Spleen e charutos

julho 24, 2009

Como os meninos maus fazem com as moscas

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:39 pm

O presidente da Emurb tratou a tragédia como uma fatalidade, e se esquivou das responsabilidades que lhe foram confiadas quando assumiu o cargo (…). Trata-se de um caso claro de ausência de compromisso social e ingerência administrativa

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Há quem diga que tudo acontece na hora certa. O mesmo desocupado que tange os planetas e puxa a cortina da noite num gesto lento e delicado que se repete todos os dias, estaria atento a cada pequeno movimento dos personagens agoniados de uma esfera doente perdida no espaço. Como um títere de nove braços, ele seria responsável por tudo o que ocorre aqui embaixo. O encontro de dois carros num cruzamento, o orgasmo escandaloso da vizinha, a precipitação de uma folha cansada do galho, tudo seria fruto de um capricho imaginado pelo maior comediante do mudo para engrandecer o espetáculo.

A julgar por alguns acontecimentos recentes, tem muita gente aboletada na administração pública que compartilha do pensamento. Na última quinta-feira, o Jornal do Dia publicou em letras bem grandes no alto da primeira página: “Mais uma criança morre em canal no 18 do Forte”. Mesmo um leitor desatencioso percebe que não se trata do primeiro caso. Apesar disso, no entanto, o presidente da Empresa Municipal de Obras e Urbanismo (Emurb), Paulo Roberto Costa, tratou a tragédia como uma fatalidade, e se esquivou das responsabilidades que lhe foram confiadas quando assumiu o cargo.

A reportagem da jornalista Cássia Santana publicada na referida edição informa que no primeiro “acidente”, ocorrido há apenas dois meses, a vítima foi uma criança de oito anos. No caso mais recente, Ryan Leandro Lima, com dois anos incompletos, foi tragado pelas águas do canal e morreu afogado. Há informações de que a Prefeitura tem um projeto para a área, mas isso não exime as autoridades de culpa. Ao contrário de minha colega de redação, não acredito que a responsabilidade pela tragédia deva ser atribuída ao grande volume de chuva que vem caindo sobre nossas cabeças. Trata-se de um caso claro de ausência de compromisso social e ingerência administrativa.

Não acredito em um Deus que escuta a oração dos flagelados de olhos fechados. Não acredito que sua mão desenhe a trajetória das balas perdidas nos astros. De outro modo, estaria me fiando nas palavras do Rei Lear, de Shakespeare. “Como os meninos maus fazem com as moscas/ Os deuses se divertem nos matando”.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: