leituras inúteis”. O professor não gostou da citação. Pediu desculpas por não conhecer o autor da heresia, e me deu uma nota qualquer. Isso mesmo! O responsável por uma turma de Comunicação da UFS, jornalista diplomado, nunca tinha ouvido falar em Charles Baudelaire!

Bacharel em comunicação Social – o título é pomposo, não é mesmo? – não encontro nos periódicos que leio religiosamente por imposição do ofício nada que justifique a choradeira em torno da decisão do Supremo Tribunal Federal que extinguiu a obrigatoriedade do diploma universitário para o exercício do jornalismo. Que os profissionais falem claramente em reserva de mercado ou comecem a trabalhar direito. Como atesta a recente campanha de criminalização dos movimentos sociais, a reiterada condenação ao direito de greve que pontuou todos os veículos da nossa imprensa diplomada, o interesse público e a função social da notícia não têm nada com isso.

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1 Comentário »

  1. Caro Rian, aprendi nessa vida que a arrogância vem acompanhada de doses iguais de ignorância…muitos dos que hoje balançam seus diplomas e clamam por uma reserva de mercado só devem te lido os resumos dos livros pedidos no vestibular.
    O papel que desempenham bem é de puxa-sacos do poderoso de plantão.
    Para estes cabe recitar mil vezes Mario Quintana ( será que sabem quem é?)
    Todos estes que aí estão
    Atravancando o meu caminho,
    Eles passarão.
    Eu passarinho!

    Roberto Nunes

    Comentário por Roberto Nunes — julho 31, 2009 @ 2:59 pm


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